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Entrevista

Leonor Teles ficou sem casa quando rodou "Baan", um filme sobre casas e lugares emocionais

29 set, 2023 - 07:30 • Maria João Costa

É um filme sobre a casa como lugar emocional de pertença. “Baan”, que em tailandês quer dizer "casa", é a nova longa-metragem de Leonor Teles. O filme estreia na sessão de encerramento do Doclisboa, a 29 de outubro. A realizadora reconhece que a sua geração enfrenta “dificuldades imensas e aberrantes” para encontrar casa.

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Já não é a primeira vez que Leonor Teles faz um filme sobre a questão da casa. Depois de “Cães que Ladram aos Pássaros” (2019), a realizadora está a lançar “Baan”. O filme, que será estreado na sessão de encerramento do Doclisboa, aborda também a questão da habitação. Rodado durante a pandemia, sofreu várias adaptações.

Em entrevista à Renascença, a realizadora explica que durante a rodagem deste filme sobre a casa, ela própria ficou sem teto. “Só muito recentemente é que consegui arranjar uma casa. Acabei por estar quase um ano e meio sem casa e, ao mesmo tempo, a filmar e a trabalhar no filme”, conta Leonor Teles, para quem o cinema é um lugar de resistência.

A realizadora, que se tornou na mais jovem cineasta portuguesa a receber um Urso de Ouro, em Berlim, tem hoje 31 anos. É critica quanto à insegurança que a sua geração vive. Considera “muito assustador” a instabilidade dos dias de hoje. “Acho que a maior dificuldade é aceitar que tudo isto vai continuar a ser imprevisível e instável”, aponta.

A Leonor Teles vai estrear o filme “Baan” na sessão de encerramento do Doclisboa. É um filme em que o título remete para a ideia de casa, já que é a sua tradução para o tailandês. A questão da habitação tem sido muito debatida nestes últimos tempos em Portugal. É uma questão que a preocupava e que a motivou a fazer este filme?

A procura deste sentido de casa foi mais de um ponto de vista emocional. É mais uma procura interior, de um espaço em que procurei responder a certas questões que são mais do foro emocional. Se calhar não é tanto no sentido prático e pragmático, embora isso também seja importante para que a pessoa emocionalmente esteja bem.

No filme, é mais esta procura por um lugar onde nos sentimos bem e onde se calhar pertencemos. Às vezes, é necessária esta fuga, partir para longe para depois regressarmos e percebermos que, afinal, a nossa casa é mais perto do que aquilo que imaginávamos.

Este é um filme rodado em Lisboa, mas também na Tailândia. Foi gravado durante a pandemia. Que dificuldades e desafios enfrentou na rodagem?

Tivemos vários períodos de rodagem. Inicialmente éramos para filmar em Macau, mas depois o filme foi todo reescrito, porque era impossível filmar em Macau. O filme passou a ser feito em Lisboa, com um pezinho na Tailândia. Portanto, houve assim uma série de coisas que este filme enfrentou.

Foi um processo longo de filmagens?

Estivemos dois anos à espera para poder filmar. Um processo que, se calhar demoraria três anos, acabou por demorar seis anos. Acho que a nível da própria realização do filme, da filmagem e da conclusão do filme foi também, pessoalmente para mim, muito difícil, porque demorou muito tempo e era sempre necessário esperar mais uns meses.

Isso alterou o filme?

Todo esse processo na construção do filme acaba por modificar o próprio filme. O filme teve de evoluir connosco. Aquilo que se calhar era a nossa ideia no ponto de partida, quando comecei a pensar no filme em 2017, não é de todo a ideia que é hoje em 2023, quando o filme estreia.

Mas o filme estreia numa altura em que, de facto, as questões das casas e da habitação tornaram-se diárias no debate político. É uma dificuldade para os jovens como a Leonor Teles, encontrar casa?

Sim. Acho que isto ainda vai mais longe do que isso, porque eu, durante a rodagem do filme fiquei sem casa, e não consegui encontrar outro sítio. Só muito recentemente é que consegui arranjar uma casa. Então acabei por estar quase um ano e meio sem casa e, ao mesmo tempo, estava a filmar e a trabalhar no filme. Então todas essas complicações também estavam muito presentes dentro da minha cabeça.

Estava a viver na pele a falta de casa.

Segue um bocadinho o filme que eu também já tinha feito anteriormente, que era totalmente focado neste nesta questão das casas, do processo de gentrificação, da questão dos senhorios e da inflação, que é o “Cães que Ladram aos Pássaros”.

Mas neste “Baan” esse é um assunto que existe e que é debatido, mas que, se calhar não está tão conscientemente. Mas eram questões que eu estava a vivar. Era inevitável que isso também fosse um processo abordado no filme. Porque se nós não temos um sítio onde estar, onde viver, que devia ser um direito básico de termos um teto, como é que as pessoas vão estar bem?

Mas o filme “Baan” deu-lhe um novo significado de casa? Não é só o teto? É também um lugar de pertença?

Sim! Tanto que o filme começou por esta questão da procura por um lugar emocional. Pode ser um país, pode ser uma cidade, pode ser um espaço mental. Mas obviamente que passa também por ser um lugar físico, uma casa da habitação, um lar.

Sinto que a minha geração, em Lisboa, está a enfrentar dificuldades imensas e aberrantes. É muito assustador sentirmos que o futuro continua assim. Não há um lugar de estabilidade. Eu acho que isso é a maior dificuldade. É aceitar que tudo isto vai continuar a ser imprevisível e instável.

Nesse sentido, o cinema continua a ser um lugar de resistência e de resiliência?

Sem dúvida! Acho que continuar a fazer cinema é o que me permite resistir e viver.

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