João de Oliveira Janeiro

A história do português que "espiou" para Bielsa

06 fev, 2019 - 11:45 • Eduardo Soares da Silva

Marcelo Bielsa é um treinador de culto, minucioso e controverso, que merece a admiração de nomes como Pep Guardiola. Recentemente, foi acusado de espionagem a um adversário, em Inglaterra. A Renascença esteve à conversa com João de Oliveira Janeiro, um português que fez parte da equipa de observação de “El Loco” na temporada 2011/12, no Atlético Bilbau e que tirou um raio-X ao treinador argentino.
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Marcelo Bielsa é um dos treinadores mais peculiares do mundo, quer pela sua personalidade quer pela estratégia de jogo e a forma como marca os jogadores e colaboradores que trabalham com ele. João de Oliveira Janeiro, hoje treinador, de 37 anos, começou a sua carreira no mundo do futebol na posição de analista de Bielsa, no Atlético de Bilbau, em 2011/12.

O português, de forma espontânea e curiosa, recorreu aos meios tradicionais para oferecer os seus serviços de análise ao técnico argentino. “Criei a minha própria oportunidade", conta à Renascença: "Enviei uma carta para o centro de treinos de Lezama, ao cuidado do 'mister' Marcelo Bielsa, a oferecer os meus serviços de análise a adversários e ele respondeu-me por e-mail, estava interessado".

Os diálogos com Bielsa foram curtos e o contacto era quase sempre feito através do adjunto, Diego Reyes.

“Troquei muita correspondência com o adjunto e aceitaram-me. Foi numa altura em que o Bilbau chegou à final da Liga Europa e até apanhou o Sporting nas meias-finais. Analisava vários adversários do clube e até outras equipas que lhes interessavam de outros campeonatos, como o Inter de Milão”, explica.

"Planillas” com mais de 100 parâmetros de análise

Bielsa é um treinador especial, que dá atenção ao detalhe como ninguém. João Janeiro explica o trabalho “cansativo” e “detalhado” que era pedido pelo argentino.

“Fui algumas vezes a Bilbau, mas com a tecnologia que existe hoje trabalhava em Portugal. Era muito trabalhoso, porque ele queria tudo ao pormenor. Fazíamos aquilo que ele chamava de ‘planillas’, que eram folhas e folhas de Excel, com todas as informações sobre todos os adversários”, explica o técnico português.

E que tipo de informação é que Bielsa pretendia? À Renascença, João Janeiro revela algumas das "planillas" que produziu a pedido do treinador.

“Se fossemos jogar contra o Atlético, ele queria saber quantas vezes a equipa jogava num determinado sistema, com que jogadores, qual a posição deles, se ele mudava muito os jogadores, entre muitos outros critérios", revela.

Apesar da enorme quantidade de informação, Janeiro reconhece que Bielsa estudava a fundo tudo o que era recolhido pela equipa de observação: “Ele ligava imenso aos jogadores, ao duelo um para um. Pegava nas informações que nós lhe dávamos, filtrava o que era relevante e passava aos seus jogadores".

"Era muita informação numérica e escrita. Quantos jogos cada jogador fez em cada posição, percentagem de passes acertados e errados para a esquerda e para a direita. Eram mais de 100 parâmetros. A nossa função era essa, saber absolutamente tudo sobre os 30 jogadores de cada equipa. Só não sabíamos o tamanho que os jogadores calçavam”, brinca.

O controverso caso da espionagem no Leeds

O treinador, hoje ao serviço do Leeds United, do segundo escalão inglês, voltou a causar controvérsia quando um elemento da sua equipa técnica foi apanhado a espiar o treino da equipa do Derby County em véspera de duelo entre as duas equipas.

O tema foi muito discutido em Inglaterra e Bielsa confessou tudo numa conferência de imprensa que durou cerca de 90 minutos, na qual assumiu responsabilidades pela espionagem, admitiu observar os treinos de todas as equipas do “Championship” e deu uma verdadeira lição de observação de adversários, com o objetivo de provar que não ganhava qualquer vantagem apenas por observar os treinos dos adversários.

Este foi um dos momentos da "palestra" dada pelo argentino:

“Há muitas opiniões sobre o que fiz, condenaram as minhas ações, dizendo que não era moral nem ético. O que eu fiz não é ilegal. Podem discutir se é bom ou mau, mas não viola a lei, estando ciente de que nem tudo o que é legal é o mais correto. Vou facilitar a investigação e dar todas as informações de que precisam. Observei os treinos de todas as equipa que defrontámos", disse o argentino.

E vantagens, havia? “O que fiz não me dá uma vantagem injusta. Tenho cerca de 20 pessoas a criar volumes de informação. Sei quantos minutos cada jogador de cada equipa jogou, em que posição e os seus movimentos. Dou um exemplo: vamos jogar contra o Stoke e foi mais difícil porque têm treinador novo. Vimos todos os seus 26 jogos ao serviço do Luton Town, da terceira divisão, e todos os possíveis cenários táticos que possam utilizar. Posso não saber falar inglês, mas posso falar-vos das 24 equipas do campeonato aqui e agora", argumentou.

Sem indícios de espionagem em Bilbau

João Oliveira Janeiro confessa que não estava a par de qualquer ato de espionagem no Bilbau, porque trabalhava a partir de Portugal, mas corrobora a opinião prestada por Bielsa na conferência de imprensa.

“Na altura, não sabia de nada, mas não duvido que o tenha feito. Moralmente é errado, mas pior ainda era não admitir. São outras formas de analisar o adversário. Muitos treinadores acreditam naturalmente na sua identidade de jogo, mas a realidade é que as equipas não jogam sozinhas, jogam contra 11 jogadores, portanto, a análise do adversário é muito importante. Ele próprio faz esta análise muito por descargo de consciência. O que ele provavelmente queria descobrir era o onze inicial do Derby, nada mais, para poder passar informação aos seus jogadores", observa, nesta entrevista à Renascença.

O técnico português encara com normalidade a espionagem no mundo do futebol, relaciona-o com o contexto cultural de Bielsa, e dá exemplos de espionagem “disfarçada”, uma prática de “que toda a gente sabe", mas da qual "ninguém quer falar”.

“Na América do Sul, isso é algo muito normal, e por isso é que eles têm muito mais cuidado em proteger as suas sessões de treino, porque é uma prática comum. Toda a gente sabe, mas ninguém fala. Numa Liga dos Campeões, as equipas vão jogar fora e alguém acha que no treino de adaptação ao relvado não está ninguém do clube adversário a ver? O estádio é deles, por isso mal está o treinador que pense em preparar a tática para esse jogo na véspera do jogo", sublinha.

Um treinador “diferente, comprometido e privilegiado”

O português traçou ainda as principais características da “persona” de Marcelo Bielsa, um homem tímido em frente às câmaras mas extremamente dedicado ao trabalho.

“É um homem diferente. Já trabalhei com muitos treinadores em Portugal e no estrangeiro, mas ele liga ao detalhe e ao indivíduo como ninguém. Dá informações individuais a todos os jogadores da equipa, sem descartar, como é óbvio, as palestras coletivas", descreve.

Janeiro dá um exepmplo para sustentar a impressão que tem de Bielsa: "Ele dava um ‘briefing’ ao lateral-esquerdo em relação ao extremo direito da outra equipa, com todos os detalhes. Levava ao extremo nesse sentido e exigia muito dos jogadores. Mas é um homem com um coração de ouro, com muita paciência para a equipa e para os jogadores. Publicamente nunca o vão ver chateado com o erro de um jogador, ele não é assim".

Futebol e Bielsa unem-se numa simbiose tal que, sempre que assina por um clube, o técnico argentino pede para viver no centro de treinos. “É um privilegiado. Vem de uma família rica e foi criado a pensar livremente, pode arriscar, não está dependente do aspeto financeiro para ter trabalho. Quando vai para os clubes fica a viver no centro de estágios, logo aí vê-se o seu compromisso. Vive o clube 24 horas por dia", anota.

Na opinião de João Janeiro, trabalhar com Bielsa é o “topo da carreira” para alguém no ramo da observação, porque "não era trabalho que ia para o lixo". "Ele ia efetivamente estudar tudo o que nós lhe enviássemos, dava essa atenção", destaca.

O fim da linha para Janeiro no Bilbau de Bielsa não aconteceu da forma desejada. O português mudou de funções e aventurou-se como adjunto do Belenenses, na II Liga, na época de regresso ao primeiro escalão.

“Houve um impasse contratual com o Bilbau. Entretanto, surgiu a possibilidade de ir para o Basileia e, quando já lá estava, o Van der Gaag convidou-me para ser seu adjunto no Belenenses e não hesitei. Nunca mais falei com o Marcelo nem com o Diego Reyes", revela o treinador português.

Apesar de terem seguido caminhos diferentes, o nome do português ficará para sempre marcado numa das épocas mais importantes da história recente do clube basco. O Atlético Bilbau chegou à final da Liga Europa, onde caiu para o rival Atlético de Madrid.

Já Marcelo Bielsa, hoje com 63 anos, continua a deixar a sua imagem de marca por onde passa. Depois do Bilbau, o argentino representou o Marselha e o Lille, antes de chegar ao Leeds United no início desta temporada, onde luta pela subida à Premier League.

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