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“Verdades sobre a família podem ser estimuladas, mas não forçadas”

08 out, 2014 • Aura Miguel

D. Manuel Clemente falou esta quarta-feira, no sínodo para a família, sobre a complexidade da família nos tempos que correm.  

“Verdades sobre a família podem ser estimuladas, mas não forçadas”
O Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, considera que o debate em torno das grandes questões do actual sínodo para a família está muito em linha com o Concílio Vaticano II.

O representante do episcopado português no sínodo pega no exemplo da discussão sobre a liberdade religiosa que marcou muito o concílio dos anos 60.

“O Concílio, num dos seus documentos mais marcantes, o da Liberdade Religiosa, resolveu um problema que se punha há mais de dois séculos: Qual era a capacidade de cada um de nós de resistir ou hesitar em relação à verdade objectiva?”

“A verdade objectiva das coisas é Deus e as coisas como Deus as quer. Para nós que acreditamos na tradição bíblica e que em Jesus Cristo está essa verdade objectiva das coisas, essa liberdade de escolher diante dessa verdade objectiva, onde é que se punha? É um problema difícil de se resolver.”

“O Vaticano II resolveu, dizendo que a verdade objectiva não está em causa, mas que dentro dessa verdade objectiva está o facto de Deus nos ter criado assim, com um percurso para a mesma verdade, que pode e deve ser estimulado e acompanhado, mas não pode ser forçado”, explica D. Manuel Clemente.

É precisamente aí que o Patriarca vê lições a tirar para a realidade actual: “Julgo que é na mesma linha que poderemos encontrar caminho em relação a estas coisas. Não pode estar em causa a verdade da família e o matrimónio. Mas ao mesmo tempo, as pessoas, em relação a esta realidade, podem ser acompanhadas e estimuladas, mas não podem ser forçadas.”

Esta quarta-feira, D. Manuel interveio nos trabalhos do sínodo falando sobre a complexidade da família actual, conforme já tinha avançado à Renascença. “A minha intervenção foi de encontro com o que está a ser o tom geral do sínodo, a família como realidade global, não enviesando logo para os problemas que toda a gente sabe se levantam nalguns casais e de manter ou não manter o vínculo conjugal.”

Para o também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa não está em causa a indissolubilidade do casamento: “É óbvio que para Jesus Cristo se trata de um vínculo estável, ‘Não separe o homem o que Deus uniu’. Nós estamos a propor uma família estável, que vai muito contra o que verificamos enquanto cultura. A nossa preocupação é ver como conjugar as duas coisas.”

Uma das palavras que mais se tem ouvido nos últimos dias é o termo “gradualidade”, um conceito que permite distinguir situações irregulares por graus de gravidade ou culpabilidade. “A gradualidade não é de agora. Não pondo em questão a verdade objectiva, no caso da vida, da família e do matrimónio sacramental, a gradualidade é a nossa capacidade de, a pouco e pouco, irmos percebendo as coisas e irmo-nos obrigando a cumpri-las.”

“Aqui há um estímulo mútuo que nós nos devemos proporcionar e tem sido muito acentuada no sínodo a necessidade de que nas comunidades cristãs isto tudo tem de ser mais catequizado, mais exposto. Quando se diz que a Igreja tem de ser uma família de famílias, isto tem de se tomar mesmo a sério”, considera D. Manuel.