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Entrevista Renascença

“A inflação é a pandemia deste ano”, diz empresário Luís Montez

25 nov, 2022 - 23:10 • Maria João Costa

Arranca hoje o Festival Super Bock em Stock. São dois dias de concertos, com 50 artistas a passarem pela Avenida da Liberdade. Na Renascença, o organizador Luís Montez faz os destaques do cartaz, explica que fizeram uma ginástica para não aumentar o preço dos bilhetes, mas lamenta as condições financeiras que os portugueses enfrentam.

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Compara o Festival SuperBock em Stock a uma “mesa de tapas”. O empresário e organizador do festival de música que decorre sexta e sábado na Avenida da Liberdade, em Lisboa considera que a “inflação é a pandemia deste ano”.

Em entrevista à Renascença, questionado sobre o negócio da promoção de espetáculos, Luís Montez reconhece que “as coisas não estão fáceis, por causa da inflação”. Embora tenham feito uma ginástica financeira, e não tenham aumentado o preço dos bilhetes, o empresário admite que as vendas aumentaram só com o final do mês.

Quanto ao cartaz do evento que anima estas noites de Lisboa, é recheado de novidades. Montez explica a aposta nos artistas “enquanto ainda são bebés”, deixa as suas sugestões e aconselha o público a fazer um roteiro do festival, entrar numa sala, ouvir meia dúzia de músicas e seguir em frente.

Arranca esta sexta-feira o Super Bock em Stock. Que cartaz marca o primeiro dia do festival?

O primeiro dia vai ter um ponto alto. Tenho grande expetativa. Tem dois grandes concertos, um da Ana Moura, no Capitólio, que vai mostrar o seu novo álbum, a nova sonoridade de Ana Moura e os brasileiros Bala Desejo, que acabaram de ganhar o Grammy Latino para o melhor álbum de língua portuguesa e, portanto, expectativa muito alta.

O festival caracteriza-se por oferecer ao público sobretudo novidades musicais

É um festival de novidades, de artistas novos, de discos novos. Há uma cantora solo de Nova Iorque, a Danielle Ponder que vai ser gigante, não tenho a menor dúvida. Devo lembrar que trouxe já o Benjamin Clementine, Mickael Kiwanuka e Janelle Monáe. É um festival em que os apanhamos ainda bebés, para depois seguirem em frente.

Também apostam em música portuguesa?

Temos uma boa componente de música portuguesa. O David Bruno vai contar com convidados como a Gisela João, o Rui Reininho e o Mike El Nite no concerto no Coliseu. Isto são 11 salas desde o Coliseu, o cinema São Jorge, a estação de comboios do Rossio, a Casa do Alentejo, a Sociedade de Geografia, a garagem da EPAL.

Alguns são palcos pouco habituais ou convencionais?

Até temos um com rodas, que é o autocarro Super Bock Bus, em que temos uma banda lá dentro, a Gira. É um coletivo de música brasileira só com mulheres que vão acompanhar aquelas pessoas que já estão cansadas das pernas. Irem da Estação do Rossio até ao São Jorge já poderá cansar e o autocarro está sempre a fazer piscinas para cima e para baixo. É uma experiência gira andar de autocarro com uma banda ao vivo lá dentro.

Este é justamente um festival de deambulação, ou seja, quem vai assistir a um concerto pode entrar a meio, sair, ir a outro. Pode circular?

Exatamente. Para já, a ideia é música nova, ver o que há de novo, ser surpreendido. O melhor é durante o dia irem ao site e ouvirem as músicas novas, fazerem o seu roteiro, terem o cuidado de serem salas próximas, porque senão ficam cansados e ouvirem quatro, cinco músicas em cada sítio e irem ao lado ao outro.

É um festival em que não devemos ter o receio de abandonar o concerto a meio?

Experimentamos. Já conhecemos. Vamos para a frente! A ideia é trocar o bilhete no Coliseu por uma pulseira que dá acesso a todas as salas, consoante a capacidade. Se queremos muito ver um artista, convém ir mais cedo, por senão não temos lugar. A ideia é circular e experimentar desde rock, a música brasileira, a música portuguesa, à pop, a eletrónica, música de Cabo Verde e até da Nigéria temos música.

Cartaz recheado.

São cerca de 50 artistas, em dois dias, na Avenida da Liberdade que está linda. Comer umas castanhas pelo caminho e provar música nova.

Como é que esse trabalho de antecipar tendências? Há grande trabalho de pesquisa? Como é que se vão escolhendo essas futuras estrelas?

Hoje, felizmente, temos muito acesso a muita informação e muita música. Temos logo o número de seguidores, de quantas pessoas ouvem mensalmente um artista e de repente vemos um artista novo a aparecer e com um crescimento rápido, algum motivo será. Por outro lado, também temos as próprias editoras a quererem mostrar os novos artistas e que terem palco, porque aqui tem promoção, têm som.

Facilita para os mais novos?

Por exemplo uma artista nova cabo verdiana, a Kady, que é afilhada do Dino d'Santiago em termos de padrinho da carreira dela. Ninguém a conhece e, portanto, ter de alugar uma sala, som, luz, promoção, portanto aqui apanha toda esta embalagem do festival para se mostrar. E, claro, ela tem muito talento, senão também não vinha! Acreditamos que ela vai ser gigante. Falei dela, como poderia ter falado de muitos outros.

Enquanto promotor de espetáculos há tantos anos, dá particular satisfação perceber que estas apostas, já de anteriores edições, são estrelas que se vieram a confirmar?

Sim, muitos deles agora são gigantes e há uns que já custam milhões! O que aqui é interessante é uma aposta em artistas, e em princípio, aqueles que são bem formados são leais a quem lhes deu a mão quando eles eram bebés. Quando vem a Portugal, por exemplo o Mickael Kiwanuka, sempre que vier cá, vai-me perguntar se eu quero fazer um concerto. Há uma certa lealdade e vamos acompanhando a carreira deles.

Este negócio da música e dos espetáculos também se faz muito disso, dessas cumplicidades?

Sim, é um investimento. É quase como comprar ações de empresas que achas que vão crescer muito, e depois crescem. É estar atento. Alguns que aqui estão, eu já tive oportunidade de os ver ao vivo em outros festivais lá fora e vejo que são esmagadores. É impressionante! Nunca tinha ouvido falar e de repente surpreendem-me e olha que já vi muitos concertos. Para me surpreender, não é fácil!

Eu sou fã dos Xutos Pontapés, o João Cabeleira tem um novo projeto que se chama Motor e juntou se ao Buddha Guedes, que também é outro grande guitarrista que canta no álbum e vai apresentá-lo aqui. Acho um privilégio podermos ter um novo projeto do guitarrista Xutos e Pontapés, que escolheu o festival para se mostrar, tal como Ana Moura que quer agradar a outro público diferente do lado dela e faz um espetáculo para um público que quer estar atento às novidades. É difícil a escolha, são cerca de 25 artistas por noite, espalhados pela cidade.

Vamos olhar o dia de sábado. O que é que apresentam sábado no cartaz do Super Bock em Stock?

Temos a tal Danielle Ponder. É uma artista em que eu ponho as fichas todas em termos de sonoridade. Para quem não conhece, é tipo Amy Winehouse, tem um vozeirão que é o fim do Mundo. Eu acredito que esta miúda vai ser gigante. Para quem gosta de uma mistura de Adele com Amy Winehouse, é potentíssima. É ver agora porque isto vai crescer muito!

Temos a Céu, uma grande cantora brasileira que lançou o álbum agora, "Um Gosto de Sol", onde ela tem canções desde a Rita Lee, a outros. O Cinema São Jorge vai receber uma grande festa. Há um projeto de novo que são os Desconectados. São músicos que acompanham geralmente o Jorge Palma, malta, que tem muita estrada, já. Fez um projeto de rock que vai acontecer também no São Jorge.

Quem gosta de Hip Hop, temos o Bloco Moche no Capitólio, que tem o Papillon que acabou de lançar um álbum muito bom. Temos o Obonjayar da Nigéria. Atenção, é um artista muito importante. Temos uma francesa que canta inglês Crystal Murray. Eu vi-a no festival Músicas do Mundo, em Sines, e fiquei maravilhado. Tem 20 anos, é incrível.

Da Austrália, no Coliseu, vai fechar a noite sábado, Miami Horror. É uma mistura de New Order com Tame Impala. São os australianos dançáveis. Vai ser a festa! Temos com uma miúda, a Irma que é um talento nacional. Eu não vou perder! É na sala da Casa do Alentejo. E um artista que me surpreendeu muito na área do rock, o W.H.Lung, é um inglês que ao vivo é tipo Mick Jagger!

Não há fronteiras musicais no Super Bock em Stock? É para um público muito abrangente. Pode-se gostar mais de um estilo de música ou de outro? É um dos DNA deste festival?

Sim! É quase como uma mesa tapas! Prova se um bocadinho de cada. Eu não aconselho ninguém ver um concerto inteiro. ouve 3 ou 4 músicas e circula para o lado, porque a 100 metros há outra sala! Assistir a um bocadinho tudo. O conselho é irem ao site ouvirem, fazerem o seu próprio roteiro, e serem fiéis, e no roteiro ter o cuidado de fazerem um caminho, está lá o mapa, que não seja muito longe!

Se está ali na estação do Rossio, pode ir à Casa do Alentejo, da Casa do Alentejo à Sociedade de Geografia, vai ao Coliseu, vai a garagem da EPAL, vai ao São Jorge, depois vai ali ao lado, ao Capitólio. Ser uma coisa próxima. Ainda por cima a Avenida está com as luzes de Natal. Está bonita! Não vai chover, e, portanto, é bom!

Qual é que tem sido a adesão do público?

Está melhor do que o ano passado. Claro, temos a concorrência do futebol que nos calhou em cima do festival, mas felizmente eu espero que Portugal faça uma boa performance e as pessoas queiram ir para a Avenida comemorar!

No aspeto económico de toda esta atividade, depois da pandemia e da paragem que implicou, como é que está neste momento a atividade económica em termos de espetáculos?

Para ser sincero, as coisas não estão fáceis por causa da inflação. Isto não é um bem de primeira necessidade e, portanto, se sobrar, vamos! Nós sentimos agora que estamos no fim do mês, ontem as vendas voltaram a disparar. Porquê? Porque as pessoas acabaram de receber. A inflação é ...

O principal inimigo?

A inflação é a pandemia deste ano!

Em relação ao público português, nos últimos anos passou a comprar menos discos, mas a preferir ir a um concerto. O mundo do consumo da música tem sofrido alterações profundas?

Não, acho que nunca se consumiu tanta música como agora.

Música ao vivo ou música em plataformas?

As duas. As plataformas chegam a todo o lado e acabaram os discos piratas. Basicamente, as pessoas não estão para sujeitar a isso, e assinam com uma plataforma Spotify ou outra para ter a sua música. Depois querem comprovar ao vivo, e estar com os amigos. A música ao vivo é insubstituível e as pessoas precisam disto também para conviver e para estar felizes.

Há muito talento, há muita oferta e não se consegue é ir a todas! Eu acredito muito nas emoções. As pessoas precisam também de ser felizes, depois estarem dois anos fechadas, querem vir para a rua, mas obviamente, tem de haver condições financeiras para tudo.

Nós não aumentamos o preço dos bilhetes. Estamos aqui a fazer uma ginástica, porque isto para nós também é uma boa forma de investir no futuro, porque estes artistas vão nos dar, espero, acredito, dar muito rendimento no futuro, e que se irão lembrar de nós que os ajudámos quando eles eram bebés. Portanto, vamos por aí!

Em relação aos artistas portugueses, há uma grande explosão de novos nomes na música portuguesa. Há uma grande vitalidade. Há um novo estatuto do artista. Isso tem complicado a forma de contratação destes novos artistas, ou não?

Não. A música portuguesa faz parte da música latina. A música latina é neste momento, o estilo número um no mundo. Ultrapassou o Hip-Hop e agora toda a gente quer a música latina. Aliás, os cachés dos artistas latinos subiram muito. O que acontece, o artista português está cá, é mais fácil de promover e de trabalhar.

O nosso problema é que Portugal é muito pequeno e, portanto, rapidamente repetimos os mesmos artistas e ao fim de darem 50 a 70 concertos durante o ano, para o ano seguinte não vão repetir os mesmos artistas. Portanto, se tivermos a possibilidade de um dia fazermos uma tour com artistas portugueses por Angola, pelo Brasil, Moçambique, por Cabo Verde, fazer duas, três datas em cada país, já ajuda.

Vejo aí, a semente de um novo festival com um carácter lusófono?

Não. É um movimento que está a criar lusófono, assim como, por exemplo, a música da Nigéria invadiu os Estados Unidos. Eles não entendem o que é que os nigerianos dizem! Nós temos bons ritmos em Cabo Verde, em Angola, no Brasil e portanto, agora que a música latina está em alta, se houver um movimento de apoio e de promoção, uma coisa estruturada com as editoras, com tudo, e eu acho que isto é um movimento imparável, porque de facto são estilos!

O fado é lindo em qualquer parte do mundo! Eu vejo aqui nas casas de fado alemães e japoneses a chorarem e não percebem nada do que estão a ouvir. São estilos que as pessoas estão ávidas. O ser humano não pode comer lagosta todos os dias, e, portanto, tem de provar um bocadinho tudo. É um bocado a essência deste festival Super Bock em Stock. É para as pessoas serem surpreendidas

Lisboa tem esta capacidade de absorver música brasileira, música africana e a portuguesa, como é óbvio, e, portanto, é muito potente. Temos estúdios bons para gravar música, e os hotéis para virem cá os artistas africanos e brasileiros, até são económicos e, portanto, há aqui um movimento que tem de crescer da música lusófona. Eu acredito fortemente nisso.

Têm estrangeiros a virem de fora para o festival Super Bock em Stock? ou têm estrangeiros que estejam cá a viver e que vão ao festival?

A maior parte dos estrangeiros são os que vivem cá. Temos por exemplo, uma banda da Argentina, Isla de Caras, que vai tocar na Casa do Alentejo. Há estudantes que estão cá da Argentina, têm contactado o escritório, querem estar com eles, porque eles lá são muito grandes. Os espanhóis, os brasileiros com uma comunidade aqui gigante, muitos ingleses.

É uma maneira de se encontrarem também entre eles nos concertos, e ficam surpreendidos como artistas como estes australianos Miami Horror, que vão fechar o Coliseu no sábado, eles ainda são pequenos na Austrália. Como é que vêm aqui para Lisboa? Eles ficam espantados com a nossa capacidade de estar em cima do que está a acontecer agora.

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