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Papa culpa “egoísmo, rivalidade e sede de poder” pelas tragédias de 2013

13 jan, 2014 • Filipe d’Avillez

A cultura do descartável, que leva ao desprezo pelos imigrantes, ao aborto e ao abuso das crianças, é um dos horrores dos nossos tempos, disse o Papa, no tradicional discurso ao corpo diplomático.  

Papa culpa “egoísmo, rivalidade e sede de poder” pelas tragédias de 2013
Papa culpa “egoísmo, rivalidade e sede de poder” pelas tragédias de 2013
A cultura do descartável, que leva ao desprezo pelos imigrantes, ao aborto e ao abuso das crianças, é um dos horrores dos nossos tempos, disse o Papa, no tradicional discurso ao corpo diplomático. Francisco elencou aquilo que a Igreja considera serem as principais ameaças à paz no mundo actual. Recordando o ano que terminou, Francisco disse que a “inveja, egoísmo, rivalidade e a sede de poder e dinheiro” são os principais responsáveis pela morte e destruição que marcaram o ano de 2013.
O Papa elencou aquilo que a Igreja considera serem as principais ameaças à paz no mundo actual. Recordando o ano que terminou, Francisco disse que a “inveja, egoísmo, rivalidade e a sede de poder e dinheiro” são os principais responsáveis pela morte e destruição que marcaram o ano de 2013.

Insistiu, contudo, que a violência não triunfará: “Parece, às vezes, que tais realidades estejam destinadas a dominar; mas, o Natal infunde em nós, cristãos, a certeza de que a palavra última e definitiva pertence ao Príncipe da Paz, que muda ‘as espadas em arados e as lanças em foices’ e transforma o egoísmo em dom de si mesmo e a vingança em perdão”.

Francisco discursava esta segunda-feira perante o corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé, um evento anual que o Papa cumpre pela primeira vez desde que foi eleito, em Março do ano passado.

Tradicionalmente o Papa aproveita este discurso para passar em revista as várias regiões e os principais problemas do mundo. Hoje recordou as muitas vítimas daquilo a que chama a cultura do descartável, falando em particular das crianças. “Não podem deixar-nos indiferentes os rostos de quantos padecem fome, sobretudo das crianças, se pensarmos quanta comida é desperdiçada cada dia em tantas partes do mundo, mergulhadas naquela que já várias vezes defini como a ‘cultura do descartável’. Infelizmente, objecto não são apenas os alimentos ou os bens supérfluos, mas muitas vezes os próprios seres humanos, que acabam ‘descartados’ como se fossem ‘coisas desnecessárias’”.

“Causa horror só o pensar que haja crianças que não poderão jamais ver a luz, vítimas do aborto, ou aquelas que são usadas como soldados, violadas ou mortas nos conflitos armados, ou então feitas objecto de mercado naquela tremenda forma de escravidão moderna que é o tráfico dos seres humanos, que é um crime contra a humanidade.”

A tragédia da imigração ilegal
Na mesma linha Francisco lamentou mais uma vez a falta de sensibilidade que leva muitos homens a olhar para os seus semelhantes apenas como números anónimos, e apontou o dedo particularmente aos casos da imigração ilegal, da América Latina para os Estados Unidos, e de África para a Europa. “Perante tais tragédias, infelizmente, verifica-se uma indiferença geral, constituindo um sinal dramático da perda daquele ‘sentido da responsabilidade fraterna’ sobre o qual assenta toda a sociedade civil.”

O Papa aproveitou ainda o seu discurso para falar dos diferentes conflitos que marcaram o mundo durante 2013, com particular destaque para a Síria, sobre a qual decorre ainda esta segunda-feira, no Vaticano. Francisco agradeceu especialmente aos países vizinhos, nomeadamente o Líbano e a Jordânia, pela forma como têm recebido refugiados deste conflito.

A situação dos cristãos perseguidos não foi esquecida, com o Santo Padre a recordar de forma particular o Médio Oriente, a Nigéria e a República Centro-Africana. Numa nota mais positiva, Francisco mostrou-se esperançoso no sucesso das negociações de paz na Terra Santa e alegrou-se pelo progresso nas conversações entre o Irão e a comunidade internacional sobre as armas nucleares.

Aos representantes dos cerca de 179 Estados soberanos com os quais a Santa Sé mantém relações diplomáticas, o Papa assegurou a disponibilidade da secretaria de Estado de continuar a trabalhar no sentido de favorecer aqueles laços de fraternidade que são reflexo do amor de Deus e fundamento da concórdia e da paz.