Tempo
|

Debate

Que futuro para Portugal? Aproveitar a crise

11 mai, 2011 • Matilde Torres Pereira

O Ciclo “Portugal – Que Futuro?”, inserido nas comemorações dos 75 anos da Renascença, terminou hoje compassado pela irreverência de uma geração que anda a mudar o país. Jacinto Lucas Pires, Catarina Portas, Pedro Lomba e Joana Vasconcelos foram os protagonistas.

Que futuro para Portugal? Aproveitar a crise
Que futuro para Portugal? Aproveitar a crise
Que futuro para Portugal? Aproveitar a crise. Foi uma das mensagens deixadas por alguns dos participantes no quinto debate "Portugal, que futuro?", organizado pela Rádio Renascença, e que desta vez juntou quatro jovens que se destacaram em áreas muito diversas. Mas houve também quem lembrasse que a sociedade portuguesa não valoriza quem faz coisas, e que só alguns têm privilégios.

É uma história que podia dar um conto. Um dia, um homem partiu uma perna. Ficou de cama, mas foi deitado que deu o maior passo para a imortalidade. E tudo porque começou a fazer uns rabiscos.

O escritor Jacinto Lucas, que esteve hoje na Renascença no último debate do ciclo “Portugal – Que Futuro?”, narra os detalhes. "Li algures que o Matisse [um dos nomes maiores da pintura francesa], quando estudava Direito, partiu uma perna. Na altura, partir uma perna era complicado – as pessoas ficavam de cama. Naquele tédio de estar com a perna levantada, deitado, ele começou a fazer uns rabiscos. Fez um rabisco, fez outro rabisco e percebeu que era o Matisse e o que é que queria fazer. Portanto, as crises são momentos para repensar o que somos e o que queremos ser."

Matisse já fez todos os rabiscos que quis e deixou os quadros que pintou para os que se lhe seguiram – é um dos imortais da pintura. Jacinto Lucas Pires ainda escreve o seu próprio caminho – não rabisca quadros, mas já leva uma obra literária assinalável – e foi hoje um dos protagonistas de um debate diferente. Ao final da tarde, o auditório da Renascença, em Lisboa, ouviu uma geração que anda a mudar o país.

A empresária Catarina Portas, que compôs o elenco do debate, abraça a tese que sustenta a história de Matisse - as crises são alturas propícias para a criatividade. "Acho os períodos de crise absolutamente entusiasmantes. Identificam-se problemas e dizem-se coisas em voz alta", diz.

Para lá do entusiasmo, há trabalho a fazer. “Tenho a dizer que o país está cheio, cheio de oportunidades. Tirem o rabinho da cadeira, vão por aí fora! Quer dizer, tenham criatividade", desafia Catarina Portas.

Joana Vasconcelos seguiu já há algum tempo o conselho de Catarina Portas. A artista plástica pegou na criatividade e foi por aí fora. Hoje, Joana Vasconcelos, que também participou no debate, é um nome reconhecido além-fronteiras. 

“A minha carreira é o contrário do paradigma nacional", começou por contar a artista plástica. "Enquanto portuguesa, sou mais exótica que os artistas orientais”, refere Joana Vasconcelos, que defende que é preciso "aceitar os defeitos do país e dar-lhes a volta".

Jovens com mais de 30
Além da crise do país, a crise da juventude foi ponto de navegação no debate. O jurista Pedro Lomba, que fez parte do painel da conversa, começou por questionar o próprio conceito de juventude.

“Tenho 34 anos. Só em Portugal é que sou considerado um jovem. Por que motivo se perpetua este processo de infantilização?”, questionou Pedro Lomba. "Noutros países, quem tem mais de 30 anos já experimentou, já viajou, já errou, já teve sucesso...", acrescentou o jurista, antes de argumentar que há uma inércia que advém de um discurso dominante que não apela ao risco.

"É preciso que a sociedade valorize quem faça coisas. Fenómenos como a obediência e não levantar ondas são valorizados e são ideias que vão ganhando raízes e depois é muito difícil mudar”, considera Pedro Lomba. “Um país que não consegue ter uma grelha de avaliação de quem são os seus melhores é um país que está confuso”, referiu ainda.

Quanto à dificuldade de integração dos jovens no mercado de trabalho, Catarina Portas considera que o problema é de quem governa e de quem é governado. "O problema do mercado de trabalho está associado aos problemas do sistema de ensino. Em Portugal, fizeram-se opções profundamente erradas. [Mas] depois eu vejo as pessoas a descer a Avenida de Liberdade [no protesto da "geração à rasca"], como aquela rapariga que disse que fez um mestrado de estudos para a paz. Eu acho um tema interessantíssimo, mas depois [a rapariga] fica muito zangada com o Governo porque não tem emprego? Lamento, mas acho que isso não compete ao Governo", defende a empresária.

Sobre esta matéria, Joana Vasconcelos faz um reparo. "Tem que ver com a forma como se organizou o país, não com esta geração específica. Não se consegue agora dar resposta àquilo que se prometeu. São muitos anos de uma educação mal gerida."

O ciclo "Portugal - Que futuro?", inserido nas comemorações dos 75 anos da Renascença, terminou hoje. Ao longo de cinco debates, personalidades da sociedade portuguesa debateram um país que partiu a perna. Se Portugal vai ou não a começar a fazer rabiscos como Matisse, é assunto em aberto.