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Igreja quer que as famílias digam "onde é que lhes dói"

04 nov, 2013 • Filipe d’Avillez

"Quem está a viver um segundo casamento não pode vir a ser santo? Temos de criar condições para que isso possa acontecer", considera o cónego Carlos Paes, a propósito do sínodo sobre a família.

Igreja quer que as famílias digam "onde é que lhes dói"
O sínodo para a família, marcado para daqui a um ano, pode trazer algumas alterações ao nível da prática pastoral, sobretudo em questões como as segundas uniões e a homossexualidade, embora a doutrina católica não possa mudar.

Recentemente, o Vaticano enviou para as dioceses um documento preparatório para este sínodo, conhecido como "lineamenta", que contém várias perguntas. Esta é uma prática normal, mas que neste caso deve envolver mais directamente os leigos, explica o padre Carlos Delgado, assistente espiritual do secretariado nacional das Equipas de Nossa Senhora (ENS), um movimento de casais católicos.

"É um documento preparatório que sempre se faz para todos os sínodos e que de maneira prioritária é enviada aos bispos, mas o Papa quer que esta consulta seja mais verdadeira e activa. Portanto, não há nada de extraordinário - há este vincar e esta tonalidade tão típica do Papa Francisco de chegar às pessoas concretas e às que vivem o dia-a-dia desta problemática familiar", explica o padre Carlos Delgado.

A natureza do sínodo, que discutirá questões como a situação dos divorciados em segundas uniões, o planeamento familiar e as uniões de homossexuais, levou a que estas perguntas tivessem um maior impacto mediático, levando a especulações de que a Igreja preparava uma revolução doutrinal. Mas o que se pode esperar é uma nova abordagem pastoral, diz o padre Carlos Delgado, que explica a diferença.

"A questão doutrinal tem que ver com a mensagem traduzida numa linguagem universal. A pastoral são as questões concretas do dia-a-dia, aquilo que no fundo dificulta ou facilita a vivência cristã num determinado contexto. É mais esta questão experiencial que está em causa. É isto que tem de ser questionado e que as pessoas têm de apresentar. Dizer onde é que lhes dói, para usar um termo clínico", relata o padre Carlos Delgado. 

"Se a questão dos casais divorciados e recasados causa dor e sofrimento a muitos cristãos, como é que isso pode ser superado, como pode ser vivido por um cristão? Que ajuda é que a Igreja pode dar a homens e mulheres nessa situação?", exemplifica.

A questão dos divorciados em segundas uniões será certamente um dos grandes temas a discutir no sínodo. As pessoas nestas situações sentem-se muitas vezes marginalizadas. "O seu sentimento íntimo é pensarem que estão excomungados, ou que estão castigados, uma vez que foram privados da recepção de alguns sacramentos", explica o cónego Carlos Paes, sacerdote que ajudou a fundar um movimento parecido com as ENS, mas dirigido a pessoas em situação matrimonial irregular.

"As Equipas de Santa Isabel juntam casais que agora estão a viver uma outra aliança. A anterior foi desfeita, não se vê que se possa voltar a ela, mas as famílias que agora existem, sobretudo os filhos que resultaram delas, têm o direito a sentir-se apoiados e integrados de pleno direito na comunidade cristã. É isso que procuro valorizar, dentro das balizas que a Igreja define", precisa o cónego Carlos Paes. 

"Às vezes pergunto-me: quem está a viver um segundo casamento não pode vir a ser santo? Se a resposta é que pode, como acho que é, então temos de criar condições para que isso possa acontecer no quadro de uma integração eclesial e de uma participação efectiva", considera o cónego.

A esta luz, a importância de uma consulta alargada é ainda mais importante. "Isso tem de ser feito com ponderação e sem simplesmente procurar soluções apressadas", conclui o cónego Carlos Paes.