Carlos esteve um mês sem folgas

Quando o país assistia às filas de ambulâncias à porta do Santa Maria, Carlos Neto coordenava uma equipa de 230 enfermeiros na urgência. Um fenómeno "único" na carreira, com "uma sobrecarga de trabalho incrível”. Durante o mês, Carlos não teve folgas e trabalhou 10 a 12 horas por dia.

Oiça aqui o essencial da entrevista a Carlos Neto, enfermeiro coordenador no Hospital de Santa Maria

O enfermeiro Carlos Neto é o responsável por coordenar uma equipa de 230 pessoas no serviço de urgência do Hospital de Santa Maria, quer na área Covid-19 quer na área não Covid.

Quando o país assistia às imagens de longas filas de ambulâncias à porta deste hospital, era a Carlos que cabia a tarefa de coordenar a equipa de enfermagem, para garantir que o hospital conseguia dar resposta às necessidades.

O pico de janeiro foi de uma enorme exigência para o enfermeiro, que revela à Renascença que não teve uma única folga durante um mês - com uma carga diária de 10 a 12 horas.

“Graças a Deus que já passou pelo menos aquela grande crise”, desabafa.

Carlos fala de um “fenómeno único”, como nunca tinha assistido em toda a sua carreira.

O hospital chegou a ter perto de 70 a 80 doentes internados dentro do “covidário”, onde a dotação inicial era de 26 e entretanto passou a 44 camas. Segundo Carlos, as ambulâncias que se acumulavam cá fora tinham os doentes que poderiam esperar um pouco para serem atendidos.

Foram dias de “uma sobrecarga de trabalho incrível”, muita pressão e muito stress, só ultrapassáveis com o apoio da família, a mulher e o filho de 25 anos, que lhe deram serenidade nestes dias mais difíceis. “Considero-me um pouco sortudo por partilhar com os meus familiares mais diretos e eles perceberem perfeitamente a função que eu tenho”, revela.

Outro dos grandes desafios destes últimos meses, para o enfermeiro, foi a gestão do lado psicológico da equipa no que diz respeito a lidar com um grande aumento da mortalidade. Segundo o enfermeiro, a equipa de enfermagem do Santa Maria é muito jovem e “foi preciso uma grande proximidade, na tentativa de identificar algumas situações e tentar colmatar com algum apoio, com uma mudança de postos de trabalho, com o alívio de alguma função ou tarefa”.

“Felizmente, não houve nenhum caso que possa dizer que foi de rutura, embora pudessem sentir algum desânimo”, afirma Carlos.

O primeiro ano de pandemia de Covid-19 foi, para o enfermeiro, “um ano de sacrifício, de dedicação, que poderá servir de exemplo para as gerações futuras”.