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Entrevista Renascença

“Requinte e sofisticação”, as gravações de Amália no Japão editadas em disco

22 jul, 2022 - 20:40 • Maria João Costa

Chega hoje ao mercado o disco “Amália no Japão”. O álbum reúne gravações feitas ao vivo em 1970 e inclui o fado “É Noite na Mouraria”, escrito pela irmã Celeste Rodrigues e que nunca foi gravado em estúdio. À Renascença, Frederico Santiago que tratou o espólio fala de paixão dos japoneses por Amália.

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É uma paixão a que há anos leva Frederico Santiago a prosseguir nesta missão de tratar e editar o espólio de Amália Rodrigues. Em entrevista à Renascença, este especialista em música erudita confessa que há ainda muito material inédito da fadista.

No dia em que sai o novo disco que reúne as gravações de Amália no Japão, Frederico Santiago fala da “sofisticação” e do “requinte” da edição agora lançada. Muito se deve à qualidade das bobines então usadas pela editora japonesa que registou os concertos de Amália Rodrigues no Japão.

Frederico Santiago revela que Amália cantou mais do que fado no Japão, mas que fazia “um altar para que o Fado fosse uma coisa muito especial nesses recitais”. “Vedeta internacional” como lhe chama Frederico Santiago, Amália chegou a gravar um genérico para uma novela japonesa. Mas esse tema ficou de fora do disco.

Foi uma certa sofisticação quieta que Amália tinha nos espetáculos e que tão bem encaixa na maneira de ser dos japoneses

Este disco reúne as gravações da Amália Rodrigues no Japão. Podemos dizer que os japoneses se apaixonaram pela voz de Amália?

Este disco marca a estreia dela no Japão. Ela estreou-se na Expo de Osaka, mas depois um empresário japonês que já desde o final dos anos 50 andava "atrás" da Amália para conseguir que ela fosse ao Japão, aproveitou essa ida dela à Expo para a agenciar e convidar para fazer dois recitais em dois grandes teatros de Tóquio.

Isso aconteceu em que ano?

Em 1970, mas havia convites há mais uma década para Amália lá ir. Isto marca o início do amor enorme do público japonês por Amália. O público japonês, como se sabe, até por aqueles grandes eventos que sempre foram tendo nos anos 50, em que se convidavam grandes artistas para lá ir à NHK, vê nela uma das artistas mais amadas do mundo ocidental.

Como se explica esse impacto que a Amália teve no Japão?

A Amália realmente foi um amor muito, muito especial, talvez pela suavidade e pela distinção. Eu não quero tanto ligar à melancolia, porque isso é uma coisa que a liga logo ao Fado e, acho que não foi propriamente isso, também foi, mas não foi só o que fascinou os japoneses. Foi uma certa sofisticação quieta que Amália tinha nos espetáculos e que tão bem encaixa na maneira de ser dos japoneses.

Este disco tem vários fados, mas tem também outras canções. No Japão, a Amália não cantou só fado?

A Amália faz aqui um exemplo do que fazia um bocado no mundo todo. A Amália cantava muitas vezes num recital, um ou dois fados no máximo, e ela, com muita piada, disse várias vezes que fazia muito mais pelo Fado, fazendo dessa forma, do que ir fazer um recital só de fados, onde um público que não percebe o poema se sentiria muito perdido.

Ao aproveitar todo o seu repertório, que incluía canções francesas, italianas, espanholas, brasileiras mostrava a sua proeza vocal e a sua maneira tão distinta de cantar e, depois lá no meio, então introduzia o Fado, e quase fazia um altar para que o Fado fosse uma coisa muito especial nesses recitais. Acho que ela conseguiu realmente tornar o Fado numa disciplina conhecida internacionalmente, assim, não indo fazer recitais só de Fado, o que se tornaria um bocadinho etnológico.

A Amália acabou por passar a ir várias vezes ao Japão?

Sim, ela depois volta variadíssimos anos. Ela cantou no Japão até quase ao final da carreira. Amália cantou a última vez em 1994, e no ano anterior, fez ainda uma turné no Japão. Esse contacto em palco mostra como o Japão ficou completamente rendido a Amália. Começaram a fazer edições, na altura em LP, mais tarde, o primeiro CD que a Amália tem é no Japão. Depois o Laserdisc que era um antecedente do DVD, que era um disco grande, como um LP, mas já era digital e com imagem, a Amália também teve dois editados no Japão. Teve imensas cassetes vídeo, aquelas coisas todas.

Há um mercado muito grande no Japão. Nas casas que vendiam discos, no meio da música do mundo, depois havia uma parte que era só a Amália. Ela não era mais uma do mundo da World Music, como se diz agora. Era uma vedeta em si e, portanto, teve um contacto muito grande com o Japão.

Sendo um país, uma cultura e uma língua tão diferente, como é que se explica esta paixão dos japoneses pela Amália. Ela abriu portas para outros fadistas?

A música não tem fronteiras. A música quando é feita desta forma, acho que é muito difícil não ficar sensível a este este nível de execução musical. Ela abriu fronteiras para outros, mais tarde, porque a identificaram também com o Fado. Mas acho que nunca mais se repetiu este nível de vedetismo, no bom sentido, e de ligação a uma pessoa como foi com a Amália.

Os temas que agora são divulgados estavam em algum arquivo no Japão, ou pertenciam ao espólio da Valentim de Carvalho?

Isto são duas bobinas que foram gravadas pela Odeon, que era o nome da EMI japonesa na altura, mas que foram logo enviadas para Portugal e que estão no arquivo da Valentim de Carvalho.

Há algum tema inédito?

É muito engraçado, porque aqui temos a única gravação da Amália do "É Noite na Mouraria" que é um fado que era da sua irmã, da Celeste Rodrigues, e que Amália nunca gravou em estúdio e que canta aqui neste espetáculo. Eu acho que neste tempo, não só a Amália, como todos os fadistas eram muito ciosos do seu repertório e, portanto, era muito, muito, muito raro alguém cantar reportório de outras pessoas.

É famoso, por exemplo, a Maria Teresa de Noronha, pediu autorização a Hermínia Silva para gravar "A Rosa Enjeitada", que tinha sido criada pela Hermínia Silva. Portanto, havia muito essa noção de reportório, o que era muito bom, porque se criou muito reportório graças a isso.

Hoje isso não acontece?

Às vezes penso que é pena, hoje em dia, as pessoas, com a nossa poesia tão rica e com o número infindável que temos de fados tradicionais, não criarem novo repertório. Estar sempre a tentar recriar todos os sucessos da Amália que já foram gravados de uma maneira inultrapassável e não deixar repertório. Eu acho que estas gerações do tempo da Amália realmente são, entre outras coisas, excecionais no que fizeram ao Fado ao deixar um corpo de reportório realmente imenso, e isso é muito bom.

Claro que Amália ainda criou mais, porque depois não só no Fado como depois teve a sorte e a oportunidade de ter grandes compositores, não só portugueses como internacionais, a compor para ela, e portanto, também no domínio da canção, Amália criou um repertório imenso, mas portanto, voltando ao caso deste fado que ela canta da irmã Celeste, é uma raridade nesse sentido. A Amália cantou isto ao vivo, mas é um fado que nunca gravou.

O disco reúne várias fotografias da Amália no Japão. Pertencem à imprensa nipónica ou são de algum espólio?

Isso é uma coisa que eu ando a fazer já há muitos anos, andar à procura de fotografias e também de documentos e programas relacionados com a carreira dela e que estou a reunir. Algumas são de coleções particulares, algumas também são mesmo no arquivo da Valentim de Carvalho e, portanto, têm diversas proveniências. Mas tive o cuidado para que todo o material aqui incluído fosse desta época e desta ida ao Japão.

O Frederico Santiago continua este trabalho em torno do espólio da Amália. É uma missão pessoal?

É. Quer dizer, acho que antes de tudo é de paixão. É uma coisa que eu faço, que dá muito trabalho, mas que por gostar muito de o fazer, acaba por esse trabalho passar mais facilmente. Mas o que é verdade é que eu sempre achei muito estranho esse trabalho não estar feito.

Eu estou a fazer uma cronologia o mais completa possível da Amália, portanto, a recolher elementos na imprensa estrangeira e as datas e tudo e fico sempre espantado com a quantidade e a profusão da carreira dela.

O que é que ainda o espanta?

Ainda há pouco tempo descobri que ela, nos anos 50, esteve quase um mês a cantar na Suécia, por exemplo, que é uma coisa com que ninguém sabia, ou se calhar alguém dizia que ela foi à Suécia. Ela foi à Suécia mais que uma vez, mas passar um mês numa casa de espetáculos a atuar ... ou a Argélia, ou indo para sítios mais longe, como a Austrália, quase não há país onde a Amália não tenha ido. E não ia com aquela lógica que hoje se faz muito, e vamos fazer festivais com músicos raros ou coisa assim. Não. Ela ia graças ao seu prestígio.

O que potenciou esse prestígio internacional?

Aí a França foi realmente foi muito importante, porque a partir de 1956, com a estreia dela no Olympia, tornou-se mesmo uma vedeta planetária. Por exemplo, a estreia dela em Israel, em 1959 os cartazes mostram que ela era vista quase como uma vedeta francesa. Era portuguesa, mas era a Embaixada de França que apresentava aquele espetáculo e, portanto, acho que a França foi muito, muito importante nessa internacionalização da Amália, muito mais do que Portugal ou o Estado Novo, como muita gente às vezes diz.

Porquê?

Esses também eram mal vistos pelo mundo na altura, pouco podiam fazer em certos meios, não é? É essa ligação à França e essa ligação internacional que a faz também ir à União Soviética ainda nos anos 60, e à Roménia, mais do que uma vez, à Jugoslávia. A países que era impensável terem relações com Portugal. Não é o caso do Japão. Até é engraçado, porque antes deste recital, uns dias antes dá um recital na Expo de Osaka e é um espetáculo português. Portanto, só depois dos recitais de Tóquio é que são privados, digamos assim. Mas, há essa descoberta constante de uma carreira que era ainda maior do que nós podemos supor.

Como é que é possível um ser humano reunir tantas qualidades? Porque são muitas, não é só a voz, ou a sorte. Ela alcançou tudo

Era mesmo uma vedeta internacional.

Gosto muito da Amália, mas também gosto muito de outros artistas. E eu mesmo pensando nos maiores artistas do mundo, seja a Edith Piaf, seja o Brell, o Sinatra que tiveram carreiras gigantescas em salas importantíssimas, mas a Amália talvez ainda tenha conseguido mais, porque depois ainda tinha aquele lado, se ia a um país onde havia uma comunidade de imigrantes, facilmente depois de cantar no teatro mais importante dessa cidade, ia a um restaurante cantar até de borla.

Ela entrava em mundos que eram próprios da música erudita, como o Festival de Edimburgo, Lincoln Center, o Festival do Malbec. e essa maneira de estar dela que tanto podia cantar a canção mais popular e quase brejeira - nela nunca era brejeiro - como "O Cochicho" e, ao mesmo tempo, estar a cantar Camões. Era realmente tão universal. E quando digo universal, não é só do ponto de vista do mundo, mas universal artisticamente. Ela consegue captar as pessoas que, como eu são ligadas ao mundo da música erudita, e captar pessoas que normalmente ouvem só a música mais popular. Isso, eu não conheço universalidade tão grandes em mais nenhum artista.

Mais alguma curiosidade nesta passagem pelo Japão?

A Amália em 1980 fez um genérico para uma novela japonesa. É uma coisa que mostra a fama que ela tinha no Japão. Era cantado em português. Mas não está no disco, foi gravada mais tarde. Sairá mais tarde, porque isso só saiu num single japonês. Nunca foi editado em Portugal.

O que é que ainda o continua a intrigar na vida de Amália?

O que me intriga é o que me intriga em todos os grandes artistas. Como é que é possível um ser humano reunir tantas qualidades? Porque são muitas, não é só a voz, ou a sorte. Ela alcançou tudo.

Continua a haver muito material inédito?

Sim, sim e não só no arquivo da Valentim de Carvalho onde existe muito material inédito, e quer dizer, e não só o inédito, como o já editado, que para ser editado nas melhores condições sonoras, porque muitas vezes ele foi editado sem o cuidado com a qualidade sonora, como nas autorias, na datação. Portanto, todo esse trabalho que tenho estado a fazer às vezes é difícil. Muitas coisas foram atribuídas a autores que afinal não são, e, portanto, é uma coisa que leva muito tempo, mas que se está a fazer e que é bom.

Este disco no Japão, é mais uma etapa nessa divulgação.

Posso dizer que este disco dos recitais gravados ao vivo da Amália, talvez seja, porque o Japão sempre foi excecional na qualidade técnica, talvez seja o recital gravado ao vivo que tenha melhor som. As boninas originais já de si, tinham um som excecional e, portanto, acho que é um prazer e um gosto enorme poder ouvir a Amália com esta qualidade sonora ao vivo, no auge da sua carreira, num país tão distante, e com tanto requinte, com tanta sofisticação.

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