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"Reduziram-nos a animais". O relato na primeira pessoa de um sequestrado pelo Estado Islâmico

16 mar, 2015 • Matilde Torres Pereira

Uma foto com um assassinato brutal (via-se "sangue e restos de cérebro"). Comer restos. Insultos diários. Um ano depois, o jornalista espanhol Javier Espinosa quebra silêncio sobre o cativeiro às mãos dos terroristas. Esta é a história do prisioneiro 43.

"Reduziram-nos a animais". O relato na primeira pessoa de um sequestrado pelo Estado Islâmico
Os números escondem a terrível realidade.

43: O número da camisola cor-de-laranja que Javier Espinosa era obrigado a vestir.

50: A idade do jornalista espanhol quando voltou do cativeiro na Síria às mãos do Estado Islâmico.

194: Os dias que passou detido.

365: Os dias que levou a ganhar coragem para contar a sua impressionante história.

O relato, contado em crónicas publicadas no jornal espanhol "El Mundo", faz-se na primeira pessoa, com todos os pormenores crus de meses passados fora do tempo. "O fio do sabre roçava-me a jugular. Aos 'Beatles' – essa era a alcunha com que nos referíamos aos milicianos – sempre lhes agradou a encenação", conta.

Nos primeiros dias de cativeiro, era comum o abuso verbal: "'O que vês na foto? Conta aos outros!', gritava "George" [um dos carcereiros]. Queria que eu descrevesse o instante em que decapitaram Sergei antes de o executar. 'Diz-me, o que vês!?' - Vejo Sergei, está morto, tem sangue e restos de cérebro na barba. 'Sim, mas o que não vês é o enorme buraco que a bala lhe fez na nuca'."

"Ao segundo dia de cativeiro", descreve Espinosa, "decidi pedir a Abu Bara [um dos carcereiros] que me ensinasse a rezar. Uma decisão inspirada no mero instinto de sobrevivência, mas que acabou por ser uma das únicas coisas positivas de todo o sequestro. Com o tempo, orar tornou-se dos únicos instantes de relaxamento de que disfrutaria."

Dias mais tarde, cruza-se com outro carcereiro: "Abu Dhar foi honesto. 'Odeio-vos', disse, 'sem sequer os conhecer. Odeio os cristãos'."

O relato contém episódios verdadeiramente impressionantes. Como a vez em que Espinosa e o seu companheiro de viagem, o fotojornalista Ricardo García Vilanova, tiveram de comer os restos mastigados deixados pelos raptores. "Reduziram-nos a simples animais. Uma vez deram-nos arroz. Tinham deixado ossos roídos de frango por cima, comidos por algum carcereiro. Como se fôssemos os seus cães."

"Éramos réus da intolerância, mas, pela minha mulher e pelos meus filhos, tinha que resistir", escreve.

"Numa outra ocasião encontramos uma mãe presa com a sua filha", lembra o jornalista espanhol. "A menina não teria mais de dois anos, só pronunciava monossílabos. Às vezes o carcereiro deixava-a sair para correr pelo corredor. Podíamos vê-la através de uma frecha na porta. Chamava 'tio' em árabe àquele corpulento militante encapuzado. Uma imagem devastadora. Os disparos isolados eram uma constante. Um só tiro de pistola. Nunca pudemos confirmar do que se tratava, mas Ricardo estava convencido de que eram execuções."

"O interrogatório era um simples exercício de aparências. O nosso destino estava fixado. Formávamos parte do projecto 'Guantánamo' (…) O projecto de estabelecer uma Guantánamo de extremismo islâmico não durou nem duas semanas. Desvaneceu-se em princípios de 2014, quando as hostes do EI tiveram de evacuar a região."

James Foley: "Passavam-se com ele"
Uma das razões pela qual Espinosa se recusou a contar a sua história até hoje foi o medo de alguns antigos companheiros de cela virem a sofrer represálias. Outra razão foi o respeito pela memória dos colegas entretanto executados, nomeadamente, o norte-americano James Foley.

Numa tentativa de fuga deste, conta Espinosa que "a guarda descobriu o britânico [Cantlie, colega de Foley] quando escorregou pelo muro. Foley podia ter tentado seguir sozinho, mas preferiu entregar-se. 'Não posso deixar o John sozinho', disse. Os 'Beatles' não eram fáceis de comover. Pelo contrário. James sempre foi uma das suas vítimas favoritas. Passavam-se com ele. Talvez porque o jornalista norte-americano aguentava as torturas com um estoicismo inaudito".

Os jihadistas chamaram "Guantánamo" ao local na Síria onde mantinham os estrangeiros em cativeiro. "Como a sua homóloga americana, era um compêndio da insanidade", escreve Espinosa no "El Mundo".

"Ao pé do comportamento sádico e violento de George, John e Ringo, Paul – chefe dos carcereiros de 'Guantánamo' – optou por pregar (…): 'nós apontamos, Alá é que dispara'", afirmava.

Em Raqqa, já no fim do cativeiro, Espinosa voltou a encontrar Foley depois de dias sem saber do seu paradeiro. "O seu físico não podia ocultar os longos meses de penúrias. Estava envelhecido, adelgaçado. Mas continuava a manter aquele espírito inquebrável que o caracterizava."

Mesmo tendo sobrevivido a episódios inenarráveis, Javier Espinosa conseguiu resgatar alguns episódio de humanidade. Como o tabuleiro de xadrez que fez com Ricardo Vilanova através de caixinhas de queijo. O resto, fica para a sua história. A história do prisioneiro número 43.