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Cardeal decano pede um Papa disposto a dar a vida pelos fiéis

12 mar, 2013 • Filipe d’Avillez

Cardeais reuniram-se na missa "Pro Elegendo Summo Pontifice", um dos últimos actos públicos antes do começo da eleição do novo Papa. Num tempo de polémicas no Vaticano, a homilia sublinhou a importância da entrega total e da unidade na Igreja.

Cardeal decano pede um Papa disposto a dar a vida pelos fiéis
Cardeal decano pede um Papa disposto a dar a vida pelos fiéis
Os Cardeais reuniram-se esta manhã na missa "Pro Elegendo Summo Pontifice", um dos últimos actos públicos antes do começo da eleição do novo Papa. Num tempo de escândalos e crises no Vaticano, a homilia do cardeal Angelo Sodano sublinhou a importância da unidade e da entrega total.

O decano do colégio cardinalício, Angelo Sodano, elencou esta terça-feira de manhã as duas características essenciais que devem marcar todos os padres e bispos e sobretudo o pastor universal que é o Papa: a unidade, segundo a qual todos devem colaborar para o bem da Igreja e dos fiéis, e o amor, que deve ir até ao sacrifício extremo, se for preciso.

"É aquele amor que nos impele a oferecer a própria vida pelos irmãos. De facto, Jesus nos diz: 'Ninguém tem um amor maior do que este: dar a vida pelos próprios amigos'. A atitude fundamental de todo bom Pastor é, portanto, dar a vida por suas ovelhas. Isto vale, sobretudo, para o Sucessor de Pedro, Pastor da Igreja universal. Porque quanto mais alto e mais universal é o ofício pastoral, tanto maior deve ser a caridade do Pastor", afirmou o cardeal Sodano na missa "Pro Elegendo Romano Pontifice", no qual a Igreja invoca o auxílio de Deus para a escolha do próximo Papa.

O decano fez então uma ligação entre este ponto e a mensagem de Bento XVI para a Quaresma, na qual destaca que a maior expressão deste amor é a evangelização: "Não há acção mais benéfica e, por conseguinte, caritativa com o próximo do que repartir-lhe o pão da Palavra de Deus, fazê-lo participante da Boa Nova do Evangelho, introduzi-lo no relacionamento com Deus: a evangelização é a promoção mais alta e integral da pessoa humana", afirmou o cardeal Sodano, sublinhando assim aquela que foi uma das maiores apostas do pontificado de Bento XVI - a Nova Evangelização.

"No sulco deste serviço de amor pela Igreja e pela humanidade inteira, os últimos Pontífices foram artífices de muitas iniciativas benéficas também para os povos e a comunidade internacional, promovendo sem cessar a justiça e a paz. Rezemos para que o futuro Papa possa continuar esta incessante obra em nível mundial", acrescentou o cardeal Sodano.

"Edificar a unidade da Igreja"
O decano do colégio cardinalício falou também sobre a importância da unidade, uma questão particularmente importante numa altura em que se fala de divisões e de intrigas no interior da Igreja.

"São Paulo explica em seguida que na unidade da Igreja existe uma diversidade de dons, segundo a multiforme graça de Cristo, mas essa diversidade está em função da edificação do único corpo de Cristo: 'A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, visando o aperfeiçoamento dos cristãos, e o trabalho na obra da construção do corpo de Cristo'", começou por referir o cardeal Sodano.

"No nosso texto São Paulo ensina-nos que também todos nós devemos colaborar para edificar a unidade da Igreja, porque para realizá-la é necessária 'a colaboração de cada conexão, segundo a energia própria de cada membro'. Todos nós, portanto, somos chamados a cooperar com o Sucessor de Pedro, fundamento visível de tal unidade eclesial", considerou Sodano, fazendo novamente eco de uma linha em que Bento XVI insistiu de forma particular, não deixando de criticar internamente os seus colaboradores quando sentia que eles não estavam a trabalhar para a unidade e em união com ele, mas sim contra a Igreja.

Apelo aos cardeais
Esta é uma homilia que costuma ter grande importância para a Igreja e que serve tradicionalmente para indicar as prioridades da Igreja para o momento actual. A missa seguiu-se a vários dias de encontros entre os cardeais todos, incluindo os que não votam. Em 2005, o encarregado foi o cardeal Ratzinger, que falou do perigo da "ditadura do relativismo" e estabeleceu assim um "programa" para o pontificado para o qual acabaria por ser eleito.

Desta vez não é natural que o eleito seja Sodano, que não vai participar no Conclave, mas o sublinhar da dimensão do amor e da unidade é um apelo a todos os cardeais que vão eleger o próximo Papa para que mantenham estes dons entre as características prioritárias do escolhido para liderar a Igreja ao longo dos próximos anos.

Um dos momentos altos da homilia surgiu logo no início, quando o cardeal Angelo Sodano fez questão de agradecer o "luminoso pontificado" de Bento XVI. Nessa altura, toda a assembleia irrompeu numa salva de palmas, revelando a estima sentida ainda entre o povo católico pela figura do Papa que resignou a 28 de Fevereiro de 2013.

[notícia actualizada às 12h02]