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Padres alertam para "drama" na região do Douro

19 set, 2014 • Olímpia Mairos

Padres da Régua, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio denunciam graves problemas económicos e sociais associados à vitivinicultura. “A pobreza está a aumentar no Douro", alertam, pedindo a intervenção “urgente” de Presidente da República, Governo e Assembleia da República.

Padres alertam para "drama" na região do Douro
Os párocos da região do Douro - Régua, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio - alertam, em comunicado, para o "drama socioeconómico” dos pequenos e médios vitivinicultores do Douro, que “há praticamente uma década, perdem rendimentos provenientes da vinha”.

“A pobreza está a aumentar no Douro e ninguém faz nada para contrariar a situação”, diz à Renascença Luís Marçal, pároco do Peso da Régua, salientando que “há vinhas onde o produto da venda das uvas não dá sequer para pagar a vindima”.

O sacerdote diz que, nos últimos 10 anos, o preço dos vinhos para os pequenos e médios viticultores diminuiu “mais de 50%”, ao mesmo tempo que “as despesas de cultivo foram sempre aumentando”, havendo, por isso, "vitivinicultores a arrancarem as vinhas”.

“Percorremos o Douro e vemos vinhas transformadas em monte, abandonadas, e há montes que estão a ser saibrados para serem transformados em vinha. Se dá para alguns transformarem os montes em vinha, por que é que, para outros, não dá, a ponto de terem que a abandonar?”, questiona o padre Luís Marçal.

O sacerdote garante que “é possível" fazer do Douro uma “mesa enorme”, onde todos se sentem “ao mesmo nível, a comer do mesmo pão, a beber do mesmo vinho”, assegurando que os sacerdotes da região vão continuar a “lutar por essa possibilidade”.

“É preciso acabar com o jogo em que o poderoso engole o mais fraco” 
Rrecorrendo a uma passagem do Antigo Testamento, Luís Marçal lembra que “quando o patriarca Jacob deixou a herança aos filhos, chamou ao vinho o sangue das uvas”, para concluir que “as uvas são sangue da videira e a videira é o sangue do lavrador”.

“É pena que, na nossa região, poucos vampiros e sanguessugas chupem o sangue de tanta gente”, lamenta.

Em causa está, sobretudo, a falta de “medidas” que protejam os pequenos e médios vitivinicultores face à actuação das “grandes empresas de comercialização”, que “dominam cada vez mais o mercado”, refere o pároco.

O relacionamento entre as duas partes, na região demarcada do Douro, é “cada vez mais desigual”, sublinha o sacerdote, e “o luxo protegido dos mais poderosos contrasta com a miséria e as lágrimas da maioria dos que ali residem e fazem vida”, conclui.

“É preciso acabar com o jogo da competitividade, da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco”, defende o padre Luís Marçal.

Por outro lado, as instituições ligadas aos pequenos produtores, como as adegas cooperativas, “entraram, por múltiplas razões, em crise financeira” e outros organismos foram pura e simplesmente extintos”.

A extinção da Casa do Douro, que era, há mais de 80 anos, “o sustentáculo dos produtores de vinho da região, uma espécie de mãe dos vitivinicultores” e a passagem das suas “atribuições” para “um organismo do Estado”, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), é outra das preocupações dos sacerdotes. 

"Nada" de política
Não é intenção dos párocos “assumir qualquer posição político-partidária”. O que os move é “a defesa dos pequenos e médios vitivinicultores desta região”. Por este motivo, pedem uma intervenção “urgente” do Presidente da República, Governo e Assembleia da República.

“Tão urgente quanto necessário, para tranquilizar os lavradores do Douro. Para lhes dar um pouco de conforto, de alegria e de paz. Para evitar as tantas insónias que sofrem ao verem que terminou a vindima e têm que começar outra colheita, sem apoios nem garantias - a cavar a sua sepultura económica”, defende o padre Luís Marçal.