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Choque de liberdades

Santana Lopes: crescente liberdade de expressão prejudica respeito pelas crenças dos outros

18 jan, 2015 • José Pedro Frazão

Santana e António Vitorino, dois 'presidenciáveis', analisaram os acontecimentos de Paris à luz do debate sobre a liberdade de expressão e a convivência entre religiões na Europa. Todas as semanas vestem a pele de comentadores no Fora da Caixa, às sextas à noite, na Renascença.

Santana Lopes: crescente liberdade de expressão prejudica respeito pelas crenças dos outros
Santana Lopes: crescente liberdade de expressão prejudica respeito pelas crenças dos outros
António Vitorino alerta que "o Estado de direito democrático não se mostrou indiferente àquilo que era o tipo de liberdade de expressão do Charlie Hebdo" e decidiu não censurar aquele tipo de humor. Pedro Santana Lopes acredita que não há condenações porque "os tribunais e a sociedade em geral dão mais valor à liberdade de expressão, de pensamento, de opinião, mesmo prejudicando o respeito à dignidade humana".

Terá o “Charlie Hebdo” passado das marcas, mesmo que isso não justifique um massacre ?

Para António Vitorino, a resposta é simples. Nas democracias – onde "não há uma polícia do bom gosto" – a lei e os tribunais são os mecanismos que decidem se um órgão de comunicação social atenta contra valores fundamentais.

"Sim, várias vezes foi processado. E nunca foi condenado. Esse é que é o ponto. O Estado de direito democrático nunca se mostrou indiferente ao tipo de liberdade de expressão do “Charlie Hebdo”. Várias vezes os judeus foram 'alvejados' e reagiram. Os católicos franceses foram 'alvejados' e reagiram. Não houve condenações judiciais contra o 'Charlie Hebdo'”, diz.

“Nós podemos achar que tudo aquilo é de mau gosto mas, na realidade, os mecanismos do Estado de direito democrático não censuraram aquele tipo de humor", argumenta António Vitorino no programa Fora da Caixa da Renascença.

Santana Lopes contra-argumenta: "Não há condenações porque os tribunais e a sociedade em geral dão cada vez mais valor à liberdade de expressão, de pensamento, de opinião, mesmo prejudicando o respeito que é devido muitas vezes ao bom nome, à dignidade da pessoa humana, aos valores das suas crenças e das suas convicções. Na velha questão da nossa liberdade acabar onde começa a dos outros, cada vez a dos outros vai recuando mais, a vários níveis, nomeadamente no plano das convicções".

O antigo primeiro-ministro, tido como um possível candidato presidencial, recorda a polémica em Portugal em torno de uma caricatura de João Paulo II cuja imagem vinha acompanhada de um preservativo.

"Quem é católico e vê um cartoon assim, sente-se atingido", assegura Santana Lopes.

"A primeira reacção de quem olha para um desses cartoons é sentir uma agressão à sua fé, às suas convicções, ao ver a figura do Santo Padre retratada daquele modo". A diferença está depois no modo de reagir a caricaturas do género. No mundo ocidental, "nós reagimos com tolerância. Noutras civilizações reage-se do modo que vimos", acrescenta.

Viver a religião na Europa
Para Pedro Santana Lopes, Paris trouxe um "choque de diferentes culturas civilizacionais", em especial no plano das liberdades.

O antigo primeiro-ministro acrescenta que o problema está na coexistência na Europa entre uma cultura onde a liberdade "é cada vez mais valor supremo" e uma "civilização" completamente diferente, que, por exemplo, está longe de garantir uma igualdade de sexos ou admitir certos comportamentos em público.

"Sentimos o Estado Islâmico à porta de casa", diz Santana.

O antigo comissário europeu António Vitorino detecta um paradoxo no mundo globalizado.

"Cada vez dependemos mais uns dos outros à escala planetária e depois refugiamo-nos em políticas 'identitárias', sejam elas de raiz religiosa, étnica, cultural, de território de origem ou de residência. Este 'identitarismo' tem como objectivo exacerbar as diferenças e não criar as pontes para o entendimento na diversidade. As nossas sociedades europeias são cada vez mais diversas, cada vez mais multi-étnicas e multirreligiosas. Temos que fazer um apelo aos valores que unem as pessoas e não aos que as dividem ou separam", considera o antigo ministro socialista.

Vitorino, nome que também entra no lote dos 'presidenciáveis', recusa alimentar um "estigma" em relação aos muçulmanos.

"Tenho a certeza absoluta que uma leitura adequada do Islão não é uma leitura belicista. Nenhuma religião pode ter uma interpretação de morte, de extermínio dos outros”, diz.
E acrescenta: “O Papa disse isso com uma grande clareza. Temos que respeitar a dignidade de cada fé religiosa. Esse respeito significa o convívio, que nem sempre é fácil e tem picos de choque provocados por minorias", assinala Vitorino, acentuando a natureza excepcional deste tipo de criminalidade.

"Nós temos uma comunidade que também tem criminosos, que são sempre uma minoria. Temos criminosos portugueses. Não são terroristas, mas praticam outro tipo de actos. Isso significa que os portugueses têm alguma propensão para a criminalidade? Não".

O comentador da Renascença considera que este atentado tinha um objectivo claramente mediático.

"Há aqui uma nova tendência, que é a tomada de reféns. Tem um efeito pensado sobre o impacto mediático. A tomada de reféns prolonga a situação de crise, mantém a atenção mediática – e da opinião pública – durante longas horas, em torno de um 'enquistamento de uma crise', o que amplia o impacto e a repercussão", assinala Vitorino.

O "Fora da Caixa", que pode ouvir sexta-feira a partir das 23h00, na Edição da Noite, é uma colaboração da Renascença com a Euranet Plus, rede europeia de rádios.