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Uma viagem à Terra Santa não termina com o regresso a casa

06 jun, 2013 • Filipe d’Avillez

Desde sempre que os cristãos procuram visitar a terra onde Jesus viveu - todos os anos, cerca de um milhão e meio fazem peregrinações a Israel. Há portugueses que acabam de partir.

Uma viagem à Terra Santa não termina com o regresso a casa
Cristãos ortodoxos participam na vigília pascal na Igreja do Sagrado Sepulcro, em Jerusalém. EPA/OLIVER WEIKEN.

Joana Caiado regressou há poucas semanas de Israel. Foi à Terra Santa e voltou, mas a peregrinação continua.

"É uma viagem que se prolonga. Quando lá estamos, somos imediatamente projectados para os textos bíblicos só ao ouvir o nome de um sítio. Depois, ao ouvir os textos a serem proclamados cá, somos transportados para lá. É algo que me vai ajudar a rezar."

Desde sempre que os cristãos procuram visitar a terra onde Jesus viveu - todos os anos, cerca de um milhão e meio fazem peregrinações a Israel. Joana Caiado, jovem médica de 31 anos, realça a importância que tem para uma pessoa de fé poder estar presente nos mesmos lugares onde Jesus esteve.

"Há uma sensibilidade de quem percebe que a linha de água, as paisagens, as árvores, as montanhas e os rochedos são coisas que já estavam ali. Por isso, mesmo que Jesus não tenha estado aqui ou ali exactamente, viu aquelas paisagens, contemplou um pôr-do-sol assim ou parecido. Isso é uma coisa forte e bonita."

Entre os lugares que mais a marcaram está Tabgha, o local onde Jesus multiplicou o pão e os peixes para alimentar cinco mil pessoas. "São sítios onde existem grandes lajes de pedra, que não podem ter sido nunca deslocados de onde estão, e que os cristãos foram venerando e guardando como lugar da presença de Jesus. É uma coisa que nos esmaga também por isso, pelas pessoas que vão e não deixaram nunca de ir a um sítio onde se faz memória da presença de Jesus, que é tão importante para nós."

O guia
Desde os primeiros tempos do Cristianismo que os fiéis criaram o hábito de peregrinar aos locais onde Jesus esteve, com destaque para Jerusalém, onde foi morto e ressuscitou. A ameaça colocada à segurança dos peregrinos depois da invasão islâmica foi mesmo o principal motor das cruzadas, cujo principal objectivo era proteger as rotas dos peregrinos.

O entusiasmo não amainou com o passar dos séculos. O padre João Lourenço, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, não tem dúvidas: "Uma peregrinação à Terra Santa é um belíssimo instrumento de evangelização".

E poucos saberão isso melhor que ele, que ao todo já viveu em Israel mais de cinco anos e confessa que conhece melhor aquele país que Portugal, "pelo menos na sua diversidade geográfica, histórica, espiritual, nos seus caminhos e itinerários".

Foi este o sacerdote que acompanhou o grupo de Joana Caiado e é também ele quem vai guiar os mais de 30 peregrinos que partem esta quinta-feira para a Terra Santa, numa visita organizada pela Universidade Católica. Esta viagem tem uma particularidade: mais de metade dos participantes partem de Macau, onde a universidade também está presente.

A ligação geográfica
Além de conselheiro espiritual, o padre fará de guia, uma tarefa que está credenciado a desempenhar pelas autoridades em Israel. Na sua opinião, um bom guia é um factor essencial para quem pensa ir à terra onde Jesus nasceu, pregou, morreu e ressuscitou.

"Se se quer que seja verdadeiramente uma peregrinação e os peregrinos colham os melhores frutos dessa experiência e dêem por bem empregues os custos e os sacrifícios que fazem para poder beneficiar desses momentos, creio que uma viagem dessas deve ser bem preparada e deve ter um bom assistente espiritual. O que sucede muitas vezes é que os programas são de descanso disfarçado, são viagens quase iguais às outras - os grupos compram os programas e não propõem os seus programas", explica.

Para Joana Caiado, este factor foi crucial: "Não tem nada que ver com passeio turístico - foi claramente uma peregrinação. O padre João foi muito sábio, porque começámos por ir a lugares que, tendo muita gente, como têm todos, são menos populares. Isso preparou-nos interiormente para depois, chegando aos lugares com maior afluência de peregrinos, já haver uma certa bagagem que permitia estar nesses sítios voltado para o essencial".

Para um muçulmano, a peregrinação a Meca é uma obrigação e os judeus têm uma ligação inquebrável a Jerusalém. Mas no Cristianismo, apesar de existirem vários locais de peregrinação voluntária, não existe esta ligação tão estreita a um lugar geográfico. Em todo o caso, o padre João Lourenço é da opinião de que os cristãos só têm a ganhar em visitar a Terra Santa.

"Este contacto pode ajudar os cristãos a interiorizar, a percepcionar, a ter aquela experiência interior de uma dimensão mais contextualizada e mais vivenciada daquilo que é a realidade bíblica, dos dinamismos da experiência e da teologia bíblica. Situar no espaço e no tempo, ter uma geografia bíblica da realidade da palavra bíblica, é uma experiência importante."