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Charlie Hebdo. A sátira como arma de provocação maciça

07 jan, 2015 • João Carlos Malta

Seguem a tradição provocatória da imprensa de extrema-esquerda francesa. As ameaças nunca os fizeram parar. Tiveram um aviso em 2011 com uma bomba a rebentar na redacção depois da publicação de um cartoon de Maomé. Mais de três anos depois, o jornal satírico viveu um dia sangrento.

Charlie Hebdo. A sátira como arma de provocação maciça

Sem medo, sem complexos, sem barreiras e com muitos alvos. Anti-religiosos e de extrema-esquerda, o "Charlie Hebdo" (CH) é um jornal satírico que elege a extrema-direita, o cristianismo, o judaísmo, o islamismo, a política em geral, mas também a finança e os banqueiros como temas referenciais para caricaturas, piadas e reportagens desde 1969.

O CH, vítima de um ataque que fez, pelo menos, 12 mortos, esta quarta-feira, é uma extensão da longa tradição da imprensa de extrema-esquerda francesa, que no século XVIII andava pelos pátios de Versalhes a descobrir escândalos sexuais. Nesta tradição, a crítica feroz tem um lema: "Sem medo de nada, nem de ninguém".

Mas esta escola da imprensa extrema-esquerda francesa é muitas vezes acusada de passar do provocatório para a obscenidade, escreve a BBC num longo artigo que dedica ao jornal depois de este ter saltado, em 2012, para a ribalta mediática com o cartoon "Charia Hedbo" (uma provocação à sharia, a lei islâmica). Já antes, em 2007, a revista tinha republicado 12 caricaturas do líder religioso islâmico, depois de um jornal dinamarquês o fazer.

Sem medo da polémica, o editor na altura da publicação de "Charia Hebdo" disse não perceber as reacções inflamadas no mundo árabe. Afirmou mesmo que nenhum limite tinha sido ultrapassado.

À época, já a redacção do jornal tinha sido atacada à bomba (um "cocktail molotov") e visto o seu "site" pirateado.

Mas estes atentados não demoveram os responsáveis do CH, que continuaram a publicar novas caricaturas do profeta Maomé que muitos consideraram desrespeitosas – desta vez nu. Em Setembro de 2012, depois destas publicações, o mundo islâmico entrou em polvorosa e seguiram-se uma série de atentados a embaixadas norte-americanas e postos diplomáticos.

"Pôr gasolina quando algo está a arder"
Não se fizeram esperar as reacções políticas. O ministro dos Negócios Estrageiros francês à época, Laurent Fabius, criticou a decisão do jornal de publicar os desenhos.

"Em França há o princípio da liberdade de expressão, que não deve ser colocado em causa. Actualmente, esta é uma situação absurda, e levou a que se levantassem fortes emoções em muitos países árabes. É realmente inteligente pôr gasolina quando algo está a arder?", questionou.

O editor do jornal defendeu-se de imediato. "Fazemos cartoons de tudo e de todos. Quando o fazemos sobre o profeta Maomé chamam-lhe provocação".

Começo "hara-kiri"
A história do "Charlie Hebdo" começa em 1960, quando Georges Bernier e François Cavanna lançaram o "Hara-kiri", uma revista mensal. Rapidamente foi acusada de ser "burra e feia" ("bête et méchant"). A frase tornou-se um slogan oficial.

A publicação foi proibida em 1961. Em 1966, a revista reapareceu como "Hara-kiri Hebdo", mais tarde (1969) renomeado "L' Hebdo Hara-Kiri" e passou a ser uma publicação semanal.

Mas as coisas azedaram novamente após a morte do Presidente francês Charles De Gaulle, em 1970, na sua pequena cidade natal de Colombey. Aconteceu dez dias antes de um incêndio num clube nocturno causar a morte de 146 pessoas. A publicação fez uma paródia, considerada desrespeitosa, da cobertura mediática dos dois eventos e foi novamente proibida.

O último reaparecimento da revista, sem interrupções, ocorreu em 1992, depois de mais de dez anos inactiva. Neste período não foi a polémica, mas a falta de vendas a levar à interrupção da publicação.

Luta interna
O "Charlie Hebdo" sofre constante comparações com o rival mais conhecido e mais bem-sucedido, "Le Canard Enchaîné".

Ambos são animados pelo mesmo desejo de desafiar os poderes instalados. Mas se o "Le Canard" segue uma linha de investigação de segredos não declarados, o CH é mais cru e muitas vezes mais cruel.

O "Charlie Hebdo" está também cheio de deserções e traições ideológicas. Um editor que esteve muito tempo no jornal renunciou ao lugar há um par de anos, criticando uma suposta linha anti-semita.

Estado Islâmico?
Com um vasto rol de polémicas, as mais recentes remontam à semana passada, quando o "Charlie Hebdo" publicou caricaturas sobre a morte do general Charles de Gaulle.

A última partilha do jornal nas redes sociais é um cartoon onde se pode ver o líder do autoproclamado Estado Islâmico Al-Baghdadi. Foi publicado pelas 10h12 (hora de Portugal continental) no Facebook e também no Twitter. No cartoon pode ler-se "Já agora, os melhores votos". "E, sobretudo, saúde".

Há já quem ligue esta última partilha ao atentado desta quarta-feira depois de terem sido vistos dois homens vestidos de negro e metralhadoras em punho a abandonar o edifício da publicação, deixando um lastro de sangue atrás de si.