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O Papa que saiu de Roma de braços abertos

21 jun, 2013 • Filipe d’Avillez

Faz esta sexta-feira 50 anos da eleição de Paulo VI, um Papa que guiou a Igreja num período crítico da sua história e redefiniu em muitos aspectos a sua orientação.

O Papa que saiu de Roma de braços abertos
Se o Concílio Vaticano II abriu a Igreja ao mundo, então o Papa que assistiu à sua conclusão, Paulo VI, foi o primeiro a tomar a iniciativa de partir em busca desse mundo, deixando a segurança do Vaticano, como nunca os seus antepassados tinham feito.

Eleito há 50 anos, no dia 21 de Junho de 1963, Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini tornava-se o principal responsável na Terra por uma Igreja a redefinir-se. O Concílio, que tinha sido convocado pelo seu antecessor, foi imediatamente encerrado após a morte de João XXIII, mas Paulo VI não hesitou em reconvocá-lo, dando assim luz verde a todas as mudanças que se seguiriam.

São muitas as razões pelas quais este Papa ficaria para a história. Foi o primeiro a viajar para novos continentes, incluindo o Extremo Oriente, África, a Terra Santa e vários países europeus. A sua devoção a Nossa Senhora era muito conhecida e sob o seu pontificado duplicou o número de países com os quais a Igreja mantinha relações diplomáticas.

Mas talvez uma das áreas mais significativas em que o Papa Paulo VI fez a diferença tenha sido na questão do ecumenismo e aí nada falou mais alto do que um abraço caloroso, dado em Jerusalém.

O Concílio Vaticano II já tinha começado a dar importantes passos em relação ao diálogo com as Igrejas e comunidades cristãs separadas de Roma, alterando radicalmente uma atitude que, até então, era de mero triunfalismo, insistindo que o único caminho para a unidade seria um regresso sem condições à casa-mãe, por parte dos irmãos separados.

Os padres conciliares abriram as portas a observadores, tanto protestantes como ortodoxos, e é conhecida a influência que alguns teólogos, nomeadamente das Igrejas reformadas, tiveram sobre os trabalhos.

Sem abdicar da certeza de que a verdadeira Igreja de Cristo subsiste inteiramente na Igreja Católica, a constituição dogmática “Lumen Gentium” aceita a possibilidade de ela estar presente também noutras realidades, fora da sua estrutura.

Abria-se um novo capítulo na história do ecumenismo, marcado pela aposta no diálogo doutrinal mas, também, num grande esforço para ultrapassar velhas desconfianças e suspeitas de parte-a-parte.

Quem lamenta a lentidão com que decorrem as conversações sobre questões teológicas complexas, entre as quais o papel desempenhado pelo Papa, esquece que há cinquenta anos seria absolutamente impensável o Patriarca Ecuménico de Constantinopla visitar o Vaticano, quanto mais marcar presença na missa inaugural de um Papa, como aconteceu este ano em Roma.

Mas foi logo em 1964, no ano depois da sua eleição, que Paulo VI se encontrou com o então Patriarca Atenágoras de Constantinopla, "primus inter pares" da Comunhão Ortodoxa, em Jerusalém. Os dois eram herdeiros não só das duas mais significativas tradições cristãs do mundo, mas de uma mútua excomunhão, que tinha tido lugar precisamente 910 anos antes.

Tudo isso mudou com um caloroso e genuíno abraço, um abraço de irmãos reencontrados que, reconhecendo que havia ainda muito trabalho pela frente, ao menos estavam decididos a seguir por esse caminho. As excomunhões foram levantadas pouco tempo depois e o diálogo iniciado.

Atenágoras foi apenas o primeiro. Seguiu-se o Papa Shenouda III, da Igreja Copta, que visitou Roma e se encontrou com o Papa três vezes, levando a uma declaração conjunta que confirmava praticamente a inexistência de razões teológicas para justificar a separação entre as duas Igrejas.

Com os anglicanos, uma ferida comparativamente mais fresca, também se deram progressos notáveis e Paulo VI tornou-se o primeiro Papa a receber em audiência oficial um Arcebispo de Cantuária.

Para D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, que foi elevado ao episcopado precisamente por Paulo VI e o conheceu pessoalmente, trata-se de um Papa que merece ser recordado: "Foi um grande Papa que marcou a história e era bom que o recordássemos ao vivo, na mensagem que foi a sua vida, o seu testemunho, de amor à Igreja e à humanidade."

O seu pontificado durou 15 anos, uma década e meia durante a qual levou a cabo a visão que se reflectia na sua escolha de nome. Levar a mensagem de Cristo ao mundo, como tinha feito o apóstolo Paulo, e tudo fazer para garantir a unidade dos cristãos.

[Notícia actualizada às 9h45]