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“Temos de perceber como este Papa comunica”

04 out, 2013 • Filipe d’Avillez

O padre Antonio Spadaro, que publicou há quinze dias uma grande entrevista com o Papa, diz que é preciso uma nova chave de leitura para entender Francisco. Spadaro fala também dos desafios colocados à Igreja pela era da informática.  

“Temos de perceber como este Papa comunica”
“Temos de perceber como este Papa comunica”
O padre Antonio Spadaro, que publicou há quinze dias uma grande entrevista com o Papa, diz que é preciso uma nova chave de leitura para entender Francisco. Spadaro fala também dos desafios colocados à Igreja pela era da informática.
Os católicos têm de se habituar à forma de comunicar do Papa Francisco, que fala sempre com base na sua própria experiência e não de forma abstracta, desligada da realidade.

Quem o diz, numa entrevista à Renascença, é o padre Antonio Spadaro, o jesuíta que fez, recentemente, uma grande entrevista ao Papa, publicada em simultâneo em mais de uma dezena de países.

O sacerdote encontra-se em Portugal para falar sobre o seu mais recente livro que aborda a “Ciberteologia” e questiona a forma como a Igreja se pode adaptar a um mundo constantemente online.

Passam cerca de duas semanas desde que foi publicada a sua entrevista ao Papa. Que balanço faz desta entrevista e dos seus efeitos?
Para mim ,esta entrevista não foi uma entrevista, foi uma experiência espiritual. É muito difícil falar disto. Sei que o Papa foi muito franco. Ele não se tenta defender, mas fala abertamente. Por isso, pode ser mal compreendido, claro, mas também é verdade que eu recebi mais de mil mensagens de pessoas cuja vida mudou por causa desta entrevista.

Para mim, foi uma experiência espiritual enorme, até ler esse “feedback”, de pessoas normais. Penso que as pessoas normais compreenderam bem o Papa e que a entrevista teve um bom impacto na sua espiritualidade, mesmo para pessoas que não vivem na Igreja ou que a deixaram há muitos anos. Recebi uma mensagem de uma pessoa que me dizia que, se tivesse lido esta entrevista na altura, não teria abandonado a Igreja.

Muitas pessoas sentiram-se desconfortáveis com as palavras do Papa sobre o aborto, casamento homossexual e contracepção. Pessoas que estão na linha da frente nestas causas e que se sentiram desencorajadas pelo que o Papa disse. O que diria a estas pessoas?
Para o Papa, o mais importante é pregar o Evangelho e falar da grande misericórdia de Deus. O Evangelho tem de chegar a toda a gente, independentemente de serem pecadores, ou o que quer que seja. É isto que ele quer dizer. De resto, ele é filho da Igreja, como disse, por isso acredita no que está no catecismo. Mas para ele é muito importante que o Evangelho chegue às pessoas, estejam onde estiverem.

Esta entrevista foi aprovada pelo Vaticano…
Lemos o texto final em conjunto com o Papa, sim.

Mas ainda assim, deixaram algumas partes que se prestam a serem mal interpretadas. Por exemplo o que o Papa diz sobre nunca ter sido de direita… mais tarde o padre Spadaro clarificou que ele se referia a nunca ter sido apoiante da junta militar na Argentina. Não teria sido mais fácil clarificar estes assuntos logo à partida?
Penso que não. Uma entrevista não é um documento da Igreja, por isso é preciso ter muito cuidado ao ler. De certa forma, cabe a cada um. Não é um documento oficial, não foi revisto palavra a palavra. É uma comunicação mais dirigida ao coração, é algo totalmente diferente.

Temos de perceber como é que este Papa comunica. Não precisamos de clarificar nada. Eu mandei esse tweet a clarificar a questão de ele nunca ter sido de direita para se perceber que ele fala da sua experiência. Não podemos interpretar as suas frases de forma teórica, abstraídas da realidade.

Na entrevista ele fala de médicos e de enfermeiras. Diz que não gosta de médicos que passam o dia num laboratório, prefere as enfermeiras e que a sua vida foi salva por uma enfermeira. Mas claro que ele não quer dizer que não gosta de nenhum médico. Está simplesmente a falar de uma experiência própria. Por isso não podemos dizer que ele não é de direita no plano abstracto. Ele viveu num tempo de ditadura na Argentina, quando fala de direita está a referir-se ao que isso significa na sua experiência.

Eu não sou o intérprete do Papa. Ele disse o que disse, eu escrevi o que ele disse. Mas temos de ter cuidado, mudar a nossa chave de leitura. Agora o Papa está a agir como um ser humano, está a falar do coração, o que diz vem da sua própria experiência, temos de ter cuidado ao lê-lo.

Está em Portugal para falar de comunicações sociais e religião. Acredita que as comunicações podem auxiliar a missão da Igreja?
A comunicação já não é uma ferramenta, é um ambiente. A Igreja tem de compreender melhor o que significa a comunicação. O objectivo da Igreja não é usar uma ferramenta mas saber viver bem no tempo da internet.

Até onde é que isto pode chegar? No seu livro refere que algumas confissões cristãs já falam em sacramentos on-line…
Veremos… a Igreja tem por missão caminhar com as pessoas, é um trabalho de inculturação. Como as pessoas vivem num ambiente digital, a Igreja também tem de estar neste ambiente. A Igreja tem de estar com as pessoas, onde elas estiverem.

Mas consegue imaginar um future de confissões online, por exemplo?
Temos de compreender bem o que é o ambiente digital. Não se trata de algo que substitui o ambiente físico. Temos apenas uma vida e temos de vivê-la nestes dois ambientes, o físico e o digital. Não existe oposição entre um e outro, temos de viver bem nos dois. O melhor ambiente para a confissão, por exemplo, é o físico. Porque é preciso estar presente, em pessoa. Temos de nos relacionar com o confessor, face a face. São oportunidades diferentes. É por isso que não nos podemos confessar online, ou por Skype. É preciso estar presente.

Existem formas de formar comunidades online, mas a Igreja realça a importância da presença física. Ela é insubstituível?
Sim, insubstituível.

Até que ponto é que vive no mundo digital?
Estou no Twitter, no Facebook, no Instagram. Tento marcar presença. Vivi um mês no Second Life, por isso tento apenas escrever sobre coisas que conheço. Para mim é muito importante estar com as pessoas onde elas estão, neste ambiente digital. Daqui sinto surgir questões: como procuramos Deus num tempo de motores de busca? Como vivemos a presença espiritual, quando vivemos num ambiente virtual?

No mundo digital, em que as pessoas pode tornar-se isoladas, considera que há uma grande sede de Deus?
A internet não é uma revolução, ou melhor, é uma revolução antiga. Os desejos que lá vemos são os mesmos que vemos no ambiente físico. Não há diferença. O Ser Humano que está no ambiente digital é o mesmo do ambiente físico, os desejos são os mesmos. Estamos a assistir a uma grande sede de Deus no ambiente digital também.

E há respostas suficientes para as pessoas que procuram Deus online, ou a Igreja precisa de fazer mais?
A Igreja precisa de fazer mais, claro, e de perceber melhor como estar presente.


[Notícia actualizada às 12h46]