António assistiu a um “apocalipse"

No quarto ano de Medicina Interna, António Novais viu a sua vida revolucionada pela pandemia. E garante à Renascença que assistiu a um verdadeiro "apocalipse" no hospital de Tondela, em Viseu.

Oiça aqui o essencial da entrevista a António Novais, interno de Medicina Interna no Centro Hospitalar de Tondela-Viseu

Foi apanhado pela pandemia quando estava no quarto ano da especialidade - Medicina Interna - no hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, mas foi em Viseu que testemunhou um verdadeiro “apocalipse”, como descreve.

António Novais é médico interno no Centro Hospitalar de Tondela-Viseu. Já passou pelo internamento Covid-19, pela urgência e pela Unidade de Cuidados Intensivos, onde esteve sete meses.

Em entrevista à Renascença, descreve o “inferno” que se viveu no hospital nos últimos meses.

No fim de janeiro, a taxa de ocupação do Centro Hospitalar de Tondela-Viseu chegou mesmo a atingir os 100%, numa altura em que havia cerca de 150 profissionais infetados ou em isolamento. Foi necessário abrir um hospital de campanha para dar resposta.

António recorda essas semanas como um cenário de guerra. Lembra a falta de espaço na urgência para macas, o que obrigava os médicos a fazer avaliações dentro das ambulâncias; a botijas de oxigénio a acabar; a luz a falhar porque o hospital não tinha capacidade para tantos aparelhos ligados ao mesmo tempo.

“Nunca na minha vida imaginei viver isto. Parece um sonho que não acaba. Ou um pesadelo, aliás”.

António descreve também o peso que os profissionais de saúde levam diariamente para casa, ao testemunhar casos de doentes que morrem sozinhos, e também a ansiedade causada pela distância da família.

“Fala-se cada vez mais do burnout. Se isto acabar, vamos começar a ter cada vez mais profissionais de saúde a irem para casa. Porque tira o sono”, diz.

A formação, em plena pandemia, foi particularmente intensiva para este médico. “Acabou por ser um boom de conhecimento porque estava a começar nos intensivos, portanto era todo um novo mundo com o qual não tinha contacto. Foi muito bom trabalhar com a equipa dos intensivos porque deu para aprender imenso”, a nível de técnicas e de discussão de casos, explica.

Por outro lado, a formação relacionada com os doentes não Covid-19 saiu prejudicada. “Começámos a ter só Covid. Um doente vem com febre e antes pensávamos em 10 hipóteses de diagnóstico, agora dizemos que é Covid. Só depois é que pensamos nas outras”.

No futuro, António diz querer guardar este ano numa “caixa de pandora” e não mexer mais nela.

“Acho que isto vai trazer stress pós-traumático a muita gente e vai ser um assunto sensível para falar daqui a uns anos”, remata.