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"Não depende do Presidente"

Brasil. Arcebispo de São Paulo critica instrumentalização do aborto na campanha eleitoral

03 out, 2022 - 19:54 • Sérgio Costa, enviado especial ao Brasil

D. Odilo Scherer defende, em entrevista à Renascença, que o vencedor da segunda volta, qualquer que seja, deverá procurar um entendimento nas matérias que realmente interessam aos brasileiros. O arcebispo de São Paulo faz votos de que muitos jovens brasileiros estejam presentes na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa.

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Entrevista de Sérgio Costa a D. Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo
Entrevista de Sérgio Costa a D. Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo

O Arcebispo de São Paulo, D. Odilo Scherer, critica a instrumentalização do tema do aborto na campanha eleitoral do Brasil. "Não é Bolsonaro que aprova ou não aprova. Não depende dele", aponta.

Em conversa com a Renascença, no dia seguinte à primeira volta das eleições do Brasil, que vão agora concluir numa segunda ronda entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, a 30 de outubro, o Arcebispo lamenta a polarização que se verifica no processo eleitoral brasileiro.

D. Odilo Scherer defende que, qualquer que seja o vencedor da segunda volta, deverá procurar um entendimento nas matérias que realmente interessam aos brasileiros.

O Arcebispo de São Paulo revela, ainda, que a Igreja Católica está diponível para ajudar a unir o país.

Eu gostaria de começar pelo atual momento do país. Claro que não vamos entrar em questões absolutamente políticas, mas o Brasil saiu agora de uma primeira volta, como se diz em Portugal, de uma eleição que confirma um quadro de grande polarização não só política, mas também social. Como é que observa este fenómeno? Manifesta preocupação com esta tensão que se sente atualmente no Brasil?

Esta situação não é nova. Ela já se manifestou nas eleições passadas, mas ela vem de uns dez, 15 anos. Vem se confirmando, afirmando esse quadro polarizado. Temos uma multiplicidade de partidos. Nacionalmente são duas posições que se afirmam. Até parece que temos um bipartidarismo, mas não é assim. Temos muitos partidos, porém são duas posições ideológicas bastante definidas. E elas se consolidaram ao longo desse tempo.

E isso, claro, é o momento, momento não só brasileiro. É internacional. Se a gente vê que isso está acontecendo em vários lugares, vários países também na Europa, América do Norte e em vários lugares. Que isso preocupe? É um fenómeno que precisa ser acompanhado com atenção, porque claramente é um fenómeno que de alguma maneira falseia a convivência democrática e tende a acentuar extremismos e acentuar visões unilaterais, o que claramente não representa bem a realidade do Brasil, nem a realidade social, económica, política e cultural do Brasil, que é muito variada.

Porém, nesses momentos mais quentes, digamos assim, as coisas ficam muito polarizada, dois polos contrapostos e até parece que não é um intermediário, não é uma camada intermediária ou um pensamento intermediário. E existe. De facto, existe.

Justamente, parece haver, de facto, um grande quadro de tensão e não haver diálogo na sociedade brasileira, na política brasileira. O que eu pergunto é: Como pacificar, como promover esse diálogo neste momento no Brasil?

Naturalmente, esse é o desejo. Este é o grande objetivo que nós devemos buscar, porque não podemos continuar a aprofundar uma convivência polarizada e antagónica de dois polos antagónicos e que que vive numa situação de disputa, mas não apenas numa disputa ideológica, mas uma disputa que acaba depois, gerando também certa forma de violência, acusações, maledicências e, evidentemente, propagando mentiras que hoje estão na ordem do dia.

E como fazer isso? Temos que esperar que agora, passado o calor da campanha eleitoral - ainda não passou porque teremos o segundo turno - mas que quem ganhar finalmente para governar como Presidente, como governador e também no Congresso Nacional, como o Senado, Câmara Federal e também a Assembleia Legislativa nos Estados. Haja um grande movimento de diálogo, de busca, não apenas de afirmação de posições, mas de realmente dedicar o esforço político a resolvê-las.

Qual pode ser o papel da Igreja Católica nesse processo de promoção de diálogo aqui no Brasil?

Temos procurado não entrar neste jogo da polarização, embora possa haver franjas dentro da Igreja Católica também, que acabaram sendo envolvidas nesta disputa e neste movimento antagónico e nessa polarização. Porém, da parte do episcopado, procuramos manter, digamos, uma posição de sobriedade, onde não nos deixamos, pelo menos, assumir dentro do movimento polarizado. Estamos abertos para o diálogo, para também contribuir para ajudar a promover a unir os lados em função de projetos e propostas que venham em benefício da população, não apenas em benefício de formação, de afirmação, de posições ideológicas antagónicas.

Aquilo que se sente e aquilo que é dito hoje em dia é que, por exemplo, outras igrejas, como as igrejas evangélicas, assumem um poder, assumem alguma influência na vida social e na vida política brasileira. Como é que olha para este fenómeno aqui no Brasil?

Vamos distinguir agora um conceito de igreja clerical e um de igreja povo de Deus. Então nós, clero, bispos, não estamos em partidos nem defendemos posições ideológicas abertamente em campanha. Não é da nossa posição enquanto clero católico. Porém, a Igreja povo, o povo católico é livre de ter as suas posições, de ter também as suas escolhas e isso não podemos controlar.

Isso, enfim, pertence à autonomia do povo de Deus. Os leigos têm as suas convicções e naturalmente estão em posições muitas vezes antagónicas na maneira de ver, de resolver as coisas. É importante que se acentue, mesmo que as posições sejam antagónicas, mas que elas estejam em função da vida do povo, não em função simplesmente de afirmação de ideologia e de busca do poder e de afirmação do poder de rejeição da parte contrária.

Mas quem está envolvido na vida política, dos nossos católicos, do povo católico, que ponha a sua força em função de resolver as questões do povo brasileiro. Não temos a mesma posição das igrejas, não temos uma igreja evangélica, temos talvez milhares de igrejas evangélicas. É um erro pensar que temos uma igreja evangélica. Temos centenas, talvez milhares, de igrejas, de grupos evangélicos, autónomos.

Não existe um bloco único, portanto, ali também existe uma variedade de posições, desde os que também como nós, têm essa posição, onde os pastores, as lideranças, digamos assim, o clero evangélico não se envolve diretamente. Até as posições, e essa está bastante evidente, onde as lideranças desses grupos evangélicos se envolvem diretamente. Pastores ou sindicatos, apóstolos ou missionários ou bispos se envolvem diretamente com suas comunidades, digamos assim, na campanha partidária e na opção partidária na campanha eleitoral, na posição assumida, inclusive, de buscar o voto e o poder, se candidatando se para poder participar do poder.

E, nesse quadro, muitas análises feitas no exterior adiantam que a Igreja Católica estará a perder terreno no Brasil. Isso confirma- se? Corresponde à realidade?

Olha, as essas análises precisam ser feitas de maneira correta, porque, em geral, por exemplo, a partir do resultado das eleições, onde os grupos evangélicos se colocaram muito em evidência, dizer que a Igreja Católica está perdendo terreno, isto não equivale à verdade. A Igreja Católica nunca se colocou em evidência na questão partidária, em candidatar-se para cargos políticos.

Não é do nosso feitio e não foi nunca. Não tem nada a perder. É uma avaliação equivocada. Agora, a questão é o seguinte: não foram só os evangélicos que elegeram o que está aqui. Foram também os católicos que elegeram o que está aqui. Portanto, não se pode atribuir o resultado das eleições aos evangélicos. Os evangélicos não dariam a Bolsonaro ou aos bolsonaristas 43% dos votos do povo brasileiro. Os evangélicos não têm todos esses votos. Grande parte dos votos dados a Bolsonaro, a maioria, é do povo católico. Então, analisar por este perfil, mais católicos ou menos católicos, por causa do resultado das eleições, é equivocado.

Mas há ou não um número de crescente de católicos no Brasil?

Nós estamos, agora, no momento de censo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estaria, a partir deste ano, promovendo o recenseamento, o que a cada dez anos deve acontecer. Demorou um pouco por causa da pandemia, mas neste ano iniciou. Portanto, vamos ver o resultado do recenseamento. Pode até ter havido uma queda, talvez no percentual de católicos na população brasileira. Porém, isto não está a priori, confirmado. Por outro lado, o que mais cresce no Brasil não são os evangélicos, são os ateus e os indiferentes. Esta é a questão.

Nesse ponto, perante um país que tem grandes desigualdades e grandes contrastes, tem uma franja social com grandes dificuldades, qual o papel da Igreja Católica? Quais são os eixos, as tarefas da Igreja Católica? O que é que está a desenvolver para chegar a essa franja social que ainda tem grandes dificuldades?

Aquilo que fizemos e continuamos a fazer. Quem está com o povo pobre somos nós. Nós estamos com o povo pobre, nas nossas paróquias, na periferia todos têm trabalho social, tem obras sociais. Os padres moram com os pobres. O seu trabalho está lá, diretamente, com os pobres. Nós continuamos a fazer isto. Agora, a questão de buscar uma religião ou outra religião não depende de isso.

É uma questão cultural, é um movimento cultural que hoje justamente afirma a liberdade, a autonomia pessoal e uma afirmação subjetiva, pessoal, muito grande que está aí, que envolve o mundo dos pobres também. Os pobres vêm as nossas obras sociais e depois procuram os evangélicos para as suas funções religiosas. Então, não é porque nós não estamos com os pobres. Nós estamos com os pobres, mas eles fazem suas escolhas religiosas de maneira livre e nós não podemos impor naturalmente.

Voltando só um pouco atrás na questão das eleições, várias questões que entraram no debate são questões que, nós, em Portugal, chamamos de questões fraturantes, como por exemplo, o aborto. Naturalmente que a Igreja é intransigente na defesa da vida. A questão que eu coloco é se tem receio que essa discussão, por exemplo, o aborto, seja apenas utilizado para arremesso político e não haja um verdadeiro esclarecimento na sociedade. Manifesta preocupação com isso?

Sim, manifesto. E nós temos essa preocupação. Agora, esses temas são usados de maneira instrumental. Não é o Presidente que vai aprovar o aborto, será o Congresso Nacional, serão os deputados. Não é o Presidente. Naturalmente, no fim, sanciona ou não sanciona o que foi aprovado como projeto de lei pelo Congresso Nacional.

Então é um engano votar pelo Presidente dizendo que ele não vai aprovar o aborto ou ele vai aprovar o aborto. Não depende dele. Mas essas são questões que nos preocupa em parecer ser levadas em conta. É errado simplesmente ser na hora da campanha eleitoral. Precisa ser acompanhados constantementeno desempenho do Congresso Nacional. Para começar no desempenho dos nossos políticos eleitos durante esse período.

Isto é, o povo brasileiro rejeita o aborto. Rejeita tantas outras coisas que estão aí na pauta de costumes, como se costuma dizer aqui. E nesse sentido, nós estaremos e continuaremos a tentar desempenhar o nosso papel, justamente acompanhando o desempenho do que acontece no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Mudando um pouco de assunto, sei que esteve há poucos dias em Roma, no encontro ad limina com o Papa Francisco. Que balanço é que faz desse encontro?

A visita ad limina, não acontecia há 13 anos, por diversos motivos que foram ocorrendo. A renúncia do Papa Bento XVI. O papa Francisco depois que nos convocou para 2020 e entrou a panemia, o que, por mais dois anos, adiou a visita. Este ano, felizmente, pudemos fazer a visita e foi muito boa. Dentro de um novo espírito que se percebe também no encontro com os diversos dicastérios, com o próprio Papa Francisco.

A gente percebeu que existe uma nova maneira de acolher, de perceber as situações da Igreja, um diálogo franco, aberto, que se estabeleceu entre os bispos e os diversos encarregados da Cúria Romana. O Papa, no seu encontro com os bispos, deixou-nos muito à vontade para falar daquilo que sentimos e tivemos a apresentar. Eu creio que os bispos em geral dos diversos grupos, saíram muito felizes dessa visita.

Um dos grandes temas atuais, também envolvendo a Igreja Católica é a questão dos abusos no seio da Igreja. Que imagem nos pode dar daquilo que está a ser feito no Brasil neste momento?

No Brasil, cada bispo está cuidando de acompanhar as questões dentro da sua diocese e os superiores religiosos nos institutos de vida consagrada. Isso está sendo levado muito a sério e, é claro, uma questão latente que está, digamos assim, presente na condição humana. E não está dito que a gente consiga, por decreto, terminar com isso. É uma questão que está relacionado com as atitudes e os comportamentos que claramente precisam ser corrigidos.

Precisam ser prevenidos e, é claro, uma atenção especial também às vítimas de abusos. Mas existe claramente, sim, essa preocupação também entre nós. Muitos casos que nós já estamos a acompanhar já este ano e já estão encaminhados já foram resolvidos, mas é certamente uma ferida que ainda vai por muito tempo continuar.

Consegue dar uma dimensão do fenómeno no Brasil? Em alguns países, diz-se que o fenómeno foi surpreendente. No Brasil tem uma grande escala? Tem essa perceção?

Não temos dados globais do Brasil sobre o fenómeno, mas certamente ele está presente um pouco de maneira difusa em toda parte, no Brasil. E quanto aos números, bem, não poderia dizer, sem ter dados concretos, se são tantos ou quantos.

A prioridade da Igreja, mais do que os números, será o acompanhamento das vítimas?

Sim. Enfrentar os casos, enfrentar os casos. Quando há denúncias, vai-se atrás e, portanto, toma-se as providências que têm que ser tomadas segundo a norma canónica. E, é claro, certas questões vão parar na Justiça Civil porque acabam sendo qualificados como delitos também perante a lei civil. E a assistência às vítimas para que ela sejam ajudadas se foram prejudicadas.

Mas são casos muitas vezes difíceis também de serem clareado, porque muitas vezes se fala de bispos que querem encobrir. Não existe tanto essa preocupação dos bispos que querem encobrir, mas é muito difícil de esclarecer as coisas, porque nem sempre existe a colaboração aberta para chegar a esclarecer os factos.

Para o ano acontecerá a Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. O que espera da Jornada Mundial da Juventude? Que mensagem é que deixa aos jovens?

Nós esperamos que seja uma jornada bonita e grandiosa e, para nós brasileiros, será quase como se fosse no Brasil. Esperamos que muitos brasileiros possam também estar presentes lá em Lisboa, na Jornada da Juventude. Eu mesmo me proponho estar lá também.

A Jornada da Juventude tem lançado sementes preciosas e que, pouco a pouco, produzem o seu fruto no meio da juventude. E eu espero que não seja diferente também para esta de Portugal.

Acredita que estarão muitos jovens brasileiros em Lisboa?

Eu faço votos que sim. A movimentação está sendo grande e, claro, vai depender um pouco das circunstâncias. Temos uma certa crise, naturalmente, em relação à questão das viagens. Pacotes estão sendo muito caros e isso talvez dificulte um pouco que o número seja maior. Mas, em princípio, existe um grande desejo de participar.

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