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Que esperança nos traz a ressurreição de Jesus?

18 fev, 2014 • Filipe d’Avillez

A ressurreição é um facto histórico ou um símbolo? Se os cristãos baseiam a sua esperança nesse acontecimento, que esperança sentem os ateus e os agnósticos? Cinco pessoas de áreas diferentes comentam uma ideia angular para o Cristianismo.

De todos os episódios da vida de Jesus Cristo, a ressurreição é a pedra angular da religião cristã. É a ressurreição que permite aos cristãos acreditarem que Jesus era mais que apenas um agitador anti-sistema, um reformador religioso, um profeta desprezado. São Paulo resume bem a posição cristã quando afirma que “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé”, na carta que escreveu aos coríntios, uma das primeiras comunidades da Igreja nascente.

Mas será que a maioria dos cristãos, hoje, compreende a dimensão do milagre em que assenta a sua fé? Que um homem, morto numa sexta-feira, possa ter aparecido vivo, ressuscitado, na madrugada de Domingo? Luís Rodrigues, ateu e autor da “História do Ateísmo em Portugal”, é da opinião de que a esmagadora maioria dos fiéis não pensa sequer no assunto: “A aceitação que têm dessa ressurreição deriva um pouco do ambiente em que vivem, não penso que seja uma reflexão fundada numa análise muito profunda de dados, documentos e história, mas uma assimilação.”

Recorrentemente aparecem até vozes cristãs que procuram relativizar a ressurreição enquanto evento factual, preferindo falar em simbolismo. O agnóstico José Manuel Fernandes admite que é assim que encara o fenómeno: “quando penso na ressurreição penso no seu simbolismo, na capacidade, que deve ser de todos os homens, de se reinventarem permanentemente. Se olharmos para o que diferencia o homem do resto das espécies é que evoluímos não apenas do ponto de vista biológico, mas como cultura e sociedade, de uma forma que é globalmente positiva, isso porque sempre foi possível reinventarmo-nos, encontrarmos outros caminhos, outras esperanças.”

Mas o padre Bernardo Correia d’Almeida, que participa nas jornadas teológicas da Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Porto, que começaram na segunda-feira e são dedicadas precisamente ao tema da ressurreição, recorda que há dois mil anos que se exploram argumentos semelhantes: “Desde o princípio da Igreja, ou desde o princípio desse facto, da morte e ressurreição de Jesus, têm surgido tentativas de fazer um Jesus demasiadamente humano ou demasiadamente divino, de excluir ou de transformar a ressurreição em algo mais simbólico ou aparente.”

Contudo, essa visão é incompatível com o Cristianismo: “É por ser uma realidade factual que brota o sentido pleno da existência humana e da própria esperança”, considera.

A ressurreição é crucial para a história da salvação, acrescenta o Franciscano: “O facto de Jesus não ter pecado, o facto de ser um homem na plenitude da sua existência e de ter ressuscitado, cria um dado que é central na salvação. Uma vez ressuscitado, Jesus leva consigo esse lado humano, para o pai. Daí brota uma luz no mundo, uma água viva dentro de cada um de nós, onde acontece a salvação, a esperança, a fé.”

Esta é ainda a opinião do Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. A esperança dos cristãos, considera, está em saber que a morte foi vencida: “Jesus está agora num estádio definitivo que nos é prometido a todos, de vida plena, independentemente de tempos e de espaços. Isto é para todos nós um grande motivo de esperança, porque o discípulo de Cristo vive a vida de toda a gente, morre a morte de toda a gente. Isto é novo, consolador e esperançoso: Sabe que a morte está vencida e sabe como é que a morte se vence, é vencida dando a vida”.

Razão mais que suficiente para o cristão ter esperança na vida eterna, mas será que essa esperança alcança também as dificuldades diárias, numa sociedade mergulhada em crise? Por outras palavras, está um cristão em melhor posição para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia do que um não crente? O antropólogo e professor Alfredo Teixeira, da Universidade Católica, não vai tão longe: “Isso é difícil de demonstrar. O não crente pode ter outros suportes a alimentar a sua esperança. Para boa parte das pessoas a experiência religiosa é uma experiência que em situações críticas pode atribuir um significado ao que se vive. Nessa medida, é um recurso simbólico muito importante para contribuir para a sustentação da própria vida humana, mas não posso dizer que seja o único recurso”, considera.

Luís Rodrigues diz que os ateus, como ele, têm duas possibilidades: “Podemos ter uma atitude de angústia depressiva, ou podemos ter uma atitude de serenidade estóica. Um bom exemplo disso é Séneca nas cartas a Lucílio que fala da morte e encara como facto natural e não podemos fazer nada em relação a isso e não é razão para desesperarmos”.

Noutra posição encontram-se os agnósticos, aqueles que não tendo fé também não excluem a possibilidade de as religiões estarem certas. É o caso do jornalista e comentador José Manuel Fernandes, que admite não encontrar esperança na crença, mas ainda assim não deixa de procurar entre exemplos religiosos: “Não tendo fé não consigo ir buscar essa esperança à crença, mas procuro ir buscá-la a exemplos inspiradores e ao mesmo tempo a alguma racionalidade, uma mistura das duas coisas. O exemplo, não apenas da ressurreição mas de tudo o que teve antes da ressurreição, e que levou à morte de Cristo na cruz, é inspirador, mesmo para um não crente”.

Já para o cristão não há espaço para o cepticismo nem para o desespero, considera D. Manuel Clemente. “O motivo de esperança é exactamente este, não há morte que nos separe e a própria morte pode ser cheia de vida.”