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A cultura abandonou a família, diz D. Antonino Dias

25 out, 2013 • Ângela Roque

“A extensão do termo família a segundas uniões, uniões livres, uniões homossexuais, rompe o laço estrutural e fundador entre casamento e família”.  

Não há nova evangelização sem a Família, por isso a Igreja está empenhada em dar um novo impulso à Pastoral Familiar. É o que garante o presidente da Comissão Episcopal responsável por esta área.

Em declarações na véspera da Peregrinação que vai levar 150 mil famílias de todo o mundo a Roma, D. Antonino Dias diz que a Igreja está atenta às mudanças culturais, mas que a luta contra as políticas que não defendem a família, o casamento e a natalidade passa sobretudo pelos leigos.

O Bispo de Portalegre e Castelo Branco lamenta que 30 anos depois da sua publicação, a Carta dos Direitos da Família continue por cumprir em muitos dos seus pontos, e admite que o desemprego e os cortes salariais podem ser vistos como ataques à família. Mas diz que apesar de tudo esta continua a ser a célula base da sociedade.

O conceito de família tem passado por muitas mudanças…
A família não deixou de ser a célula base da sociedade. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, e a própria Carta dos Direitos da Família, afirma que ela é o núcleo natural e fundamental da sociedade e do Estado, e deve ser reconhecida e protegida.

A extensão do termo família a segundas uniões, uniões livres, uniões homossexuais, rompe o laço estrutural e fundador entre casamento e família. Hoje há na verdade esta mudança cultural, e a cultura abandonou a própria família. As novas gerações olham para a família de uma forma redutora e alguns fazem umas escolhas 'a la carte', mas reivindicando os mesmos direitos, tudo se justifica pelo princípio da não discriminação, pelo princípio da tolerância.

A Igreja tem sabido lidar com isso?
A Igreja tem uma experiência de dois mil anos, tem sabido acompanhar estas mudanças culturais, sem grandes sobressaltos e sem fugir delas, sabendo que na verdade não é tudo igual a tudo. No meio de tudo isto há sempre a possibilidade de reafirmar a sua doutrina e fazer a sua proposta, que entende que é a proposta de família que melhor corresponde à necessidade do Homem.

É importante o papel dos leigos na luta contra políticas que não defendem a família, o casamento e a natalidade?
Passa sobretudo por eles. Sem os leigos a pastoral não vai, a evangelização não se faz. Os leigos têm um papel muito importante a desempenhar, e não é preciso um mandato da hierarquia. Pelo facto de serem baptizados, de serem pessoas que vivem no meio do mundo, os seus afazeres são a política, a economia, são a cultura, as artes, a família, e aí eles terão de actuar à maneira de fermento para a transformação das realidades terrenas. Eles estão no coração do mundo. É por isso que o papel dos leigos não pode ficar de parte. A hierarquia faz a sua missão, procura cumprir, estar presente, estimular, animar, mas não vai onde eles vão, onde eles estão.

Estamos a assinalar os 30 anos da Carta dos Direitos da Família, mas muitos desses direitos estão hoje a ser postos em causa. À luz desse documento, o desemprego e os cortes salariais não são também ataques à família?
Tudo quanto possa destruir a dignidade da pessoa e da família não vem por bem. O trabalho constitui o fundamento sobre o qual se edifica a família, é um direito fundamental, é a vocação da pessoa e é de importância capital para a realização do Homem e para o progresso da sociedade.

O trabalho e o salário justo são a única fonte capaz de garantir a dignidade do trabalhador e a dignidade da família, bem como a sua educação e a sua cultura, por isso a falta de trabalho, a falta de emprego, a precariedade, as fracas condições de trabalho, o salário injusto, a concepção utilitarista do trabalho, tudo o que possa ofender a dignidade do trabalhador, e não contribua para a sua realização, para a dignidade da própria família, não é visto com bons olhos, e a Doutrina Social da Igreja sobre isso tem muita coisa clara para a qual devemos chamar também a atenção.

Em sua opinião há um aproveitamento da crise por parte de alguns empregadores?
Acredito que sim. Também acredito que a vida de alguns empregadores não seja fácil, mas é evidente que o trabalhador sofre com isso, e a família também

Realiza-se este fim-de-semana a Peregrinação das Famílias ao Vaticano, e o Papa já convocou para o próximo ano um Sínodo dos Bispos dedicado à Família. Estes acontecimentos indicam que o Papa quer fazer desta área uma prioridade da Igreja?
Eu penso que sim, a peregrinação das famílias a Roma quer ser um encontro testemunho, reafirmando que as famílias constituem o recurso mais importante da pessoa, da sociedade e da própria Igreja. E que são, como dizia o presidente do Conselho Pontifício para a Família, “a coisa mais bela, mais bonita do mundo”.

O Santo Padre manifestou, quase desde a primeira hora, um interesse pela Família, e o Sínodo que ele anunciou, e que se vai debruçar sobre os desafios pastorais da Família no contexto da evangelização representa, de facto, um grande gesto de amor do Papa para com as famílias cristãs, e constitui também um apelo para que outras instituições, mesmo civis, coloquem a Família no centro das suas atenções e actividades.

O acolhimento dos divorciados e recasados poderá ser um dos temas a abordar no Sínodo?
É possível que o seja. Essa é uma exigência de toda a Pastoral Familiar em curso. A Igreja tem um mandato de cumprir de forma criativa e acolhedora a sua Pastoral, sempre na fidelidade a Jesus Cristo e a cada pessoa, por isso é muito natural que esse problema esteja sobre a mesa no próximo Sínodo dos Bispos.

Em Portugal a Pastoral Familiar também precisa de um novo impulso?
Qualquer Pastoral que se preze está continuamente a ser repensada.

A Pastoral Familiar não é uma opção, é uma obrigação, e ela merece toda a prioridade e centralidade em qualquer programação pastoral, quer seja a nível diocesano ou paroquial. Este “Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal”, que tem estado em curso, também não pode acontecer sem dar um novo impulso a esta pastoral. A nova evangelização não se fará sem a família, e esta pastoral sobre a família tem necessidade de fazer a aposta em três sectores muito importantes: o sector pré-matrimonial, o pós-matrimonial, e o sector dos casos especiais, onde a Pastoral Familiar, guiada por princípios da verdade e da misericórdia procura ter um empenho pastoral mais generoso, mais atento e mais próximo.