11 jul, 2023 - 07:00 • João Malheiro
A curta-metragem "Ice Merchants" correu o mundo e colocou em foco a indústria de animação portuguesa, culminando numa nomeação para os Óscares da Academia de Cinema norte-americana.
No centro deste furacão mediático que capturou a imaginação de muitos espectadores, quer em Portugal quer no exterior, esteve João Gonzalez. O realizador português conquistou Cannes e ficou com um convite para pertencer à Academia norte-americana. Agora, no final da euforia, regressa à casa de partida.
A 31.ª edição do Curtas Vila do Conde, que arrancou este fim de semana, conta com um toque especial do artista. Em conversa com a Renascença, João Gonzalez revela que "desde o ano passado" havia interesse em haver uma colaboração com o festival.
"É muito simbólico para mim, porque não só a minha família é de Vila do Conde, este foi o local em que comecei a ver curtas-metragens", refere.
O realizador português acrescenta que esta colaboração acaba por ser "um sentimento de círculo fechado", até porque, em anos anteriores, já tinha estado, enquanto artista concorrente, por trabalhos anteriores.
Agora, "é completamente diferente", assumindo o desafio de contribuir para a programação de um dos festivais de Cinema mais importantes do norte do país.
O maior destaque vai para a exposição "Ice Merchants: Do Sub-Consciente ao Ecrã", que está aberta ao público até domingo, dia 16, no Auditório Municipal de Vila do Conde.
João Gonzalez indica que a exibição "explora as várias fases da produção" da curta-metragem.
"Desde até de uma fase de produção em que eu nem sabia que ia dar neste filme", aponta.
A Renascença marcou presença na apresentação oficial da exposição, em que o realizador português "abriu a cortina" à audiência, revelando esboços das personagens de Ice Merchants, testes visuais e os aspetos mais técnicos da curta-metragem.
No fim da exposição, há uma sala que está a reproduzir, em constante repetição, "Ice Merchants", para quem ainda não tenha tido oportunidade de ver, ou para quem quer rever o filme, já depois de ter adquirido uma perspetiva sobre como foi feito.
A Renascença também esteve presente numa sessão "Carte Blanche", em que João Gonzalez escolheu curtas-metragens de animação autoral para mostrar ao público do Curtas Vila do Conde.
O realizador disse que a sessão incluiu muitos filmes que "foram as maiores motivações" para seguir o ramo da animação.
"Estão lá dois ou três filmes que me marcaram e ajudaram-me a tomar essa decisão", acrescenta.
A sessão viu todo o tipo de técnicas, passando pelo desenho 2D tradicional, stop-motion e até uma curta-metragem mais experimental, que inclui o uso de código de inteligência artificial.
João Gonzalez quis escolher curtas-metragens "que sabia que de outra forma não seriam vistas", mas admite que houve muitas outras que também podiam ter sido escolhidas, apesar de terem ficado de fora da seleção final.
Foram ainda exibidas as três curtas-metragens do artista: "The Voyager", "Nestor" e, claro, "Ice Merchants".
À Renascença, o realizador português considera que cinema animado "é complexo, mas não é tão inatingível como imaginamos".
"Quando comecei, achei que nunca ia conseguir. Mas é algo que, no fundo, envolve prática. Não deixa é de ser consumidor de tempo", aponta.
Por exemplo, o artista conta que houve planos de "Ice Merchants" que demoraram um dia e outros que demoraram duas semanas.
"Depende completamente da complexidade do plano, do ângulo, é difícil. É complicado para artistas estimar um orçamento. Perguntam quanto cobramos por quatro minutos e nós não sabemos, porque quatro minutos podem durar um minuto num estilo diferente", explicita.
João Gonzalez revela também que está numa fase de "pré pré-produção" de uma nova curta-metragem.
Para se preparar, o artista passará um mês num antigo mosteiro, em França, para conceber a narrativa e os desenhos.
"Espero chegar a casa em novembro com uma ideia mais concisa e produção avançada do que será esse filme", diz.