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"Católicos orientais sentem-se cidadãos de segunda na Igreja"

21 nov, 2013 • Filipe d’Avillez

Ashraf Hannah, um católico copta a viver em Portugal há décadas, acredita que questões como o diálogo ecuménico deviam ser deixados nas mãos das Igrejas católicas locais.  

"Católicos orientais sentem-se cidadãos de segunda na Igreja"
"Católicos orientais sentem-se cidadãos de segunda na Igreja"
Ashraf Hannah, um católico copta a viver em Portugal há décadas, acredita que questões como o diálogo ecuménico deviam ser deixados nas mãos das Igrejas católicas locais. Os cristãos no Médio Oriente têm sofrido muitas perseguições ao longo dos últimos anos, sobretudo no Iraque, Síria e Egipto. Este foi um dos principais temas discutidos por estes dias em Roma, onde estiveram vários patriarcas e arcebispos-maiores de igrejas orientais, que esta quinta-feira se encontraram com o Papa.
Os católicos orientais sentem-se, por vezes, “cidadãos de segunda” na Igreja.

A sentença é de Ashraf Hannah, um cristão egípcio, da Igreja Copta-Católica, que está em Portugal há várias décadas.

Muitas das igrejas de rito oriental ordenam homens casados ao sacerdócio, mas uma regra antiga proíbe-os de o fazer fora dos seus territórios tradicionais. Por exemplo, a Igreja Greco-Católica da Ucrânia pode ordenar um homem casado em Kiev, mas não o pode fazer em Nova Iorque, onde vivem 160 mil ucranianos.

Igualmente, os patriarcas ou arcebispos-maiores das igrejas orientais têm total autoridade nos seus territórios tradicionais, mas os assuntos da diáspora têm de passar por Roma, como por exemplo a nomeação de bispos para servir comunidades a viver fora do seu país de origem.

No sínodo dos bispos do Médio Oriente ambos estes pontos foram submetidos ao Papa, mas ignorados na exortação apostólica que Bento XVI entregou mais tarde, na sua visita ao Líbano.

Para Ashraf Hannah este tipo de tratamento cria dificuldades, sobretudo porque as igrejas ortodoxas agem sem qualquer tipo de constrangimento: “É essa a sensação que eles têm. Interrogam-se, porque é que temos de voltar à base para fazer tudo? A Igreja tem de ter uma certa liberdade, sobretudo porque a própria Igreja Ortodoxa faz isso fora do seu território.”

Bento XVI e João Paulo II sempre elogiaram o papel e a espiritualidade dos católicos orientais e o papa polaco até tinha uma avó de rito oriental. Mas o Papa Francisco, enquanto arcebispo de Buenos Aires, era directamente responsável pelos católicos de rito bizantino e por isso tinha um contacto mais próximo.

Ashraf Hannah não tem dúvidas de que o “efeito Francisco” se está a fazer notar a oriente também: “É por causa da simplicidade. Por exemplo o Papa João Paulo II teve uma reacção fantástica no Oriente, mesmo com a Igreja Ortodoxa, chamavam-lhe o Papa Santo. Este Papa pela sua simplicidade, pelo seu discurso suave, é diferente, mas a simplicidade desperta mais espiritualidade. É muito bem visto, sobretudo por ser um Papa que vem também do ‘terceiro mundo’, faz diferença para eles.”

Para este cristão egípcio, que casou com uma portuguesa e actualmente trabalha como tradutor, a descentralização seria benéfica, sobretudo do ponto de vista ecuménico, até porque esta questão é fundamental para os cristãos, sobretudo no Médio Oriente: “O projecto de união entre as confissões cristãs tem de começar já e de forma séria. Enfrentar um problema quando estamos em bloco é óptimo, mas quando estamos divididos todos vão perder”.

Em vários países do Médio Oriente é comum haver quatro ou até mais igrejas católicas a operar em simultâneo, muitas vezes sem grande contacto entre eles, isto para além das diferentes igrejas ortodoxas.

Os cristãos no Médio Oriente têm sofrido muitas perseguições ao longo dos últimos anos, sobretudo no Iraque, na Síria e no Egipto, onde existem populações cristãs consideráveis. Este foi um dos principais temas a ser discutido por estes dias em Roma, onde estiveram vários patriarcas e arcebispos-maiores de igrejas orientais, que esta quinta-feira se encontraram com o Papa.