Valhelhas. Joaquim foi um de quatro guardas-florestais. Quando se reformou, era o último

A aldeia de Valhelhas foi apanhada de surpresa na segunda vaga de incêndios na Serra da Estrela. Hélder Saraiva, presidente da junta, diz que a localidade se tornou “um autêntico cinzeiro”. Durante 27 anos, Joaquim Antunes foi guarda-florestal, função que em 2006 passou a estar integrada na GNR. E tudo mudou: “Andávamos para aí a fazer voltas, para autuar. Mas a vigilância [nas matas] nada.”

06 set, 2022 - 07:00 • Fábio Monteiro , Maria Costa Lopes (vídeo)



Valhelhas. Joaquim foi um de quatro guardas-florestais. Quando se reformou, era o último

Este é o oitavo de nove capítulos do especial "Serra da Estrela, 29 mil hectares depois" sobre os incêndios que consumiram perto de 25% do Parque Natural da Serra da Estrela.


Entre 6 e 13 de agosto, as chamas rondaram Valhelhas, no município da Guarda; em alguns momentos, estiveram próximas, mas nunca demasiado perto. Plantada no meio do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), a aldeia estava protegida das múltiplas frentes de fogo que lavravam; nem por acaso, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) montara na localidade, com cerca de 500 habitantes, o posto de comando diretor de combate aos fogos.

Perdidos já cerca de 16 mil hectares, a maioria dos quais pertencentes ao PNSE, o incêndio na Serra da Estrela foi dado como controlado no final de dia 13, uma sexta-feira. Passado pouco mais de 48 horas, porém, houve múltiplos reacendimentos. E aí Valhelhas já não escapou incólume.

“Comentámos entre nós que desta vez tínhamos passado pelos pingos da chuva. Infelizmente, na segunda-feira [15 de agosto], formou-se aqui uma tempestade de fogo, uma coisa surreal e foi o caos total”, conta Hélder Saraiva, presidente da junta de freguesia, à Renascença.


Quem vive na Serra da Estrela, aponta Hélder Saraiva, vai necessitar de “um apoio forte do poder central”. Foto: Maria Costa Lopes/RR
Quem vive na Serra da Estrela, aponta Hélder Saraiva, vai necessitar de “um apoio forte do poder central”. Foto: Maria Costa Lopes/RR

No dia 15 de agosto, estavam na praia fluvial e parque de campismo da aldeia “mais de 1500 pessoas”; o posto da ANEPC começara a ser desmontado no dia anterior, “uma situação que nos deixou particularmente descansados, pensávamos que o fogo estava dado como controlado”, recorda o autarca.

Em cerca de uma hora, resultado de um reacendimento, uma tempestade de fogo subjugou a aldeia; dezenas de pessoas foram retiradas para localidades vizinhas. A prioridade foi “salvar vidas”. E os estragos a contabilizar agora são muitos. “Terrenos agrícolas, casas secundárias… um rebanho que foi dizimado pelas chamas.”

Quem vive na Serra da Estrela, aponta Hélder Saraiva, vai necessitar de “um apoio forte do poder central”. “Nós precisamos muito, muito de ajuda. Vai demorar bastante tempo em questões de recuperação [do turismo e agricultura].”

A conversa com o autarca decorre ao lado da antiga casa do guarda-florestal, instalada num dos pontos mais elevados da localidade. Em poucos dias, a paisagem mudou drasticamente, nota. O que sobra agora é “um autêntico cinzeiro”. “A cinza permanece, o negro permanece, enquanto anteriormente poderiam ver uma mancha verde, um autêntico pulmão.”


Joaquim Antunes foi guarda-florestal, em Valhelhas, durante 27 anos. Foto: Maria Costa Lopes/RR
Joaquim Antunes foi guarda-florestal, em Valhelhas, durante 27 anos. Foto: Maria Costa Lopes/RR

Quem olha para a serra?

Joaquim Antunes foi guarda-florestal, em Valhelhas, durante 27 anos. E recorda-se de um tempo em que existiam, só no vale que contempla, mais três casas de guarda, mais três colegas de profissão, que calcorreavam e vigiavam a Serra da Estrela, dia-sim, dia-sim. “Quando viam um foco de fumo, deslocavam-se logo ao local e chamavam o socorro. Agora não há ninguém, a não ser os sapadores.”

Em 2014, ano em que se reformou, Joaquim era já o último naquele lugar. “Já não havia ninguém.” E ninguém, no entretanto, o veio substituir. “Hoje já não há ninguém a vigiar como antigamente”, queixa-se à Renascença.

Porquê? Em 2006, o primeiro Governo de José Sócrates extinguiu o Corpo Nacional da Guarda Florestal, por questões de “racionalidade e eficiência económica”, e passou a integrar estes profissionais na Guarda Nacional Republicana (GNR). “Na GNR, quem é que anda para lá a fazer vigilância nas matas? É de carro. Passar para aqui e para além. Agora vigilâncias no terreno nada”, aponta.

As rondas no terreno acabaram. Para trabalhar, Joaquim teve de começar a apresentar-se no posto da GNR de Manteigas. “Andávamos para aí a fazer voltas, para autuar. Mas a vigilância nada.”

O homem de 68 anos ostenta na cabeça, de forma orgulhosa, um boné do seu antigo ofício. É notório que gosta de falar do que foi em tempos. E que não perdeu o hábito de ver as veredas da serra como o seu escritório. Por isso mesmo, custa-lhe falar do combate ao incêndio que varreu a aldeia.

“Os bombeiros [vindos de fora] andavam para aí desorientados. Na noite de segunda, tive de ir a Belmonte com alguns pôr gasolina, por duas vezes, porque eles não sabiam o caminho para lá”, conta.

Pousada no topo de uma colina, a casa do guarda-florestal – onde Joaquim ainda mora, juntamente com a esposa –, não ardeu por pouco. Sozinho, assoberbado, colocou “as bilhas do gás dentro do tanque” e foi obrigado a fugir. “Estava um grande calor, a gente derretia.”

Uma pequena construção que servia de arrumo da casa foi destruída, o telhado abateu; entre outras coisas, uma motorizada antiga, que Joaquim utilizava para fazer as suas rondas, foi tomada pelas chamas. “Aprende-se é no terreno. Uma secretária é muito diferente do terreno”, sentencia.


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