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"Padres têm alguma vergonha" em falar de planeamento familiar

08 nov, 2013 • Ângela Roque

A Igreja quer saber o que as famílias conhecem sobre o tema. Especialista que dá formação nesta área refere que "a grande maioria" das pessoas "não sabe que existem métodos de regulação natural do nascimento que são extremamente fiáveis".

O planeamento familiar é uma das áreas que o documento preparatório do Sínodo sobre a Família, agendado para Outubro de 2014, propõe reflectir. Para Mary Anne d’Avillez, enfermeira e formadora na área de educação sexual e planeamento familiar, existe "alguma vergonha" e "pouco à-vontade" entre os padres para falar sobre os métodos naturais de regulação da fertilidade que são aceites pela Igreja Católica.

Mary Anne d’Avillez, que foi consultora da Conferência Episcopal Portuguesa, reconhece que o papel dos leigos é aqui fundamental, mas espera mais empenho e apoio da hierarquia da Igreja. Nesse sentido, considera que é importante que os padres estejam informados, apesar de ser difícil falar de sexualidade, até por "terem medo que lhes digam que não sabem nada do assunto por serem celibatários". 

A especialista, que também pertence ao Movimento Defesa da Vida (MDV), diz que são poucos os católicos que conhecem o que a Igreja propõe. "A grande maioria tem uma vaga ideia que é tudo proibido. Não conhece ou não sabe que existem métodos de regulação natural do nascimento que são extremamente fiáveis e reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde." Os principais são o método sintotérmico e o método Billings, que estudos recentes na China e na Alemanha comprovaram ter uma eficácia superior a 99%. "Mais do que a pílula", diz.

Mary Anne d’Avillez refere "as pessoas têm de perceber que os métodos de regulação natural da fertilidade fazem parte da gama de escolha de métodos de planeamento familiar, em que há uns que são técnicos, que são os métodos contraceptivos, e há outros que são naturais, que são os que usam a fisiologia da mulher para que se perceba quando está fértil e quando está infértil". "Não implicam tomar nem colocar nada", sublinha.

Além disso, "um casal não tem liberdade de escolha se não conhece todos [os métodos]", nem consegue avaliar "a diferença moral e ética que existe entre uns e outros". E é aí que a Igreja baseia a sua doutrina.

"Claro que estes métodos só funcionam bem num casal estável. Este documento [para o Sínodo] fala sobre casais cristãos - não é um cristão que quer depois estar a dormir com A, B, C e D. Implica uma moral e uma ética."

Com largos anos de experiência nesta área, Mary Anne d'Avillez garante que quem a procura, e ao MDV, para aprender estes métodos não o faz por fundamentalismo religioso. "Tem sido sobretudo por razões ecológicas ou de saúde - mulheres que têm problemas graves e não podem mesmo usar o método contraceptivo, por exemplo. A maioria não é por razões religiosas."

O planeamento familiar é uma das áreas que o documento preparatório do Sínodo sobre a Família propõe reflectir. O ponto 7 do inquérito pergunta se os cristãos conhecem a encíclica "Humanae Vitae" sobre a regulação da natalidade (de 1968), se aceitam a doutrina moral que aí é proposta e que informação lhes é transmitida pela própria Igreja.

Mary Anne d'Avillez espera que a Igreja portuguesa saiba aproveitar a oportunidade deste inquérito para mudar alguns procedimentos. Por exemplo, incluir o tema do planeamento familiar e dos métodos naturais de controlo da fertilidade nos cursos de preparação para o matrimónio.

Em Portugal, a formação a este nível é dada por movimentos ligados à Igreja, como o Movimento de Defesa da Vida e a Associação Família e Sociedade.