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"Falta sensibilidade" para combater o tráfico humano

20 jan, 2014 • Ângela Roque e António Pedro

Portugal demorou a acordar para o fenómeno e a própria Igreja pode fazer mais, defende a irmã Júlia Bacelar, em entrevista à Renascença.

As Irmãs Adoradoras Escravas do Santíssimo Sacramento e da Caridade são uma instituição da Igreja pioneira na luta contra o tráfico humano e actual parceira do Estado na prevenção e combate deste fenómeno. Há vários anos que ajudam mulheres vítimas de exploração sexual e violência doméstica. Ao todo, são 1.200 irmãs em todo o mundo, 23 em Portugal, apoiadas por leigos contratados e vários voluntários.

Portugal demorou a acordar para o fenómeno do tráfico humano e a própria Igreja pode fazer mais, defende a irmã Júlia Bacelar, em entrevista à Renascença. Para a conselheira provincial das Irmãs Adoradoras, é preciso estar alerta e não desperdiçar meios.

“Tanta paróquia, tanto movimento, tantos grupos, tanta coisa. Normalmente as vítimas quando têm alguma liberdade vão à Igreja procurar um bocado de silêncio, ou vão a uma cantina social. O problema às vezes é desperdiçar estes meios. Tenho feito reuniões com seminaristas nos seminários e falo do tráfico. Digo: ‘vocês nas vossas futuras paróquias com certeza que vão lá aparecer pessoas em situação irregular, estejam atentos, escutem’. E há sensibilidade? Pois, não”, lamenta a irmã Júlia Bacelar.

Pioneiras no trabalho com as vítimas de exploração sexual, foram aprendendo a identificar os casos de tráfico, um fenómeno em constante mutação.

“Nunca é igual, um dado que é adquirido num ano, passado dois é ao contrário. Antigamente, os clubes de alterne tinham aquelas redes, tinham as luzes, as câmaras de vigilância, hoje em dia não. Nós as irmãs, como estamos com as mulheres quando elas nos contam e passam por estes fenómenos, seguimos muito as indicações que elas nos vão dando, vamos percebendo como funciona”, afirma a irmã Júlia Bacelar.

As mais recentes comunidades da Congregação abriram em países onde há mais mulheres a ser traficadas. Muitas acabam por ser resgatadas.

“Abrimos uma comunidade de acolhimento no Togo, outra em Cabo Verde, Cuba, República Dominicana,  e agora uma no Nepal, porque descobriu-se que era uma fonte, com muitas mulheres a ser vendidas. No Brasil, e nas Filipinas, onde sei que as irmãs vão aos próprios prostíbulos, é mesmo um resgate autêntico, como se fazia antigamente”, diz a irmã Júlia Bacelar.

A Congregação está há 78 anos em Portugal. Tem actualmente  23 religiosas a trabalhar com mulheres vítimas de violência doméstica e exploração sexual. Muitas foram traficadas. É uma das 22 instituições que integram a Rede de Apoio e Protecção às Vítimas de Tráfico, criada pelo Governo em Junho de 2013, e que esta segunda-feira vai aprovar o seu plano de acção.

Em Coimbra, as Irmãs Adoradoras têm o projecto "Ergue-te", que desde que foi criado, em 2009, já ajudou centenas de mulheres. O objectivo é retirá-las da  prostituição e ajudá-las a refazer a vida.