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Pio XII

"Com ardente ansiedade"

12 mar, 2013 • Filipe d'Avillez

Nome de nascimento: Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli. Data de nascimento: 2 de Março de 1876. Período do pontificado: 1939-1958.

O Papado de Pio XII, de quase 20 anos, terá sido o mais duro do século XX. Sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, mas ainda hoje o seu nome e a sua actuação são o centro de muita polémica.

Poucos Papas modernos serão ainda tão controversos como Pio XII. A menção do seu nome na imprensa costuma acarretar notícias de acusações trocadas entre católicos e judeus e leituras diferentes de vários historiadores.

As alegações mais frequentes são de que Pio XII não terá feito o suficiente para condenar a actuação dos nazis e, mais concretamente, para salvar os judeus durante o holocausto. Muitos historiadores dizem que só será possível chegar a alguma conclusão mais definitiva quando o Vaticano disponibilizar o seu arquivo dessa época, o que ainda levará algum tempo.

Contudo, pode-se afirmar com segurança que Eugénio Pacelli não era de forma alguma amigo do regime de Hitler. Tendo sido núncio apostólico na Alemanha e responsável pela negociação de uma concordata com o Governo, o futuro Papa conheceu bem, e de perto, o regime e a ideologia nazi.

Antes de ser eleito, em 1937, foi o responsável pela redacção da encíclica "Mit Brennender Sorge" ("Com ardente ansiedade"), que condena duramente o paganismo dos nazis e os seus atropelos aos direitos dos cristãos. A encíclica foi distribuída em segredo e lida em todas as paróquias alemãs no Domingo de Ramos. A resposta nazi foi furiosa: todas as gráficas que tinham ajudado a imprimir o documento foram encerradas e a Igreja foi publicamente condenada e perseguida.

Apesar disto, e dado o papel que tinha desempenhado nas negociações secretas com o regime soviético, parece claro que, mesmo depois da sua eleição, Pio XII visse os comunistas, e a sua mais aberta e total perseguição ao Cristianismo, como uma ameaça maior do que os regimes de extrema-direita.

Em todo o caso, isso em nada prova a acusação de cumplicidade, por inacção, no Holocausto. Existem vários relatos, e alguns documentos, que sustentam que Pio XII deu mesmo ordens explícitas às congregações religiosas para ajudar e esconder refugiados judeus em Itália. Pelo clima que se vivia então, é natural que as provas documentais sejam escassas.

A fama de Pio XII a este respeito nunca esteve em causa nos anos imediatamente seguintes à guerra. A sua actuação foi mesmo louvada por diversos representantes judaicos. Tudo mudou em 1963 com a publicação de uma peça de Rolf Hochhuths. Em "O Deputado", Pio XII é representado como um hipócrita cínico que se mantém calado face às provas que vão surgindo da perseguição aos judeus. A adaptação da peça ao inglês ajudou a divulgar esta visão.

Segundo uma investigação levada a cabo pela revista "La Civilitá Católica" no ano passado, os primeiros rumores sobre a inacção de Pio XII não surgiram no seio da comunidade judaica, mas sim no bloco de leste. Uma transmissão na Rádio Moscovo de 2 de Junho de 1945 fazia as acusações e chamava a Pio XII, que nunca escondeu a sua hostilidade para com o comunismo, "o Papa de Hitler".

Parece ser a partir destes factos que se foi consolidando a controvérsia em torno deste Papa e que tem levantado alguns entraves ao seu processo de canonização.