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África já não é destino, mas partida de missionários

17 out, 2013 • Filipe d’Avillez

Colóquio no Porto discute a importância histórica da evangelização de África e o facto de, hoje, os cristãos africanos se verem como missionários na Europa.  

África já não é destino, mas partida de missionários
Os tempos em que os europeus iam para África espalhar a fé já lá vão. Actualmente, o trânsito de missionários faz-se mais em sentido contrário. 

O assunto começa a ser discutido e aprofundado esta quinta-feira no Porto, num colóquio internacional na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP).

A professora Helena Vilaça, uma das organizadoras, explica que metade dos africanos são hoje cristãos, quando no início do século XX eram apenas 10%. Um crescimento para o qual contribuíram vários factores: “O cristianismo é uma religião muito plástica, no sentido em que se adapta às culturas, o que não significa abdicar da ortodoxia do ponto de vista doutrinário, às vezes sim, mas grande parte das vezes não, mas do ponto de vista cultural e formal o Cristianismo é profundamente plástico”.

A esta natureza flexível do Cristianismo juntam-se factores de ordem histórica: “Um dos factores que contribuiu para isto foi a Primeira Guerra Mundial e o retorno de muitos missionários à Europa durante esse período. Isso fez com que o Cristianismo africano crescesse”.

Na opinião de Helena Vilaça, investigadora do Instituto de Sociologia da FLUP, o Cristianismo europeu está a pagar o preço de ter esquecido o seu zelo evangelizador: “A missão europeia em África encontrou novas estratégias, que reflectem o que a Europa e o Ocidente são. Estão menos centradas na evangelização do ponto de vista de anunciar a mensagem e mais em obras sociais enquadrando isso em organizações não-governamentais. Muitos dos leigos que vão para África fazem um trabalho social, menos preocupados com a missionação. O que é interessante é que o que está a vir de África para cá é um espírito profundamente evangelizador.”

Este é um problema que foi abordado pelo Papa Francisco logo nos dias a seguir a ter sido eleito, afirmando que a Igreja não se pode reduzir ao estatuto de ONG. Na opinião de Helena Vilaça esta realidade é um sinal dos tempos: “No fundo esse tipo de estratégia reflecte aquilo que as próprias igrejas fizeram na Europa. Grande parte das igrejas na Europa, incluindo a católica, abdicaram de uma certa intervenção na esfera pública, no sentido de anunciar a mensagem claramente, cingindo-se ao trabalho social, que é fundamental, sem dúvida. Mas um dos problemas do Cristianismo europeu é ter perdido a transcendência, ou ter abdicado de anunciar uma mensagem que tem a ver com a transcendência.”

O colóquio começa esta manhã e termina na sexta-feira. A participação nos dois dias custa 15 euros, cinco para estudantes. Toda a informação pode ser encontrada no site da FLUP.