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Novo bispo da Igreja Lusitana toma posse a 25 de Abril

24 abr, 2013 • Filipe d’Avillez e Raul Santos

D. José Jorge de Pina Cabral mostra-se bem impressionado com o Papa Francisco e reconhece que as divisões que assolam a Igreja Anglicana poderão não ter retorno.  

Novo bispo da Igreja Lusitana toma posse a 25 de Abril
Novo bispo da Igreja Lusitana toma posse a 25 de Abril
D. José Jorge de Pina Cabral vai tomar posse como bispo da Igreja Lusitana, o ramo português da Comunhão Anglicana. Não anuncia grandes planos, porque na sua vida os seus planos "foram sempre ultrapassados, e bem, pelos planos de Deus".
O novo bispo da Igreja Lusitana, ramo português da Comunhão Anglicana, quer que o seu episcopado seja de “compromisso, responsabilidade e continuação do muito que já foi feito no seio da Igreja”, mas diz que “é acima de tudo uma abertura ao que o Espírito Santo me vai chamar a realizar”.

De resto, D. José Jorge de Pina Cabral, que vai substituir no cargo de chefia da Igreja Lusitana o bispo D. Fernando Luz Soares, prefere não falar em planos, uma vez que já está habituado a que Deus o surpreenda: “Olhando para o meu passado e para a minha vida pessoal, percebo que os meus planos foram sempre ultrapassados, e bem, pelos planos de Deus”.

A pequena Igreja Lusitana, com cerca de cinco mil membros, é o ramo português da Comunhão Anglicana, que é a terceira maior comunhão cristã a nível mundial. D. José Jorge é um anglicano de quarta geração, nascido e criado no seio da Igreja Lusitana. Natural do Porto, é licenciado em Educação Física e foi professor durante algum tempo antes de discernir a sua vocação sacerdotal, tendo posteriormente feito a licenciatura em Ciências Religiosas na Universidade Católica.

Os anglicanos permitem a ordenação de homens casados e D. José Jorge, de 46 anos, tem mulher e dois filhos.

O novo bispo chega a este ministério num tempo de crise generalizada para os anglicanos a nível mundial, com a comunhão fortemente dividida entre liberais e conservadores, à volta de questões morais e teológicas. Reconhecendo que o futuro é incerto, prefere realçar os aspectos positivos: “A comunhão anglicana sempre viveu numa grande diversidade de sensibilidades litúrgicas, eclesiais, doutrinais, e sempre conseguiu manter esse equilíbrio ao longo dos tempos.”

“Efectivamente tem havido, ultimamente, pontos de grande tensão, que têm a ver com questões ligadas à sexualidade, neste caso concreto à questão do bispo homossexual sagrado na Igreja dos EUA. Isso provocou uma reacção grande, mas ao mesmo tempo permitiu também um diálogo grande. Parece-me que a tensão e a diversidade existente, apesar de causar, numa primeira análise, uma vivência um bocado tensa, trazem também a necessidade de diálogo e de um processo de escuta das diversas sensibilidades.”

“Se isso vai trazer danos irreversíveis em termos de unidade no seio da Comunhão Anglicana, neste momento não sei dizer. O que sei, e o que se percebe, é que há um forte desejo de manter a unidade na Comunhão Anglicana, uma unidade nos aspectos fundamentais nos aspectos da doutrina, sacramentos e liturgia”, conclui.

Os dois temas que mais têm dividido os anglicanos, pelo menos à superfície, são precisamente a moral sexual e a ordenação das mulheres. Se no último caso a Igreja Lusitana já tomou posição, ordenando sacerdotisas, no primeiro o bispo prefere não se comprometer: “Na Igreja Lusitana, como em qualquer igreja anglicana, estas questões mais polémicas, que exigem um aprofundamento grande, têm de ser debatidas e tratadas a nível do sínodo da Igreja. O sínodo é o órgão máximo da Igreja e reúne o bispo, o clero e os leigos da Comunhão Anglicana. Até aqui não surgiu a necessidade de tomar uma posição pública oficial dessa questão.”

Ser bispo anglicano em Portugal implica necessariamente uma relação próxima com a Igreja Católica, de que D. José Jorge está bem consciente. Recentemente ambas as Igrejas assistiram a uma renovação na liderança a nível mundial, com a eleição de um novo Arcebispo de Cantuária para os anglicanos e do Papa Francisco para a Igreja Católica.

D. José Jorge mostra-se atento e bem impressionado com o novo Sumo Pontífice: “É muito bom ouvir um Papa a ter um discurso simples, acessível e compreensível pelas pessoas, sejam ou não da Igreja. Realmente o Papa tem tocado nestas grandes questões que hoje tocam o mundo, tocam a sociedade, tocam as pessoas. O tema da pobreza, as preocupações de natureza social que as pessoas têm, e tem sensibilizado a Igreja para outro tipo de postura no seu relacionamento com o mundo. É uma figura muito simpática, que cativa, mas vamos ver agora o que é que poderá vir daqui para a frente”.

A cerimónia de empossamento de D. José Jorge decorre na quinta-feira, dia 25 de Abril, na Catedral de São Paulo, em Lisboa, na Rua das Janelas Verdes. A celebração é presidida pelo bispo demissionário, D. Fernando Luz Soares, e conta com a presença do bispo anglicano de Dublin, em representação do Arcebispo de Cantuária.