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“Temos de dotar as pessoas de estratégias” para evitar casos como o da Figueira

14 mai, 2015

Especialista em educação parental considera que a abordagem a casos de agressão entre jovens (e não só) não se resume a agressores e agredidos.

“Temos de dotar as pessoas de estratégias” para evitar casos como o da Figueira
Ninguém pode ficar indiferente e a intervenção tem de ser feita em várias direcções. É a resposta da psicóloga Filomena Gaspar, especialista em educação parental, ao polémico vídeo divulgado nas redes sociais com imagens de agressão entre jovens.

“Tem de haver, como em todos os problemas de comportamento e de saúde mental de jovens e crianças, uma intervenção sistémica. Trabalhar com os pais destas crianças – da vítima e do agressor – com as escolas (os professores e os assistentes operacionais, porque são quem está nos recreios e não sabem como lidar com este tipo de situações)”, afirma.

Escola, família e crianças compõem, assim, o quadro de intervenção. Mas é preciso fazer mais. “Muitas vezes, na rua, assistimos a situações e não fazemos nada, porque entendemos que é do foro privado daquela pessoa, mas não é. Se eu vir um jovem a agredir outro, como cidadão eu devo intervir. Eu tenho que impedir que aquilo aconteça e se as pessoas sentirem que estão em risco, liguem o 112. Não podem ignorar”, enfatiza a professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra.

Nesta entrevista à Renascença, Filomena Gaspar sugere ainda uma reflexão sobre a intenção de quem colocou o vídeo nas redes sociais. “Não foi para defender nenhum deles”, garante.

No que toca à intervenção dos implicados, a psicóloga sublinha que não é apenas a vítima que precisa de ajuda. “O agressor também precisa”. No caso concreto do vídeo da Figueira da Foz, o agressor é uma rapariga, que “um dia vai ser mãe e, como profissional, vai trabalhar com pessoas. Eu tenho também de dar a esta rapariga a oportunidade, não só pelos outros com quem vai interagir, mas por ela também, pelo bem-estar dela pessoal”, defende a especialista.

E quanto ao jovem agredido? “Deve estar num enorme sofrimento. Porque é que não se defende? Alguém que aceita ser agredido é alguém que precisa de imensa ajuda”, diz Filomena Gaspar.

“Depois desta exposição pública, o que vai acontecer? Temos de pensar que estes miúdos estão em risco de suicídio muito maior do que os outros”, avisa, deixando logo um outro alerta: “Não é só ele que temos de ajudar, senão vamos pôr um rótulo e dizer que só ele é que tem um problema. É também a escola e a família”.

Filomena Gaspar reafirma, assim, que “temos de inverter esta espiral” que leva a que estes acontecimentos se dêem, começando a apostar na prevenção e “a dotar as pessoas de estratégias para que tal não aconteça”.

Quanto aos jovens que aparecem no vídeo que se tornou viral, foram identificados os oito alegados agressores. A PSP revela que quatro deles são maiores de 16 anos e vão ser alvo de processos-crime. São suspeitos de sequestro e ofensa à integridade física.

Os restantes são menores. Vão responder em inquérito tutelar no Tribunal de Família e Menores.