Entrevista a Roberto e Roberta Medina. "Rock In Rio no Parque Tejo será o maior festival da Europa"

Pai e filha, o fundador e a diretora da operação em Lisboa, sentam-se em estúdio para uma conversa sobre o passado, o presente e o futuro de um festival que cumpre 40 anos no Brasil e 20 anos em Lisboa.

22 jun, 2024 - 00:25 • José Pedro Frazão



Uma hora com Roberto e Roberta Medina. "Rock In Rio no Parque Tejo será o maior festival da Europa"

Das peripécias da fundação do festival à aposta em Lisboa, passando pelas relações com a política, as desigualdades e as fraturas sociais, as caras de duas gerações da família Medina explicam os seus planos para o festival que trocou a Belavista pela paisagem ribeirinha do Tejo na Lisboa Oriental. A entrevista foi gravada entre os dois fins-de-semana do evento em Lisboa.

O primeiro Rock In Rio foi 11 a 20 de Janeiro de 1985. O Brasil saía da ditadura militar, era um momento de transição. Era um mero negócio de entretenimento ou vinha acompanhar o tempo que o Brasil vivia nessa altura?

Roberto Medina - Havia algo mais. A minha família foi vítima de perseguição da ditadura. Quando vem a abertura democrática, ela aconteceu dentro do Rock In Rio, com Tancredo Neves [presidente eleito em Janeiro de1985] e tudo mais. Aquilo me inspirou, não só a mim, mas muito jovens daquela época se inspiravam naquele momento que se viva de transição. Foram 25 anos de ditadura.

Havia 2 aspetos. Era um produto que eu estava criando, um inconformismo de um publicitário. Já tinha a minha agência de propaganda grande no Brasil, era 'publicitário do ano' . Eu via propaganda em 360°, como vejo hoje. Estamos aqui na rádio e as ferramentas mudaram e se complementam. Não existe uma boa campanha que não tenha rádio, televisão, porque é diferente quando se mede a audiência com os 'streamings' e os 'likes'. O importante na comunicação é tocar o coração da pessoa e isso se isso com o conjunto do ambiente das ferramentas de comunicação. Então ninguém perde a importância nesse processo.

Na altura faltava isso ao Brasil?

Roberto Medina - Completamente. Há 40 anos, eram basicamente aqueles media académicos, o jornal, a rádio, a televisão e pouca coisa mais. Resolvia-se um projeto de comunicação com um dia na televisão, mais uma capa de jornal e estava resolvido. Eu achava que não era aquilo. A propaganda tinha que contaminar o entorno e era uma voz meio perdida na multidão dos publicitários. Esse produto foi criado também com essa visão.

A companhia de cerveja que investiu naquela época 20 milhões de dólares no evento. E não passou de 1 para 20, não havia investimento em espetáculos ao vivo. Não existia isso no Brasil. Ali foi uma 'virada' de momento brasileiro. Eu não fui à companhia e ninguém me perguntou que ia cantar. Compraram uma campanha de comunicação. Eu fui vender uma campanha de comunicação e ao longo do processo de construção, fui aprendendo a coisa do rock, do metal, do new wave. Comecei a aprender, comecei a ouvir aquilo para poder entender. A minha proposta, o meu projeto era muito mais com a visão de uma pessoa de comunicação do que uma do entretenimento.

Roberta Medina - Para criar uma mobilização.

O Roberto ficou surpreendido com a mobilização do primeiro Rock In Rio ?

Roberto Medina - Fiquei. Uma coisa é o que está na nossa cabeça. Quando vi que tínhamos 250 mil pessoas no primeiro dia, aquela 'turma real' saiu da minha cabeça e vejo que aquilo aconteceu. A mobilização estava ali, na prática, na rua. Foi muito emocionante. Lembro-me dos primeiros jovens entrando no portão e beijando a grama (relva). Pensava 'Meu Deus, acho que fiz esse negócio acontecer'. É engraçado, porque desde o primeiro momento em que eu sonhei com o Rock In Rio, ele não veio fragmentado para mim.

Eu estava na minha casa e ele veio com a quantidade de pessoas que aconteceu. Lá no Brasil, os maiores 'shows' da história eram de 30 mil pessoas. Eu podia ter sonhado com 100 mil ou com 150 mil. Não, era claro que eu ia colocar 1 milhão e meio de pessoas. Mas ver 1 milhão e meio de pessoas é completamente diferente. É um pouco a diferença entre música mecânica e música ao vivo. Eu acho que a vida é ao vivo.

O nosso evento aqui mudou de cara e ganhou um outro patamar. O Rock In Rio deste ano colocou o Rock In Rio numa outra posição. Ele deixa de ser o maior evento de música de Portugal para ser o maior evento de música da Europa.

Essa fotografia vai ganhar o mundo, a ponte, o Tejo e tal, é uma coisa incrível. Ganhou maioridade em todos os sentidos, inclusive na realização, porque todo o filho sai de casa, não é? Então saiu de casa agora com a Roberta, então está ótimo.

Roberta tinha 6 anos. O que é que se lembra do primeiro Rock In Rio?

Roberta Medina - Muito pouco. Lembro-me de me perder na obra. E na verdade não me perdi, estava apenas atrás de uma estrutura e só não sabia onde estava toda a gente. Estava a chorar, perdida na obra. Lembro-me de pôr New Wave no cabelo, era a época das purpurinas, etc. E lembro-me de brincar com os produtos oficiais. Havia óculos incríveis de cada cor. Lembro-me de dormir no chão de um camarote, mas do evento em si não tem memória. As minhas memórias em relação ao evento começam mais à frente e vendo coisas que sinceramente não gostava muito de ver.

Roberto Medina - Porquê?

Roberta Medina -Porque para você foi um projeto muito ruim.

Roberto Medina - Foi muito difícil.

Roberta Medina - A primeira edição foi um projeto muito bom para toda a gente que participou. Foi um sucesso a nível mundial. Ele fala assim, com essa tranquilidade, que era para 1 milhão e meio de pessoas. Mas não havia isso no mundo inteiro. O único festival de referência grande até então foi Woodstock, que não foi criado para ser um festival.

Roberto Medina - E mesmo Woodstock foram 380 mil pessoas e não programado.

Roberta Medina - Ele fala com essa tranquilidade, mas para ele , por uma série de questões que só soubemos 10 anos depois, foi muito desafiador. Eu mesmo só comecei a contar essa história quando estávamos aqui em Portugal e o projeto ficou musculado. Hoje a minha geração tem permissão para falar de erro, crescendo no Brasil e em Portugal, porque os Estados Unidos têm uma mentalidade diferente. O Roberto nunca pôde contar que a primeira edição tinha sido um desastre financeiro, porque isso remetia para um empresário ineficiente . E não, estamos aqui sentados, conversando 40 anos depois, por causa do sucesso da primeira edição.

Agora isso não apaga que eu, com 16 anos, acompanhei-os a passarem o último cheque da dívida da primeira edição, quando já tinha acontecido o segundo Rock In Rio.

O que é que aprendeu e corrigiu do primeiro para o segundo Rock In Rio?

Roberto Medina - No primeiro, eu fui vítima de uma perseguição política incrível pelo Brizola [governador do Rio de Janeiro]. Eu não estava preparado para isso, para tomar a frente nos media. Acontece que era tão absurdo aquilo acontecer na cabeça das pessoas no Brasil que eu tive que me colocar na frente da campanha. Então eu 'virei' muito popular sem querer ser. De repente eu era o Mickey daquela história toda. E aí, o governador de então achou que eu queria ir para a política. Eu nunca quis.

Talvez tenha pensado no seu irmão e nas suas ligações políticas [Rubem Medina, que foi deputado federal pelo Rio de Janeiro em 9 mandatos].

Roberto Medina - Exatamente. O meu caso era fazer um evento, era comunicação, não era esse mundo. Houve uma perseguição muito grande e esse foi um dos fatores. Se não tivesse havido isso, não teria tido um espaço de tempo maior para voltar e eu ia apostar financeiramente.

Roberta Medina - Dava para recuperar mais rápido o investimento, só que a perseguição política fez com que a Cidade do Rock fosse destruída. Até hoje, foi a única que foi construída para ser uma estrutura permanente.

Roberto Medina - Para você ter ideia do tamanho da ‘encrenca’, um dos parceiros amigos era a TV Globo. Roberto [ Marinho, fundador da Globo] ligou-me a dizer: ‘Os artistas foram para a frente da Cidade do Rock. Você vai para lá e comanda os artistas e vão fazer uma caminhada ao vivo até ao Palácio, porque não vão permitir isso’

Eu falei: ‘Eu estou doente, não aguento mais. Eu entreguei o meu sonho, está entregue e está todo o mundo feliz. Eu não estou, mas está todo mundo feliz.’ E o Governador destruiu a Cidade do Rock que era um investimento gigantesco. Mas não mudou muito face ao que fizemos do ponto de vista de entrega de produto. Não mudou. Eu tive prejuízo, mas os parceiros todos ganharam. A televisão ganhou muito com aquilo. A Brahma conquistou 11% do mercado nacional,o que é uma barbaridade porque o Brasil é muito grande.

A indústria fonográfica brasileira, não apenas de rock, cresceu 180% com o Rock In Rio, segundo dados deles. E mais ainda, toda a tecnologia embarcada que veio dos Estados Unidos. Como não tínhamos som, luz e palco, fui beber do mercado americano. Hoje a exportamos para eles. O evento do Rock In Rio, tanto de Portugal como do Brasil, é muito melhor do que o melhor evento americano. Porque há uma coisa binária nos Estados Unidos, eles vendem bilhetes para ver um artista. Eu nunca pensei nisso. Não é isso que as pessoas compram.

A “experiência” é a palavra-chave do Rock In Rio desde o início?

Roberto Medina - Totalmente.

Roberta Medina - Já tinha centro comercial, praça de alimentação, etc.

Roberto Medina - Era uma ‘operação de guerra’ disso. Eu não tinha a preocupação da banda, não era minha, era das pessoas. Eu sabia que eu ia mobilizar as pessoas. Nos inquéritos, daquela época e agora, 50% das pessoas dizem que vão pela banda e 50% pelo evento. Não é verdade. Elas vão 100% pelo evento. O Rock In Rio no Brasil está consolidado, ele esgota de qualquer jeito antes de Abril. 400 mil pessoas vão comprar bilhetes sem saber nada sobre o que vai tocar lá.

Em Portugal também é assim?

Roberta Medina - Portugal é mais desafiador. Há uma parte que faz assim. O mercado português tem alguns desafios, como o poder aquisitivo da população. É muito curioso que quando na última edição no Brasil na altura, em 2001, a realidade financeira do projeto é que 80% precisava de ser pago por patrocínio, pelo mercado publicitário e 20% vinham da venda de ingressos. Quando vimos para Portugal, encontramos um outro modelo, que é 50% do patrocínio e 50% na venda de bilhetes. Isso aumentava o nosso risco, mas era viável pelo poder aquisitivo.

Nos últimos anos, o poder aquisitivo da população vem sendo cada vez mais apertado para manter a qualidade de vida - vocês sabem melhor do que eu - e a oferta cresceu muito, mas não dos festivais. Há muita oferta gratuita de cultura e por isso uma venda de ingresso em Portugal tem um nível de esforço muito maior do temos no Brasil.

Mas o negócio dos festivais não está mal em Portugal.

Roberta Medina - Não está de todo mal, ao contrário, é gigante, só que não tem o mesmo nível de impulso. E aí há uma brutal diferença.A marca Rock In Rio no Brasil é uma bandeira de uma geração enquanto em Portugal é um evento incrível. São coisas diferentes. A primeira edição, que era um projeto incrível que tinha toda a intenção de unir pessoas, podia ter sido só um evento incrível. Mas foi adotado como bandeira daquele momento, na história do país. O festival marcou a liberdade de expressão e o fim da ditadura militar. Isso tem uma dimensão completamente diferente do que fazer um evento incrível.

Roberto Medina - O Rock In Rio vai esgotar o terceiro dia rapidamente e vai entrar com 3 dos 4 dias esgotados com uma plateia incrível e uma cidade nova. Passa para outro nível e passa a trazer mais europeus. Portugal não é pequeno. Lembro-me que gastei 80% do meu tempo do meu discurso com os media portuguesa a falar disso. Portugal é do tamanho do que puder pensar. É maior do que o Brasil, porque é Europa. É olhar o todo, são vizinhos. No Brasil em todo o Rock In Rio, 70 países compram bilhetes lá no Brasil.

Qual é a percentagem de não-portugueses que vêm geralmente a Lisboa?

Roberta Medina - Aqui, em compra fora direta, são 20 mil ingressos de 102 países diferentes. Agora com a possibilidade de ter um parque maior, vamos pela primeira vez apostar fortemente na comunicação Internacional, onde entendemos que dá para crescer muito mais.

Roberto Medina - Acho que agora vai ser mais ainda. O Rock In Rio tem de crescer em experiência. As pessoas têm de estar lá cada vez mais pela festa e pelo encontro. Temos de estar sempre trazendo produtos novos. Outra coisa interessante também que aconteceu nesses 20 anos é que os públicos mais velho e mais novo começaram a entender que era seguro e que era tranquilo.

Não tive esse problema no Brasil. No primeiro festival , com toda a loucura de acontecer aquilo, tínhamos crianças e velhos. Aqui não, porque a entrega dos outros produtos era muito tosca, realmente tosca e as pessoas não se sentiam confortáveis. Aqui não, você tem um ambiente seguro e acho que vai ficar cada vez mais. Essa cidade nova vai se transformando e transformando, como foi no Brasil. A impressão que tenho é que é preciso ‘stressar’ esse movimento de criar produtos.

A banda tem que ser uma estratégia fundamental? Claro que sim, isso é óbvio. O que não é óbvio é o que está em volta da banda. Lembro-me quando fui falar com um Presidente de uma grande companhia americana, em Las Vegas, eu sentia que ele não tinha entendido bem quando ele foi lá em. Quando ele foi ao Rock In Rio - e olhe que a companhia tinha 10 eventos - disse que nunca tinha visto a outra parte fora do palco. Aos poucos, sinto o público mais velho cada vez mais presentes, indo para uma experiência, um passeio, um encontro. Desde o início do Rock In Rio, nunca pensei que era uma questão de bandas, até porque não era. Já tive algumas experiências interessantes no Brasil, onde uma banda muito grande foi ao Rock In Rio com 250 mil pessoas e, no mesmo ano, foi a uma casa de 12 mil pessoas e não esgotou.

É o contexto?

Roberta Medina - É a história toda que se constrói.

Como foi tomada a decisão da saída do Parque da Belavista, a vossa casa desde o início, para o novo espaço, o Parque Tejo?

Roberto Medina – Isso é culpa dela.

Roberta Medina - Eu mandei uns vídeos de imagens aéreas do Parque para ele [Roberto] quando estava a estrear o The Town [festival em São Paulo], que é um evento tão grande quanto o Rock In Rio. Mandei as imagens aéreas do Parque, só para dar um ‘claquete’ assim para começar. Ele não respondeu, zero, nada. Cheguei a São Paulo e perguntei : ‘viu aquilo que eu te mandei ?’ e ele começa ’ai que bonito’. E à medida que eu vou explicando sai a seguinte pérola: “Ah isso já está pronto!’, achando que nós queríamos fazer o Parque do zero. Quem inventa essas ‘maluquices’ do zero é ele e não somos nós.

A história [começa] na Jornada Mundial da Juventude. Conhecemos aqui toda a polémica e a má gestão que, na minha opinião, foi feita em relação à preparação daquele espaço e em termos de comunicação.

Houve má gestão?

Roberta Medina - Má gestão da comunicação das partes políticas, de uma forma clara. O projeto era extremamente positivo para a cidade, com um promotor de imagem incrível, preparando um terreno que era um ‘lixão’, que estava sendo resgatado para ser devolvido à população. E ficámos numa discussão de um valor, que é relevante, mas não perto do tamanho e do potencial que aquilo trouxe para a cidade. Não é apenas a minha opinião, pois se resgatar todas as notícias dos 4 dias anteriores à Jornada, toda a gente estava a falar da mesma coisa. Demoraram muito tempo para explicar à população e ficámos numa discussão superficial, absolutamente não relevante, sobre os metros do palco.

Era por causa do custo do palco.

Roberta Medina - Mas o retorno era sempre muito maior do que o custo. Quatro dias antes, os nossos representantes políticos diziam a mesma coisa. Deteriorou-se ali a imagem de um projeto extremamente positivo e viu-se depois quão bom foi, quão leve. Foi brutal.

A Roberta esteve lá?

Roberta Medina - Fui vendo pela televisão, já estava no Brasil. No meio dessas cenas de discussão do Parque Tejo, em janeiro de 2023, saíram umas polémicas, umas fofocas, como se o Rock In Rio fosse para o Parque Tejo. Ninguém nunca tinha falado connosco. Falei com o presidente Carlos Moedas, ele disse que não, que era informação truncada. Estávamos com um projeto pronto, lançado, desenhado na Belavista.

No final de julho, nas vésperas de ir para São Paulo e com a construção do palco a avançar, o Presidente Carlos Moedas convidou-me a ver o Parque. Chegou a dar-me arrepio na coluna. ‘Jesus, ele vai convidar-nos a ir para o Parque’ e eu, cá comigo que só tinha visto imagens aéreas do Parque Tejo, ‘é que nem pensar, como é que explico ao público, que está acostumado à Belavista, que saio de uma concha natural perfeita, com árvores, lindinho, para um parque descampado plano? Não vai acontecer’.

Claro que fui, aceitei o convite, combinámos que não podia ter ninguém lá para não criar a ‘fofoca’ de que o Rock In Rio estava a ir [para lá].

Foram em segredo, em julho, antes de chegar o Papa.

Roberta Medina - Os construtores estavam a finalizar a cenografia do palco já. Estava com Ricardo, meu marido, que é CEO da operação de todo festival, saí do carro, olhei para o parque e de repente inverteu-se completamente tudo o que eu fui pensando até lá. Agora como é que vou resolver para sair da Belavista? Porque realmente o parque é absolutamente divinal. Mesmo para a operação, com todo o amor que temos pela Belavista, é um parque muito difícil de operar. Não é à toa que não acontecem tantas coisas assim na Belavista.

Mas qual era o fator decisivo? A capacidade de expansão?

Roberta Medina - Estávamos há muito tempo a querer crescer, investir mais em música, em mais palcos e mais atrações, mais experiências. Na Belavista não conseguíamos e, para ter uma ideia, eu ficava pensando se iria conseguir uma ‘passarela’ para o terreno do golfe [ Clube de Golfe da Belavista].

A Belavista estava no limite?

Roberta Medina - Completamente, não tinha para onde crescer.

Mas já estavam a pensar expandir para outro local?

Roberta Medina - Não, queríamos expandir a oferta.

Roberto Medina – Tínhamos essa angústia de não poder criar mais ali no Parque. A propósito da visita do Papa, quero lembrar que há uma miopia generalizada dos media no mundo inteiro, particularmente nos países em desenvolvimento, sobre essa questão do evento, da festa. A festa é o indutor mais barato que existe para o poder público investir para criar riqueza.

Portugal é um exemplo, ao contrário do Rio de Janeiro. Quando cheguei aqui vocês tinham 11 milhões de turistas e hoje têm 22 milhões de turistas. Vocês duplicaram isso com trabalho. 22 milhões é um número importantíssimo. O Brasil, com aquele tamanho todo, tem 6 milhões. Quando os media e os políticos do mundo olham para a festa, entendem-na como despesa e não como receita. Fazer um viaduto é um investimento, patrocinar a vinda do Papa e fazer um investimento do Rock In Rio… O Rock In Rio nunca teve apoio financeiro de nenhum governo, nem lá nem aqui. Deveria ter, quer dizer, a política de entretenimento devia ser muito mais ativa, tanto aqui quanto lá

Existem taxas que não são cobradas.

Roberta Medina - As taxas não são cobradas, não há investimento financeiro no projeto. Digo com a maior tranquilidade que, se as taxas existissem da forma como eles calculam, não havia Rock In Rio. Nem é uma discussão. Ela só volta todos os anos, muda partido e a discussão é igual, por uma questão de provocação política. Se o país quiser cobrar aquelas taxas a qualquer promotor que venha fazer o que quer que seja, não vai acontecer.

Roberto Medina – Santana Lopes foi a pessoa que encontrei quando cheguei aqui como Presidente da Câmara. E ele perguntou-me o que queria dele e eu disse ‘nada, arruma o Parque da Belavista e eu não quero nada de você’. Ele estranhou, fizemos o evento e eu vi uma entrevista dele à saída que me deixou muito feliz. O repórter perguntou quanto tinha sido investido no patrocínio e ele disse “nada, porque achava que não ia acontecer, mas hoje, se ele tivesse pedido com o que está aqui, eu teria investido muito’. Há uma miopia nesse sentido. Também no Brasil faço questão de não ter nenhum apoio, Lei de Incentivo, coisa nenhuma. O terreno é sempre particular.

O Rio de Janeiro, sem grandes mobilizações de turismo ou um projeto efetivo de turismo, tem um impacto económico do negócio cultural e turístico de 28 biliões de reais. E não fazemos nada. No Rio de Janeiro 50% é negócio do Rock In Rio e Carnaval. O poder público não investe nada nesse setor e é uma briga permanente. Sou amigo do prefeito [presidente da Câmara], que começou a fazer coisas, teve a Madonna na praia, vai começar a fazer um calendário e eu vou ajudar. Mas há uma miopia no entendimento disso. No Rio de Janeiro temos 28 mil empregos diretos. E aqui já estamos em 13 mil empregos diretos.

Isto mostra a marca Portugal. Quando vim para cá, a visão do brasileiro era a de um país triste e antigo e quando cheguei, vi que não era nada disso. Hoje gastam-se biliões para construir uma ‘marca de amor’. Fazê-lo em Portugal e no Brasil, num projeto desses, é uma estratégia de governo. Mas porque é que o político não põe isso na agenda? Ele não diz isso, porque os media interpretam isso como gasto. Não é gasto nenhum, é o investimento mais barato que existe. E nos casos de Portugal e do Brasil, é essencial. Vocês vivem de turismo, de paisagem, gastronomia e vive da cultura e dos eventos.

O debate sobre o investimento pode estar relacionado curiosamente com o ano em que o Rock In Rio veio porque, em 2004, Portugal gastou muito dinheiro em estádios de futebol. Aliás, o Brasil também teve essa discussão com o Campeonato do Mundo. As pessoas centraram-se nos gastos e no que iria acontecer depois. Tiveram consciência de que esse era o debate em Portugal, quando vieram para cá?

Roberto Medina – Quando vim para cá, para mim, o grande inimigo era essa coisa da tristeza de Portugal. Era o fado, a tristeza, o ‘sou pequeno’ e eu não entendia. Via uma cidade luminosa, com uma grande gastronomia, colada aos países mais importantes do mundo. Era uma questão de autoestima. Posso estar errado, mas tenho a impressão que o Rock In Rio, no momento dele, e o Felipão [Scolari] mudaram isso. A juventude não se acha um patinho feio, está feliz com Portugal. Vocês são profissionais, particularmente na área da lógica e da engenharia, em que são melhores do que nós. E nós [somos] na área da criação. Na empresa do Rock In Rio, o pessoal de Portugal tem claramente toda a parte de logística, engenharia e o pessoal brasileiro tem a criação, talvez por toda essa dificuldade económica e política do lado de lá e um pouco da influência africana mais direta no povo brasileiro.

Eu brincava muito com vocês sobre futebol. ‘Vocês são muito estranhos, escolhem uma seleção excelente e ficam dizendo durante 2 anos que vão perder. Nós escolhemos qualquer coisa e ficamos a dizer que vamos ganhar e se perdermos é só um dia’

Mas vocês têm muitos ótimos jogadores.

Roberta Medina – Mas antes de bons jogadores, somos otimistas desenfreados.

Mas a propósito da tristeza, temos grandes fadistas que estão a fazer sucesso no Brasil.

Roberto Medina - Nada temos contra o fado.

Noutra perspetiva, há um outro Portugal, não é?

Roberta Medina - Completamente. Como estou morando aqui, não consigo olhar o Brasil da mesma forma que olho para Portugal, talvez porque tenha nascido lá, mas nas gerações abaixo dos 30 anos, Portugal é outro país. Já não existe mais o ‘vai-se andando’. Acabou o constrangimento social. Efetivamente existe uma mudança cultural, que talvez tenha a ver com cada vez maior abertura. Portugal é um país que abriu há pouco tempo, em termos de liberdade.

Roberto Medina – Vocês tiveram o dobro do tempo de ditadura que tivemos no Brasil. Isso fez a ‘garotada’ ficar para baixo e marcou muito as gerações mais velhas.

O Rock In Rio em Lisboa passou ao lado das dificuldades económicas e das crises? Portugal teve uma intervenção externa e o próprio Rock In Rio sofreu por causa disso?

Roberta Medina – Nunca passa. Na verdade, sempre sofre. Digo sempre que, se o Rock In Rio está em Portugal, ele é reflexo do país, da sociedade e se há uma crise financeira, vamos ter dificuldades em venda de bilhetes e de patrocínios. Isso faz parte dessa jornada. É curioso que aconteceu o contrário na edição de 2012, no auge da crise, em que o efeito no público foi o contrário do que nos preocupava. Pensávamos que estando as pessoas muito tristes e preocupadas, como é que iria ser a Cidade do Rock? E o efeito foi o oposto. As pessoas estavam eufóricas por algum momento, nem que fossem aquelas 12 horas para poderem ser felizes e esquecer os problemas do seu dia-a-dia.

Acho que a pandemia também veio reforçar mais uma vez aquilo que não queremos admitir que é a importância da cultura e do desporto, que têm muitos papéis, mas também um papel de reequilíbrio, de respiração, que alimenta a esperança de que o mundo pode ser melhor. Quando vivemos ali 12 horas de alegria, de sorriso, onde os preconceitos não se colocam, isso faz com que acreditemos numa perspetiva de sociedade diferente face à dureza do nosso dia-a-dia.

Mas o mundo não está muito bom. O tal ‘mundo melhor’ está muito difícil.

Roberto Medina - Está a colocar uma questão muito importante nesse momento, porque nós vendemos alegria e integração. No Brasil, particularmente lá em São Paulo onde fiz agora o The Town, fiz questão de fazer uma favela inteira, com 300 casas com horta, com água, com esgoto, pintada, bonita. O que tem o Rock In Rio a ver com uma favela? Ou com 70 salas de aula que eu abri nas favelas do Rio de Janeiro, com 4 milhões e meio de árvores que plantei?

Eu fiz um espetáculo no meio do Rio Amazonas para começar o projeto de plantar árvores na Amazónia, consciência ambiental, blablablá. Eu disse que ia plantar 1 milhão e meio de árvores. E um jornalista português perguntou se 1 milhão e meio de arvores iria mudar a Amazónia? Eu disse que bastava uma. Eu tenho que ‘bater o tambor’ para o poder público correr atrás do problema. Eu tenho de entusiasmar a juventude a ir atrás do problema.

O que está a acontecer é que, com a pulverização das ferramentas de comunicação, a leitura da juventude é de apenas duas linhas. Esse é um desafio que vamos ter. Então o jornalista não está a escrever a notícia e o produtor não quer conversar mais do que aquela entrega. Temos um pano de fundo muito complicado no mundo. 70% das pessoas do mundo, não apenas do Brasil ou Portugal, não querem ouvir o outro. A música, o teatro ou o cinema, aproximam pessoas. A música une diferentes.

É diminuto diante do caos que estamos a viver? É, mas nunca foi tão importante ‘bater o tambor’ sobre a possibilidade de darmos a volta por cima. Eu sou uma pessoa otimista por natureza, senão não tinha feito minha trajetória. Eu continuo a achar que o mundo vai dar certo. Não está no momento bom. E eu acho que a juventude, que é quem pode fazer essa mudança, não está a fazer a mudança.

Mas é difícil, por exemplo, que um Rock In Rio no Brasil faça a diferença num país tão polarizado, com tanta a animosidade entre as pessoas, com tanta desinformação a correr nos telemóveis?

Roberto Medina - Vou dar um exemplo concreto. O nosso último evento ocorreu um mês antes da campanha eleitoral com mais brigas que já houve na história do Brasil, entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Eu estava preocupado com isso porque havia uma briga enorme no Brasil. E não aconteceu nada, ninguém brigou com ninguém, não aconteceu uma vaia.

Roberta Medina – Estamos a falar de um período em que famílias se separaram por conta de opiniões diferentes políticas.

Roberto Medina – Muitas famílias se separaram até hoje. Acho que quebrámos um pouco isso, agora seria suficiente para haver uma transformação? Esse é o nosso papel. Estou com 4 milhões e meio de árvores plantadas.

Mas não proibia ninguém de vir com a tshirt do seu candidato para o seu Rock In Rio?

Roberta Medina – Claro que não, a legislação proíbe campanha política em eventos culturais. Foi essa a única ressalva que fizemos. Relembrámos que não era possível, até porque é uma questão de segurança num evento de 100 mil pessoas. Não me venham aqui para o palco incitando à diferença.

Roberto Medina – Aos artistas mais amigos, eu conversava e dizia para não criar polémica, para deixar as pessoas divertirem-se

Roberta Medina – Campanha é uma coisa, visão do mundo e outra. Isto vai ser sempre um espaço de liberdade.

No início, Brizola e outros estavam muito preocupados se o Roberto queria fazer carreira política. Ao longo deste tempo, essa tentação passou pela sua vida?

Roberto Medina – Não.

Roberta Medina – Não, mas está sempre a ser provocado.

Roberto Medina – Tenho um irmão que era político e fez isso muito bem. Teve 9 mandatos como deputado federal e então representou a família nessa atividade. Acho que hoje, se ele tivesse de tomar a decisão de ir de novo, ele não iria, porque o ambiente político está difícil, está extremado demais. Se formos ao ápice disso, essa curva acentuada não se vai se modificar tão cedo, mas vai acontecer.

O fenómeno das redes sociais deu voz a todo o mundo e claro que é democrático. Mas havia um filtro disso com os veículos tradicionais dos media, com os jornalistas, sejam de esquerda ou de direita. O fato real é que as pessoas foram para o extremo e uma pessoa do centro fica sem graça nos media.

Você é do centro?

Roberto Medina - Sou do centro. Acho que há ideias fantásticas na esquerda e na direita. A direita tem uma entrega mais prática das coisas, realiza melhor. E a esquerda tem um viés social que é fundamental. Eu sou contra o capitalismo extrativista. Acho que todas as empresas têm de pensar no mínimo que 50% das pessoas do mundo estão com fome. Então há que trazer essa pessoa e transformá-lo em consumidor. Até pelo ângulo mais egoísta que uma empresa possa ter, ela tem de ter obrigação social, e a esquerda traz isso para o debate. É mais rica na conversa na cultura. Então as coisas complementam-se.

Conseguiu então ficar à margem de ser pró-Lula ou pró-Bolsonaro?

Roberto Medina - Não é por aí, nem um nem outro. O caminho é das ideias. Temos de deixar de discutir personagens.

Roberta Medina – Ali estava difícil de escolher, viu?

Roberto Medina - Menos personagens e mais ideias, mais coisas. Não é apenas o programa de promessa de fazer isso, mas sim como é que se faz isso? Onde está o dinheiro para isso? Acho que é o momento de mais executivos na política, uma visão mais pragmática, executiva, onde a ideologia fique ali [de lado].

Roberta Medina – Se fossem gestores, poderia funcionar de forma diferente.

A Roberta também tem a mesma atitude política? Faz parte de ser promotor de espetáculos ? Acha que em determinados momentos tem de afirmar um apoio a este ou aquele candidato num determinado momento histórico do país?

Roberta Medina - O nosso projeto é de alto nível de exposição. É formador de opinião e acho que ele não deve nunca ser politizado. Estamos num ambiente de democracia, onde somos simplesmente palco para milhares de pessoas. Não importa o que a Roberta acha naquele momento e o Rock In Rio não deve, na minha opinião, nunca ser partidário.

Roberto Medina – Também acho.

E a relação foi sempre igual com as várias cores políticas, nomeadamente em relação à Câmara de Lisboa?

Roberta Medina - Sempre, maravilhoso. Temos uma relação muito boa com todas as cores políticas. É impecável. Isso dá-se pelo diálogo. Trabalhamos juntos, escutamos. Acima de tudo, temos a consciência de que o nosso primeiro parceiro que tem que estar feliz connosco é a cidade que nos acolhe. Temos uma construção muito conjunta com todos os governos. Já são 20 anos com vários representantes e sempre foi uma relação muito positiva

Roberto Medina – No Brasil também, depois da situação do governador. Só para complementar o que eu penso sobre o Rock In Rio, a diferença é que o nosso cabeça de cartaz é cada pessoa, não é o artista. Fomos o primeiro evento do mundo a iluminar a plateia e os americanos não queriam. Eles é que produziam para mim, não queriam e eu fiz sozinho ‘no peito’. Porque é óbvio que 200 mil pessoas são muito mais que qualquer artista do mundo. Não há artista mais importante que a pessoa que vai ali, que acredita no teu sonho. O artista tem o seu peso, como a logística, é tudo um conjunto em que a pessoa tem de estar feliz. É nisso que apostamos.

Ao longo deste primeiro fim de semana, lemos muitas queixas de muita gente em relação ao novo espaço.

Roberta Medina - E muitos elogios também.


 

Já falámos também sobre isso, nomeadamente um novo lugar cénico que agora é experimentado, que os portugueses conheceram da Jornada Mundial da Juventude e que agora conhecem pela primeira vez num outro evento naquele local. Talvez possa ser essa a explicação para alguns problemas do primeiro fim-de-semana. Que questões encontrou para corrigir logo desde o primeiro fim de semana?

Roberta Medina - Estamos a trabalhar fortemente com as autoridades na gestão do espaço externo, nos acessos ao local. Muita gente não acreditava que o 'shuttle' daria certo e foi uma operação impecável. No primeiro dia, no sábado, por alguma descrença não estavam todos as unidades lá. E depois regularizou-se o acesso das pessoas e a saída foi pacífica. O que atrapalhou a saída? O público que levou o seu carro para o Parque das Nações. Nas imagens parece que o mundo ia acabar. As pessoas largaram os carros em qualquer buraco, em qualquer calçada e, na saída, trancou o trânsito. Neste próximo fim de semana, as autoridades vão bloquear a zona toda só para moradores.

Estamos sempre a ser uns chatos. Essa mudança para o Parque Tejo é uma grande oportunidade para corrigir esse comportamento, porque na Belavista , depois do Metro ter deixado de fazer os horários estendidos - esse ano já está fazendo de novo - as pessoas perderam a confiança no transporte público. Então acham mais cómodo ir de carro. Não é verdade que os portugueses só andam de carro. O ‘shuttle’ está incrível, está funcionando, as pessoas aderiram.

Quem vai de carro para o Parque das Nações tem os parques de estacionamento oficiais, situados a 20 minutos , que não estavam cheios porque as pessoas largavam o carro na calçada. Existe aqui um processo de educação que leva um tempo e que é normal. Vamos para uma nova casa, estamos a aprender muitas coisas em relação a ela.

Temos 40% a mais de casas de banho e o povo reclama por filas na casa de banho. O que é que percebemos ? Talvez até pela curiosidade, porque aumentámos muito a oferta cultural com artistas de maior peso - foi isso que o Parque Tejo já causou de mudança – e estamos a quebrar esse conceito de primeiro e de segundo palco, colocando artistas de maior peso em todos eles, fez com que as pessoas tivessem vindo mais cedo. Então, a necessidade de comida só aumentou. Estamos a aprender com isso. Tínhamos a referência da Belavista que, aqui, com oferta cultural maior, com mais motivos para chegar cedo, gera um comportamento diferente.

Roberto Medina - Eu quero brincar com você sobre a fila.

Roberta Medina - Lá venho eu. Ele quer brincar comigo sobre filas? Vou até sentar…

Roberto Medina – Não, eu estava lá andando e havia uma fila gigantesca. ‘Porque será que essas pessoas estão a fazer fila ?’ Pedi à minha esposa para ir lá. Ela perguntou a duas mulheres e elas não sabiam porque estavam na fila que ia demorar umas duas horas. Elas queriam um brinde.

Roberta Medina – Vi uma cena genial na Belavista com uma fila sendo formada atrás de um poste. Só que eu sabia que não tinha nada acontecendo ali, ali não havia uma atração. Às vezes há esse fenómeno de entrar numa fila de distribuição de brindes. E eu fui lá, muito constrangida, porque estava pronta para dizer não havia nada ali. Eles estavam à espera de um promotor que tinha ido buscar uns chapéus para distribuir ali.

Para quem esteve nas filas, não sai de lá decerto com uma boa experiência.

Roberta Medina - Não, nós também não gostamos de filas. Temos discutido muito e algumas coisas vão já mudar neste fim-de-semana na capacidade de oferta. Todos os operadores são individuais e pequenos empresários. Vi a fila do pão com chouriço e pensei como é que aquele senhor ia vender mais pão com chouriço porque a fila era uma loucura, o que não acontecia em outras edições. Temos uma oferta maior, com melhor visibilidade e melhor acesso do público. Os próprios operadores de alimentação estão a preparar-se para uma capacidade maior de venda para esse fim de semana, porque a referência que tínhamos não era essa.

Vamos ter de avaliar para a próxima edição - porque não daria para agora - se vamos ter que fazer uma operação como no Brasil, um pouco mais industrial, onde operamos não com unidades móveis, mas com bares gigantescos e operações de cozinha mais agressivas para poder ter uma operação maior. Com a referência que tínhamos até hoje, da Belavista, não fazia o menor sentido.

E lá dentro, na circulação, com muita gente afunilada, é por não conhecerem o espaço? No Parque da Belavista as pessoas já conheciam o local e era mais harmonizado?

Roberta Medina - Mas também não é real, porque quando estávamos com picos, nas laterais da Zona VIP, não se circulava, era difícil passar. Só que nós já conhecíamos, então o desconhecido traz essas coisas. Vamos ter um reforço gigantesco de equipas de gestão. Por exemplo, nas casas de banho, se havia 2 pessoas, agora quero 8 pessoas de apoio para cada casa de banho, indicando que as cabines estão vazias porque simplesmente fica atravancado, porque a pessoa para antes.

Roberto Medina - Já fizemos isso no Brasil, onde há uma aplicação que indica a casa-de-banho livre.

Roberta Medina - Só que aqui perdemos uma parte da equipa de apoio. Como aumentámos 40% nas casas de banho, não estávamos a pensar que iria sequer ser uma questão e então tivemos menos equipas de apoio. No próximo fim-de-semana, voltamos a aumentar as equipas de apoio para fazer fluir a circulação dentro das casas de banho. Os operadores de comida estão reforçando as suas operações. A polícia vai trabalhar o trânsito de forma mais forte. O ‘shuttle’ já está a operar perfeitamente. Haverá uma redistribuição do local dos carros das plataformas digitais, que também ficaram atravancando um pouco a rua. Está a ser organizando com a polícia um local para onde se possam direcionar. A estação de comboios de Sacavém deu conta do recado e dá para chegar mais ali de comboio.

E o fundamental é que não dá para largar o carro na rua. Posso falar por experiência própria. Saí de lá no sábado depois das 2 da manhã, já tinha o público ido embora, e fiquei 40 minutos para chegar a um lugar onde eu chego em 7 minutos. Porquê? Porque as pessoas estavam com os carros atravancando os passeios. É uma questão de comportamento.

Como é que, com tanta experiência acumulada, aconteceu este caso em que a organização lamenta o excesso de rigor e falta de sensibilidade no que aconteceu na zona VIP?

Roberta Medina - Já tinha acontecido outras vezes. A Sónia e a Bárbara não estavam informadas por quem de direito - e aqui não estou minimamente interessada em achar culpados, é irrelevante. Temos uma figura pública – ou podia não ser- uma pessoa que se sentiu exposta num determinado contexto e que não houve sensibilidade suficiente para não causar aquela situação. Essa é a nossa responsabilidade, independente de como chegamos ali [por causa de] falta de informação. Não podia ter acontecido.

Qual é diferença? Já houve pessoas barradas na Zona VIP ou qualquer coisa do género, porque todo o mundo acha que tem o direito. Não estou a falar da Sónia. A Sónia e a Bárbara estavam lá em trabalho. Mas já tivemos outras situações de pessoas que se dizem conhecidas e com direitos e que geraram o seu ‘bafafá’ nas revistas cor-de-rosa, etc. A diferença hoje são as redes sociais, o alcance e o impacto que a conversa teve para a relevância da história.

O que é relevante é que a Sónia é uma artista séria, uma profissional séria, que já tocou connosco mais de uma vez e com quem temos uma relação ótima. E houve um erro de gestão.

Não gostou do tom de Sónia Tavares no vídeo?

Roberta Medina - Eu acho que o tom… Eu falei disso com ela. Falei com ela desde ontem [ segunda-feira, véspera desta entrevista] e desde sempre.

Sim, ela disse também que já falou consigo.

Roberta Medina - Falei com ela. E o que eu acho é que se no final … uma coisa é acontecer algo porque houve um descuido da equipa ou de várias – até porque não é uma pessoa da equipa, algo correu mal no conjunto da obra. Mas no final ela manda um recado menos delicado para a organização, que me obriga a responder e aí fica tudo chato, só ganha dimensão.

Eu acho que o facto da Sónia, também de vez em quando, contar cenas caricatas de um jeito especial, fez todo o mundo entrar, uns com gozação, outros entrando revoltados, sem ter informação do que estava a acontecer. De novo, acima de tudo, é preciso resguardar a Sónia. A Sónia é uma profissional séria.

Pode até ser convidada para atuar num próximo Rock In Rio ?

Roberta Medina - Claro que sim, mas isso não mudou nada na nossa relação com ela. Ela é uma profissional séria, uma grande artista, uma referência neste país e nós adoramos ter uma relação [com ela]. Eu conheço, fui atrás do número de telefone dela, porque tenho John [Gonçalves, dos THE GIFT] no meu telefone direto. Está tudo certo. O que aconteceu à volta disso… De novo, se tivesse sabido mais cedo, por exemplo, se a informação tivesse internamente circulado mais cedo, já teria ligado para ela. Mas não circulou, não precisávamos sequer chegar à dimensão daquilo que chegou.

Roberto, má publicidade é boa publicidade?

Roberta Medina – Eu não gosto dessa teoria.

Roberto Medina – Não, não acho uma publicidade boa, não. Tentamos construir uma ‘marca de amor’, uma relação de amor com cada um e temos de ter a melhor entrega possível. Hoje é muito difícil, muito complexo, fazer a entrega toda, porque, como a Roberta disse, temos as redes sociais. Tirando a política, colocando no plano geral da comunicação, a leitura está sempre nos extremos. Não há o centro da questão e aí fica muito ruim. Em 500 mil pessoas, escolhem-se 5 casos. Esses casos são aumentados, porque para os media de hoje, estar tudo bem não é notícia.

Roberta Medina – Temos 13 mil pessoas trabalhando. Acha que não vamos ter problemas em 13 mil pessoas?

Roberto Medina - Eu tive muitos casos complexos, de uma equipa enorme que se junta naquele período todo ali. Claro que há um ‘bate-cabeça’. Não é brincadeira. No Rio de Janeiro, temos um milhão de pessoas, é uma cidade grande. E perguntam-me muito no Rio como é que, tendo passado 12 milhões de pessoas na bilheteira nesses 40 anos, nunca ter tido um incidente? Não é um trabalho de segurança. Nenhuma segurança com 100 mil ou 200 mil pessoas vai resolver alguma coisa. Nem exército resolve. O que resolve é fazer uma entrega correta, sinalizado, com trânsito bom, com os produtos no preço certo, com um som certo. Algumas coisas falham nalguns momentos, porque é uma equipa grande.

Roberta Medina – E não há um ensaio geral. Na realidade, o nosso negócio é muito desafiador.

Roberto Medina – E aí cabe a você pedir desculpa. Mas a construção dessa relação de amor é tudo o que eu quero. Eu sou um cuidador desse espírito no evento. O que o pessoal do Rock In Rio fez agora aqui é extraordinário. O que é que eu vi? Como tenho uma visão da comunicação, eu estou fazendo um anúncio com uma fotografia aqui. Estou a fazer um anúncio de página inteira em todos os jornais, nunca fiz. Eu quero a foto porque isso é bom para o Rock In Rio e é bom para Portugal. É outro evento. Verá que terá mais anunciantes, vai ter cada vez mais gente. Esse lugar mudou o padrão agora. Eles [organização do Rock In Rio Lisboa] vão estar a pensar daqui a pouco que têm de abrir outro dia no evento.

Roberta Medina – Já está a criar-me desafios.


 

Dá a ideia, Roberta, que tudo está preparado para uma expansão de alguma forma do Rock In Rio Lisboa.

Roberta Medina - Primeiro quero expandir em mais conforto, face aquilo que porventura nessa edição não tenhamos sido capazes de entregar. Ainda temos muito espaço para utilizar ali dentro. Estamos a usar muito menos espaço do que o parque permite, porque não fazia sentido. Não aumentámos a capacidade de público. Aumentámos 30 mil metros quadrados. É suficiente para aquele público. Coloca-se no papel, vemos como é que as pessoas circulam e, afinal, temos informações novas que vamos ter de aprender.

Pode crescer até quanto?

Roberta Medina - Não tenho aqui a intenção de aumentar em termos de público. Pela primeira vez na história do Rock In Rio Lisboa em 20 anos, estamos a esgotar 3 dias. Em Portugal, cada dia destes são quatro MEO Arena. Não é expectável que isso aconteça num festival de música. O Roberto fez aqui uma provocação sobre mais 1 dia. Para já, não estamos a falar sobre isso ainda. Para já queremos mais experiências. Estamos já a debater algumas ideias muito giras para ter uma oferta cultural ainda mais relevante.

É o carro voador?

Roberta Medina - Ele vai implementar o carro voador, querendo eu ou não.

Foi o Roberto que falou no carro voador.

Roberto Medina - Eu disse e vou fazer. eu vou fazer. Eu desde lá atrás que eu quebro os paradigmas. Quando eu disse que ia fazer a maior Cidade do Rock do mundo, as pessoas ficaram a olhar. Quando, na minha reunião no Rio, falei do carro voador, as pessoas ficaram a olhar como se eu fosse um ET. O carro voador vai estar, óbvio que vai estar. Vai ficar pronto no ano que vem, as empresas vão começar a fazer pequenos percursos, como um táxi. Vou fazer o carro voador lá na área VIP e depois vai ser comum. Claro que é para um cliente Vip, porque tem 2 lugares. Vamos ter 2 tipos de carro, em que o carro que vai sozinho, vai no computador. Já entendi tudo isso aí, já falei com o Presidente da Embraer.

O carro voador também vem para Lisboa?

Roberta Medina - Tentámos trazer este ano, mas ele não estava licenciado ainda. Quem sabe, para o ano…

Roberto Medina - Eu fico sempre a inventar e eles a bloquearem-me. É natural. Ela tem ‘o pé na razão’ e eu viajo. Sempre foi assim. O que vejo aqui no Parque é que as pessoas começam a ambientar-se ao espaço. Isso é uma coisa que vai acontecer no próximo festival. Eu sugeri à Roberta fazer grandes guarda-chuvas gigantes e coloridos para o sol e para termos mais áreas de sombra. E – isso não falei isso com ela - tem de haver mais sinalização até que as pessoas se acostumem ao local. Há ainda a dimensão de informatização para a pessoa saber se a casa de banho está vazia, o que também é importante. Quanto ao trânsito, é exatamente isso. Vai melhorar porque não se vai permitir mais, porque o Governo não vai permitir que as pessoas larguem os carros. Eu também vi os carros parados.

Vai aproveitar algumas ideias destas, Roberta?

Roberta Medina - Eu não sou 100% obediente, mas é como se diz, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Última pergunta. O Roberto disse que nunca teve um ídolo nas bandas que contratou. Não tem nenhum artista favorito?

Roberta Medina- Só um.

Roberto Medina- Se eu tivesse que escolher um primeiro Rock In Rio, era o James Taylor, que eu contratei porque eu quis, pois não aparecia em estudo nenhum. Eu gosto de música country e dele em particular. Brasileiros, gosto de um monte deles. Mas o grande nome da minha vida é o Frank Sinatra.

Até porque está ligado também, de certa forma, ao Rock in Rio.

Roberto Medina - Ele viabilizou o primeiro Rock In Rio, foi ele que passou a minha credibilidade para o mercado americano. Se não fosse ele, não teria conseguido. Imagine um brasileiro, que os americanos olham de cima para baixo, que vai lá e diz que o maior evento de música do mundo é aqui. Eu lembro-me de uma reunião com um grande nome da indústria americana, que me dizia que eu era muito arrogante, ao chegar nos Estados Unidos e a pôr páginas e páginas nos jornais a dizer que era o maior evento do mundo. Disse ‘sou e não é um problema de arrogância. Vocês precisam de me dar atenção, eu chamei a vossa atenção, leram os meus anúncios’

Vou-lhe dizer uma coisa. Se há uma coisa de que sou orgulhoso, é que Portugal e o Brasil têm os maiores e melhores eventos de música do mundo e os americanos têm que engolir isso.

Roberta, não sei se vou perguntar se tem um artista favorito, mas posso perguntar se, por exemplo, tem um artista que quer muito trazer nos próximos anos ao Rock In Rio, em Lisboa? E em particular, por exemplo, Taylor Swift seria um bom regresso ao Rock In Rio agora em Lisboa?

Roberta Medina - Seria sempre, não sei se faz parte da jornada dela. Não me parece, ela está com uma jornada desenhada para uma vida mais pessoal, por outros caminhos. Uma artista que já esteve connosco no Brasil, que foi um ‘show’ inesquecível e que tentámos de tudo para trazer esse ano - até porque ela está aqui ‘na esquina’, em Londres – foi a Pink.

Roberto Medina - É engraçado, eu ia falar nisso. Quando eu lancei a Pink no Brasil, viraram o nariz para mim. A Pink explodiu.

Roberta Medina - Se me perguntar o que gosto , é fácil: Bruno Mars. Já é raro um artista que não tivemos não teve, só que não estiveram em todos os mercados: Bruno Mars esteve em São Paulo, não esteve no Rio, esteve aqui. A Taylor Swift esteve em Las Vegas.

Falando em mulheres, Rihanna já veio, mas não a Portugal.

Roberta Medina - Esteve no Rio de Janeiro.

Lady Gaga nunca esteve.

Roberta Medina - Essa era boa também. Estamos sempre atrás dela para o Brasil.

Roberto Medina - Era ótima. Foi uma pena, porque ela ficou doente mesmo, com um problema de fibromialgia grave e não conseguiu.

Beyonce, estou aqui a pensar.

Roberta Medina - Tivemos Beyoncé no Brasil, não em Lisboa. Mas querer, queremos todas, tentamos todas.

É uma questão de agenda na maior parte das vezes?

Roberta Medina - A primeira questão é a agenda, se está em digressão, se a data do festival encaixa no roteiro. Antes disso, se eles estão em digressão com um espetáculo de arena, de estádio ou de festival, que são estruturas radicalmente diferentes. Imagine o espetáculo de Taylor Swift, como é que se põe aquele ‘mundaréu’ de equipamento dentro do Rock In Rio? Não põe, o palco tem que ser aquele palco. Cada um traz os seus equipamentos, mas tem que se adaptar aquela estrutura. Então, se o artista está exclusivamente num espetáculo de digressão, como no caso de Rolling Stones, que nunca tinham feito uma ‘tournée’ de festivais, ‘venha meu bem’ que nós queremos.

Nós queremos, mas não depende só de nós. Na maior parte, depende muito do próprio artista.

Já fechou algum nome para o próximo ano? Sei que não vai anunciar porque isso tem um timing de marketing.

Roberta Medina - Era bom. Se há coisas que adoraria era ter essa antecedência toda. Não, ainda não. E antes disso, temos que agora discutir com a cidade, avaliar com toda a gente, porque estou louca para poder dizer que ficamos para sempre no Parque Tejo.

E quando é que isso se vai saber?

Roberta Medina - Pronto, estamos trabalhando.

Com Carlos Moedas?

Roberta Medina - Não só. Hoje temos 2 câmaras Municipais - Lisboa e Loures - 5 juntas de freguesia, com quem nos relacionamos. Uma boa notícia é que não houve nenhum problema de impacto de ruído, super tranquilo, a não ser as buzinas do povo na saída. Em 2026, nos meus sonhos, voltamos para o Parque Tejo com muitas novidades.

Roberto Medina – Deixem-me dizer o que acho. Quando fiz o primeiro Rock In Rio na barra da Tijuca, não existia barra da Tijuca, carregou o mercado. Vocês ali fizeram o ponto. Não é só o Rock In Rio que vai ficar ali para sempre. A cidade vai crescer rapidamente para ali, mais rápido do que está a acontecer. Esqueçam, Moedas tem mais é que assinar.

Roberta Medina - Mas Moedas é o grande incentivador, ele é que acreditou e ele é que convidou. Mas o nosso compromisso é o de escutar todos os intervenientes. Acho que tem tudo para de facto ficarmos ali.

Roberto Medina – Sabe que o primeiro lugar onde eu fui há 20 anos, foi ali. Falei com os responsáveis de Loures e Lisboa. Não podia ser porque tinha uma coisa de lixo de origem química, com contaminação.

Roberta Medina – Olha só, 20 anos depois. Eu não sabia, achava que era do outro lado da ponte.

Roberto Medina – Não, foi ali, naquele lugar.


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