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O que faz um casal brasileiro num "debate dos bispos"?

30 set, 2014 • Filipe d'Avillez

Os Zamperlini acreditam que a sua participação no sínodo da família é uma prova de que a Igreja valoriza a importância dos casais na vida eclesial.

O que faz um casal brasileiro num "debate dos bispos"?
Um casal brasileiro está entre as 294 pessoas que participam no sínodo da família, que tem início no próximo domingo, em Roma.

Para além de perto de 200 bispos, o Papa Francisco convidou vários peritos em assuntos ligados à vida familiar para participar nos trabalhos e ainda algumas dezenas de auditores, incluindo 14 casais.

Arturo e Hermelinda Zamperlini são o único casal lusófono desafiado para estar no sínodo. Acreditam que o convite partiu do facto de serem os responsáveis, no Brasil, do movimento das Equipas de Nossa Senhora, que trabalha a espiritualidade dos casais.

"Somos 45.500 membros no total do Brasil, com 2.250 religiosos, entre padres, diáconos e freiras. É muito expressivo no Brasil, muito forte. O nosso compromisso com a família, com o casal, também é muito visível. Acreditamos que tenha sido pelo movimento que fomos convidados", explica Arturo.

"O casamento é o início de tudo"
O casal confessa que, embora já tivesse sido sondado sobre a disponibilidade para estar no sínodo, a confirmação surgiu pela imprensa.

Os Zamperlini estarão presentes como auditores, o que não lhes confere direito de voto, mas permite intervenções. Prometem estar atentos.

"O nosso papel, basicamente, vai ser ouvir", explicam. "Acreditamos que seja pouca a nossa contribuição: é um debate dos bispos. O nosso papel será ouvir, anotar, quando solicitado vamo-nos manifestar, mas basicamente fazer anotações e observações e no final faremos um relatório sobre o assunto".

O facto de haver casais a participar neste sínodo é visto como uma confirmação de que a Igreja os valoriza cada vez mais como núcleo fundamental da vida eclesial.

"Acredito que a Igreja, no momento em que chama casais, quer ouvir o que eles têm para dizer. É muito importante porque o casamento é o início de tudo, é onde a família começa", considera Hermelinda.

"Ouvir", "acatar e obedecer"
Sobre casos concretos e polémicos, como o debate à volta do acesso aos sacramentos por parte de pessoas em uniões irregulares ou a possibilidade de agilizar os processos de nulidade, Arturo e Hermelinda preferem não dar opinião, admitindo que aceitarão aquela que for a decisão dos bispos.

"Primeiro, temos de ouvir, eles estão lá para debater as questões. E o nosso papel como católicos é acatar e obedecer", diz Hermelinda.

Mas ambos concordam que a discussão é urgente e acreditam que este sínodo pode representar para a família o que o Concílio Vaticano II representou para a Igreja.

"Acreditamos que o Papa Francisco foi muito feliz em escolher este sínodo num momento em que a família está a ser pressionada, a sociedade actual tende a não acreditar na família como nós acreditamos e imaginamos que o debate vai passar por todas estas manifestações da sociedade de hoje", diz Arturo.

"Acreditamos que estamos a viver não uma época de mudanças, mas uma mudança de época. O Papa Francisco tem sido muito feliz em entender isso, em colocar a Igreja, usando uma expressão ainda do Santo Padre João XXIII, de fazer um 'aggiornamento' da Igreja nos momentos que estamos a passar. Acho que é essa a razão principal da convocação do sínodo", afirma.

Seja o que for que se concluir no longo processo sinodal, o casal brasileiro continuará, no contexto das Equipas de Nossa Senhora, a apostar nos casais: "O nosso movimento acredita na unidade do casal, que o casal, em vez de se separar se esforce para ficarem juntos, se aceitem, renovem as promessas do namoro, do noivado, de casamento e se aceitem juntos. Nós temos 41 anos de casamento e cada vez mais percebemos que a vida é melhor juntos e não separados", explica Arturo.

Acompanhe o sínodo da família na Renascença. Notícias, entrevistas e análise.