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Não são salvadores, mas fazem falta

05 set, 2013 • Matilde Torres Pereira

Na Síria, há quem arrisque a vida a salvar outros enquanto uns arriscam o que são a tirar vidas.

Não são salvadores, mas fazem falta
Não são salvadores, mas fazem falta
Nawras Sammour, 46 anos, é sírio e acredita nos sírios como ele: "No meio do drama, as crianças estão a brincar, algumas estão mesmo a estudar. Vejo esperança. Temos de fazer tudo, absolutamente". Nawras Sammour é padre: "Onde há uma abundância de pecado, há também uma abundância de Graça". Nawras Sammour é homem de fé, mas sente como os homens todos: "Agora é diferente, porque é sobre o meu povo, a minha família, os meus amigos, o meu país". Nawras Sammour faz parte de uma organização internacional que serve os refugiados e sabe o que não é - "diria que não somos os salvadores" -, mas é dos que fazem falta: ele e os seus ajudam 30 mil famílias sírias.


Como é que o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), do qual é um dos directores, está a lidar com o aumento vertiginoso de refugiados? Têm meios no terreno para ajudar toda esta gente?
Na Síria, começámos a tratar do grande número de pessoas desalojadas de uma forma muito pequena. Começámos a apoiar a solidariedade local, mas não chegava de todo. E depois tivemos o apoio da Igreja, da Cáritas, de outras organizações e da Companhia de Jesus. Agora conseguimos fazer alguma coisa, mas, comparado ao volume da crise, diria que é uma pequena gota no oceano. Fazemos o nosso melhor, temos 500 pessoas no terreno e baseamo-nos nos três princípios do trabalho humanitário: neutralidade, imparcialidade e o trabalho com civis.

Baseados nesses princípios, quão difícil tem sido manterem-se em segurança durante o vosso trabalho? Desde o início do conflito, imagino que tenha sido cada vez mais difícil movimentarem-se, atravessarem fronteiras…
Sim, esse é o nosso maior problema -a segurança das nossas pessoas. Quando andamos por aí a visitar famílias, podemos apanhar com projécteis, com bombas. Até agora, graças a Deus, não perdemos ninguém, a não ser dois amigos que nos vieram ajudar em Damasco e que foram apanhados, por acidente, numa explosão de um carro no centro da cidade. A nossa única garantia é que trabalhamos com todos e para todos, sem pedir credenciais nem referências. Como somos neutrais, não somos parados e todos nos respeitam. As pessoas sabem que estamos a tentar ajudar aqueles que estão a sofrer. E apreciam isso.
 
Disse-me que vê o trabalho do JRS como "uma gota no oceano". Como é que conseguem manter-se psicologicamente aptos a trabalhar nestas condições?
Estamos mesmo muito cansados. Todos os nossos voluntários, a nossa equipa, os nossos amigos, estão mesmo cansados, porque quando falo numa 'gota no oceano' falo de 30 mil famílias que estamos a ajudar. Não é um número pequeno - são cerca de 250 mil pessoas. Ajudamos a cobrir pequenas necessidades dessas pessoas - desde comida, a ajuda financeira ou, com as crianças, prestamos assistência psicossocial. Mas comparado com o tamanho do problema, diria que não somos os salvadores, nem nunca vamos fingir ser os salvadores.

Consegue ver sinais de esperança nesta crise ou é difícil ver como a situação se vai desenvolver no futuro?
Como cristão, diria que tudo deveria ser refeito. É para mim um sinal de esperança ver os jovens, os nossos voluntários, de diferentes comunidades, de grupos sociais diferentes, de religiões diferentes e mesmo de convicções políticas opostas a conseguirem trabalhar juntos. Por causa do conflito, de alguma maneira encontraram nas suas vidas a capacidade para serem humanos ao serviço dos outros. Onde há uma abundância de pecado, há também uma abundância de Graça. E vejo esperança no olhar das crianças. A tendência delas para serem criativas, apesar de todas as dificuldades. No meio do drama, as crianças estão a brincar, algumas estão mesmo a estudar. Vejo esperança. Temos de fazer tudo, absolutamente.

Por norma, apoiava refugiados dos países vizinhos que vinham para a Síria. Agora, o seu trabalho é inverso. O que é que isto mudou dentro de si, que é sírio?
Exactamente. Eu costumava trabalhar com refugiados iraquianos no passado, antes de 2011. Na Síria, Deus sabe que tentei o meu melhor para ajudar a realizar a missão que a Companhia de Jesus me deu. Mas agora é diferente. É sobre o meu povo, a minha família, os meus amigos, o meu país… O sentimento é diferente. Eu diria que no passado até fui um pouco parcial. Mas este sentimento, agora, afecta a minha própria vida.

Como é que vê uma possível intervenção na Síria por parte do Ocidente? Acha que pode ajudar ou corre o risco de piorar a situação para os sírios?
Estou convencido, e esta é a minha mais profunda convicção, de que a solução, caso exista, tem de ser política, através do diálogo. É a única solução. Não se trata de fazer guerra. Seja através dos americanos ou de outros ocidentais, ou mesmo do Oriente, não vejo que a guerra possa resolver alguma coisa. Não imagino que um sírio possa ter esperança de que uma solução venha de fora.

Considera que tem um efeito positivo o trabalho que o Papa tem vindo a desenvolver junto dos líderes dos estados do Médio Oriente para tentar abrir o caminho a futuras negociações?
A Igreja tem sempre alguma coisa a dizer e alguma coisa a dar como fonte de esperança. Isto é o Evangelho - e o Evangelho diz que está na altura de os cristãos da Síria responderem: são crentes, ou não são? Acreditam em Deus ou não? E se a resposta é não, quer dizer que acreditam num mundo dividido? Esta é a minha fé, o meu credo, se quiser.