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"O credo do mercado substituiu o credo dos valores"

11 mar, 2014 • Filipe Avillez

Adriano Moreira diz que o Papa tem de afirmar "o poder da palavra contra a palavra dos poderes".

"O credo do mercado substituiu o credo dos valores"
"O credo do mercado substituiu o credo dos valores"
Adriano Moreira considera que o Papa Francisco tem o dever de afirmar "o poder da palavra contra a palavra dos poderes", num mundo onde "o credo do mercado substituiu o credo dos valores". O professor falava na abertura da conferência "Francisco: Um Papa do Fim do Mundo", uma parceria entre a Renascença, a Universidade Católica e a agência Ecclesia para assinalar o primeiro aniversário do pontificado de Francisco.

O Papa Francisco tem como "pesada herança" a responsabilidade de afirmar "o poder da palavra contra a palavra dos poderes", afirmou esta terça-feira Adriano Moreira, na conferência "Francisco: Um Papa do Fim do Mundo", na Universidade Católica, em Lisboa.

Esta palavra dos poderosos foi associada ao mundo do globalismo, disse. E o cenário, defendeu, é negro: "A ONU transformada num templo de orações a deuses desconhecidos com mais de metade dos estados membros incapazes de enfrentar a pobreza a fome e os problemas climáticos; a divisão de cristãos agravada pela queda de número de fiéis em igrejas tradicionais, o aumento de centros de apelo à espiritualidade desordenada; desconfianças entre cidadãos europeus e os seus governos; o surgimento de partidos que julgávamos desaparecidos".

Este é um mundo em que se pergunta "se o Estado ainda é forma de Governo, em que o credo do mercado substituiu o credo dos valores, os valores instrumentais superam os valores essenciais, a declaração de impostos substitui a declaração de direitos e os centros de poder financeiros dominantes ou não são cobertos de legalidade, ou são desconhecidos", conclui o antigo presidente do CDS-PP.

Para o professor, a escolha do nome de Papa Francisco, logo na noite da eleição, causou "comprovada emoção" em todo o mundo e pode ser a chave para compreender a sua missão no contexto de um "século sem bússola", sobretudo devido à espiritualidade franciscana, amiga da pobreza, que invoca.

Europa sem "escala de valores"
Francisco insere-se numa lista de vários papas humanistas que, no século XX e XXI enfrentaram o globalismo, considera Moreira.

O facto de ter vindo "do fim do mundo", como o próprio Francisco disse na noite da eleição, enfatiza este facto, uma vez que terá encontrado uma Europa adoecida por uma "economia que mata", banhada por um Mediterrâneo "transformado num cemitério".

O papel da Europa, que "não tem conceito estratégico nem escala de valores para além do equilíbrio orçamental", foi muito sublinhado por Adriano Moreira, que apontou a fragmentação do continente. O enfraquecimento e fragmentação da Europa contribuirá para a perda de importância dos valores cristãos.

"O inesperado está à espera de oportunidade", avisou Moreira, uma ideia que já tinha expressado em entrevista à Renascença.

A conferência "Francisco: Um Papa do Fim do Mundo" é uma parceria entre a Renascença, a Universidade Católica e a agência Ecclesia para assinalar o primeiro aniversário do pontificado de Francisco.