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"Ninguém quer acolher os refugiados sírios"

29 nov, 2013 • Filipe d'Avillez

Arcebispo maronita de Damasco, Samir Nassar, pediu apoio aos portugueses e ao mundo durante a conferência "Uma Esperança Sem Fronteiras", que decorreu na Universidade Católica de Lisboa.

"Ninguém quer acolher os refugiados sírios"

Desde o início do século XX até ao conflito no Iraque, foram centenas de milhares os que procuraram guarida na Síria, conhecida pela sua estabilidade e moderação. A guerra civil na Síria, que se prolonga há dois anos, apresentou uma realidade inesperada.

"Durante anos, a Síria acolheu refugiados curdos, iraquianos, arménios, libaneses, siríacos. Agora são os sírios os refugiados e ninguém os quer acolher. É muito duro", afirmou esta sexta-feira o arcebispo maronita de Damasco, Samir Nassar, durante a conferência "Uma Esperança Sem Fronteiras", da qual a Renascença foi uma das organizadoras e que decorreu na Universidade Católica de Lisboa.

O arcebispo é um dos que fazem questão de permanecer no país, não admitindo sequer abandoná-lo enquanto lá permanecerem cristãos. Procura ainda convencer os seus fiéis a ficar, para que a presença cristã, que tem dois mil anos, não desapareça da cidade onde São Paulo foi baptizado.

"Gostaríamos que ficassem, mas temos de garantir a sua segurança. Um sírio em Damasco está sempre ameaçado por um sniper, que o pode matar ao virar da esquina, ou por um carro armadilhado - ou por raptos ou queda de mísseis. Os cristãos que ficam são verdadeiros heróis. Por isso, precisamos do vosso apoio, das vossas preces", pediu o arcebispo maronita de Damasco.

Apesar das dificuldades, há esperança. "O povo da Síria sofre, mas confia. Os cristãos olham para o amanhã e esperam reconstruir o seu país, esperam reconstruir a vida cristã. Apesar do sofrimento, a mensagem que trago é de fé e de esperança."

Num momento particularmente emotivo da conferência, o arcebispo projectou uma imagem de um ícone do século X, que representa Nossa Senhora com o menino Jesus e que foi danificada durante a guerra. Depois de explicar a simbologia da imagem, o arcebispo ensinou aos presentes um verso de uma música árabe e depois entoou um cântico de louvor à Virgem Maria, com o resto do auditório a cantar o refrão.

Os cristãos na Síria estão divididos em diversas confissões. A maioria é ortodoxa, mas entre os católicos também há igrejas diferentes, como os melquitas, os siríacos e os maronitas.

Antes do início do conflito na Síria, os cristãos eram cerca de 10% da população, mas muitos fugiram à guerra civil e estão refugiados nos países vizinhos, onde são auxiliados, entre outros, pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre.

A revolta na Síria opõe o regime de Bashar al-Assad a uma panóplia de grupos rebeldes, alguns dos quais de pendor fundamentalista. Os cristãos, globalmente, têm evitado tomar partido, mas tendem a ser vistos pelos rebeldes como apoiantes do regime - por outro lado, são culpados pelo regime pelo facto de não lutarem por ele.

A conferência "Uma Esperança Sem Fronteiras" é organizada pela Renascença, pela Universidade Católica, pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre e pela Paulinas Editora. A iniciativa assinala também o fim do Ano da Fé.