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Entrevista Renascença

João Botelho filma Alexandre O’Neill. “Gostava muito da vertigem boémia dele”

06 mai, 2022 - 18:00 • Maria João Costa

“Uma Coisa em Forma de Assim” chega às salas de cinema no dia 12 de maio. A nova longa-metragem de João Botelho é um musical que homenageia a vida e obra do poeta, escritor e publicitário Alexandre O’Neill. Foi todo rodado durante a pandemia.

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João Botelho recorda que era vizinho de Alexandre O’Neill, em Lisboa. Dele guarda atos de grande generosidade, como o dia em que o poeta e escritor lhe deu um poema para um o seu filme “Adeus Português”. Em entrevista ao Ensaio Geral, da Renascença, João Botelho fala da liberdade que os une.

Agora presta homenagem cinematográfica ao homem de quem confessa gostar muito da “vertigem boémia”. Nos principais papeis da longa-metragem que chega aos cinemas dia 12 de maio estão atores como Pedro Lacerda, Cláudio da Silva, Inês Castel-Branco ou Rita Blanco.

“Uma Coisa em Forma de Assim” é mais um filme em que João Botelho usa a palavra, o texto escrito por autores portugueses, como personagem. Admite que é um desejo. O filme “pode ser uma introdução para a leitura”, admite o realizador que lamenta os fracos índices de leitura em Portugal.

Continua a construir esta espécie de "biblioteca" cinematográfica. Depois de Fernando Pessoa, Agustina, Eça de Queirós, José Saramago, agora Alexandre O'Neill. Está apostado em trazer a palavra dos escritores portugueses para o cinema. É uma missão?

Não é uma missão, é um desejo. É diferente. Eu gosto muito de uma frase do Pessoa naquele texto que ele elogia o padre António Vieira. Diz que é um grande da língua portuguesa, do Barroco e diz que chora quando ouve teus textos. E nesse texto tem uma frase maravilhosa que é "A minha pátria é a língua portuguesa".

O Eduardo Lourenço dizia que era a melhor invenção dos portugueses depois das Descobertas. Eu acho isso maravilhoso! Gosto dessa ideia. Sou português, vivo em Portugal, não sei fazer uma comédia francesa. Sei fazer filmes portugueses e acho que há textos. Há grandes coisas na literatura portuguesa e que estão esquecidos, que as pessoas não ligam muito.

E hoje, vais a um cinema ver um filme com os miúdos. E eles olham mais para o iPhone, do que para o ecrã. É uma coisa muito estranha.

Não leem livros.

Acho que as pessoas devem voltar a ler. Eu gosto muito também de uma frase do Séneca para o discípulo, que é: "Lúcio, lê, porque a leitura aumenta a inteligência". Ou seja, a leitura é uma coisa essencial para a aprendizagem dos comportamentos e depois é uma coisa livre. Pode ser uma introdução para a leitura.

O cinema como uma porta de entrada para os livros, e a leitura?

É! Para as pessoas lerem! Mesmo o primeiro filme que fiz, o "Conversa Acabada" sobre o Pessoa e Mário Sá-Carneiro. Depois adaptei "Tempos Difíceis", e depois, o "Frei Luís de Sousa", depois fiz Agustina, o Eça de Queirós, dois Pessoas e depois "A Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, agora o O'Neill.

São coisas que eu acho que são importantes, são maravilhosas, e que as pessoas deixaram de ter atenção

Tem memória do Alexandre O'Neill? Isso também o fez mergulhar na obra dele?

Foi meu vizinho, e fez-me uma coisa que ninguém faz! Eu fui lhe roubar o "Adeus Português" sobre a Guerra Colonial. E eu disse-lhe: "Alexandre, isto não é sobre um desenlace amoroso. E não é só o poema mais bonito de amor da literatura portuguesa. É sobre o fim da guerra, sobre a guerra colonial e sobre o luto da guerra.

Agora já é guerra toda a gente, na altura não, ninguém berrava. Era tudo em silêncio. Vínhamos todos do Salazar, e, ele disse-me, "Oh, João, faça o que quiser". Mas fez uma coisa melhor, escreveu um texto no jornal e a dizer que me tinha dado, que é uma coisa que normalmente não se faz. Dizia que lhe tinha aparecido na Cister, que lho tinha pedido e escreveu a dizer que me tinha dado e que tinha tido um prazer enorme em dar-me o texto.

Isso ninguém fez. Fiquei amigo. Ainda vi os últimos tempos de vida dele. Encontrávamo-nos na Cister e conversávamos um pouco. Ele estava com a Teresa Patrício Gouveia. E depois lembro-me de ir funeral dele, com a Teresa Patrício Gouveia, que já não era a mulher dele.

O que o fascinava na personalidade de Alexandre O'Neill?

Gostava muito daquela vertigem boémia dele. Ou seja, uma pessoa que comia demais. Eu não como, como pouco! Mas bebo alguma coisa e gosto da noite, como ele, da boémia.

Posso dizer que a minha vida agora é dançar e trabalhar. Os filhos estão crescidos, podem fazer o que quiserem e eu também! É uma ideia de liberdade que me interessa, que está no texto do O'Neill e que está no meu modo de viver.

No filme mostra a várias facetas de quem foi O'Neill, isso interessou-lhe, porquê?

Foi o maior publicitário, o mais cómico, pelo menos, o melhor a brincar com os Colchões Luso Espuma, com a Bosh, sobre o Mário Soares - Ele não merece, mas vota PS" - escrevia coisas notáveis sobre isso.

Ao mesmo tempo fez contos deliciosos, crónicas de jornais, poemas populares e ao mesmo tempo, poemas arrasadores e comoventes. O "Adeus Português", "Lisboa Remanchada", que depois do Cesário Verde é a melhor descrição de Lisboa que eu jamais li. Depois brincar com o "leite creme". Ele era um pós-moderno. Tocou tudo. É um vulcão que dá para todo o lado.

Aquela frase: “Um encontro o erudito e o popular para encontrar o belo", é uma descrição fantástica da atitude dele perante a vida e perante a escrita. Ele diz: "A poesia é vida, é, mas se for vivinha, já não há poesia que resista. E a morte, mete-se de premeio. Estava sempre em agitação, era um furacão, e, era coerente na incoerência.

Tanto estava bem num palácio, como numa tasca. Isto é difícil de ser assim, um homem.

O filme tem uma dimensão de musical. Também quis revelar um lado da escrita de Alexandre O'Neill?

Tive um grande trabalho com o Daniel Bernardes, que foi um compositor incrível. Como foi o João Ribeiro a fazer planos sequência intermináveis e a luz, a construção. Mas o Daniel Bernardes fez um trabalho notável, porque também vai do erudito ao popular. Tem ópera e tem canções populares ao mesmo tempo.

E mesmo quando não é cantado, a maneira como os meus atores dizem os textos dele, é música. É a música que está lá dentro do texto. É uma paixão pelo musical, também. Depois acaba e fiz 10 planos com 10 minutos, 12 outro, nove outro. E de repente, termino com 500 planos de meio segundo, no final, todos de máscara, porque é pandemia. Todos a dançar em transe, que é uma música hoje mais radical, porque tem 138 batidas por minuto. Fiz isso para dizer que é de hoje!

Foi todo rodado já com a pandemia em curso?

No meio e forte. Não é um filme de época, é um filme em que o personagem principal é o texto. A personagem é o texto. E depois há pessoas que acartam o texto.

E há poesia na forma como filma? A opção dos planos contínuos é um lado poético?

É, porque há poemas dele que não se podem cortar, têm de ser contínuos, e há outros que merecem ser colados uns aos outros e, portanto, são contínuos também. A ideia de fazer uma festa. O cinema não é só contar histórias, aliás, é cada vez menos. Para mim, não é. É o modo como se conta. Não é o que se passa, enquanto se passa, é como se filma.

Este texto na mão de outro colega meu faz um filme diferente. Portanto, o cinema é um modo de filmar, não é a história. E, portanto, isto é uma tentativa de fazer um discurso narrativo na forma, sendo a forma também o texto. É sobre construir narrativas de outra maneira, mas são narrativas.

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