Tempo
|

Cabo Verde é o primeiro país da África Ocidental a assinar uma Concordata

09 jun, 2013 • Ângela Roque

Concordata vai regular as relações entre a Igreja e o Estado ao nível da saúde, da fiscalidade e da acção social e da educação.

Cabo Verde é o primeiro país da África Ocidental a assinar uma Concordata
Cabo Verde vai ser o primeiro país da África Ocidental a assinar uma Concordata com a Santa Sé. A assinatura vai ser feita na segunda-feira, na Cidade da Praia. D. Ildo Fortes, Bispo do Mindelo, sublinha a importância do acordo para “o reconhecimento jurídico” da Igreja católica e do papel que desempenha naquele país, que vai ser pioneiro a este nível.

“Nós somos pioneiros aqui na nossa zona de África, aqui na África Ocidental, somos o primeiro país a assinar um acordo com o Vaticano. Dado que a Igreja Católica, os seus fiéis, constituem a maior parte dos cabo-verdianos, situamo-nos nos 77% de católicos, é normal o reconhecimento claro e explícito por parte do Estado da Igreja e do seu papel”, explica D. Ildo Fortes em entrevista à Renascença.

Além disso, o Bispo do Mindelo sublinha que “a Igreja tem uma presença nesta nação já secular, o país nasceu há trinta e tal anos, a Igreja católica encontra-se aqui há 500 anos, e com um trabalho notório a nível social, de educação, formação dos quadros superiores. É bom que se reconheça que a identidade cabo-verdiana é uma identidade que tem fortes matizes cristãs”.

A Concordata vai regular as relações entre a Igreja e o Estado ao nível da saúde, da fiscalidade e da acção social e da educação e pode mesmo abrir portas à criação de uma universidade católica.

Para o Bispo D. Ildo Fortes o acordo só traz vantagens: “É uma grande mais-valia quer para o Estado cabo-verdiano, quer para a Igreja católica. Para nós porque será um reconhecimento jurídico da pessoa da Igreja. Será muito mais fácil nós dirigirmo-nos às entidades públicas, questões financeiras, câmaras, governo, reconhecer as dioceses, as paróquias, as instituições da Igreja.”

Além disso, “abrem-se portas para uma cooperação. Nos diversos níveis do ensino, básico e secundário, a Igreja poderá marcar presença com o ensino das aulas de religião e moral. A assistência (religiosa) aos hospitais, aos nossos doentes, aos nossos militares também. Abrem-se portas para a possibilidade de uma universidade católica no nosso país. O próprio Estado cabo-verdiano tem manifestado interesse em que pudesse haver uma instituição ligada ao ensino superior por parte da Igreja”.

“O desemprego é um flagelo grande”
D. Ildo diz que a situação económica do país melhorou nos últimos anos, mas a pobreza continua a aumentar. O que vale a muitos é a ajuda que recebem de familiares que vivem noutros países. O desemprego continua a atingir sobretudo os mais jovens.

“Cabo Verde encontra-se já classificado como país de desenvolvimento médio, mas os casos de pobreza continuam também. Nós temos gente que vive bem, temos ricos, e temos os que são pobres. O desemprego é um flagelo grande”, explica o Bispo do Mindelo.

O país tem “um índice de juventude muito elevado, o que é uma coisa bonita e é uma riqueza para um país, o que acontece é que muitos destes jovens terminam o seu curso e não têm emprego, não têm ocupação, e isso é muito grave”, lamenta.

Cabo Verde, diz D. Ildo Fortes, “continua a viver em grande medida dos apoios do exterior”. “São muito mais os cabo-verdianos que se encontram na diáspora trabalhando do que aqueles que estão aqui. Temos em Cabo Verde cerca de 500 mil habitantes, mas um milhão, ou mais, encontra-se fora, na América, Portugal, França, Luxemburgo, em Itália. E muitas famílias vivem é com os recursos, a ajuda externa que chega.”

Formar novos padres é prioritário
A formação de novos padres foi uma das prioridades que definiu quando foi eleito Bispo do Mindelo. Dois anos depois, D. Ildo Fortes fala com esperança do futuro da Igreja em Cabo Verde, que tem 10 seminaristas a estudar em Portugal e vai ordenar em breve três sacerdotes.

“Eu daqui a poucas semanas vou ordenar três padres, são os primeiros desde que vim para o Mindelo. Os nossos seminaristas que foram para o seminário e estudam em Portugal, em Évora e em Lisboa, vamos agora no meses de Junho e Julho ordenar os primeiros dessa fornalha, e no próximo ano virão outros três”, explica.

Embora D. Ildo Fortes lamente que o país não tenha “sacerdotes suficientes”, considera que “o trabalho vocacional que se tem feito, e aqueles que virão proximamente, vão-nos deixar numa situação muito mais confortável”.

Escolha de novo Patriarca é a mais acertada
Antigo padre da diocese de Lisboa, D. Ildo Fortes comenta a recente escolha de D. Manuel Clemente para novo Patriarca como a mais acertada.

“Penso que D. Manuel Clemente era o Bispo que estava no coração do clero de Lisboa. Foi meu professor na Universidade Católica, foi meu reitor no seminário dos Olivais, somos muitos amigos. Foi um dos Bispos que me consagrou, há dois anos, e eu penso que D. Manuel Clemente sendo um filho de Lisboa, tendo sido padre em Lisboa, tendo sido bispo auxiliar durante alguns anos e sendo Lisboa uma capital e uma diocese muito complexa e grande, que é a pessoa mais acertada, a meu ver, para suceder ao Patriarca Emérito”.

“Pessoalmente, estou muito feliz, já lhe apresentei as minhas felicitações. Conheço muitas pessoas em Lisboa, muitos leigos com quem vou falando, e outros sacerdotes, e sei que estão encantados com esta nomeação de D. Manuel Clemente”, revela o Bispo do Mindelo.