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Conferência dos Oceanos. "O verdadeiro povo, cujo grito o mundo precisa de ouvir, não está aqui"

30 jun, 2022 - 08:50 • Aura Miguel

Desapontado com o encontro de Lisboa, arcebispo das Ilhas Fiji convida os decisores a testemunharem os efeitos dramáticos das alterações climáticas no seu país, que está a ficar submerso. “Os cientistas têm muito conhecimento e sabem explicar muita coisa, mas não têm capacidade para mudar as pessoas”, afirma D. Peter Chong. A crise ecológica é o reflexo de uma crise interior, defende em entrevista à Renascença.

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D. Peter Chong viajou das Ilhas Fiji, no Pacífico Sul, até Lisboa para participar na Conferência dos Oceanos das Nações Unidas. Em entrevista à Renascença, o arcebispo de Suva conta os efeitos nefastos das alterações climáticas no seu país, onde nem os mortos têm descanso devido à subida do nível das águas do mar.

Quer dar-nos exemplos de alterações climáticas nas Fiji?

Na aldeia da minha mãe, as pessoas mudaram-se para o cimo do monte, porque as águas do oceano subiram 50 metros e continuam a subir. Conheço uma aldeia em que o cemitério ficou totalmente submerso.

Tudo isto aconteceu num período de 40 anos… e também podemos ver muitas estradas alagadas. Por isso, foi preciso elevar barreiras e colocar pedras para impedir o oceano de inundar as estradas.

Como avalia esta conferência em que participou?

Há dois aspetos. O primeiro é que os países grandes deviam decidir pôr fim às emissões de carbono, porque o carbono leva ao aquecimento do ar e o aquecimento global derrete o gelo.

Outro aspeto importante relaciona-se com os governos locais porque, quando se fala em alterações climáticas, tem de se falar também em cuidar do ambiente. No meu caso, por exemplo, o nosso governo local está a maltratar o ambiente porque permite às grandes companhias a exploração de terras, das praias, permite escavar rochas, tirar cascalho dos rios, permite-lhes fazerem o que quiserem. E agora, nalgumas ilhas, o mar está a inundar a terra.

Que medidas preconiza?

Temos de impedir estas grandes companhias de mineração e exploração dos rios e do fundo do mar. O governo deve tomar medidas para acabar com esta exploração.

O problema é mais visível nas pequenas ilhas, porque não têm dinheiro para construir barreiras contra o mar, mas o nível das águas sobe em todo o lado. O mundo inteiro sabe disso. Até dizem que Miami, nos Estados Unidos, também vai ficar submersa.

"As pessoas realmente afetadas pelas alterações climáticas não estão aqui"

Acha que, em geral, o mundo está preocupado com isto?

Acho que não. Há grandes países que não estão seriamente preocupados, como por exemplo a Austrália. Mesmo a nível da Igreja Católica, não me parece que o aumento do nível das águas seja uma prioridade, mas a Igreja da Oceânia é chamada a deixar um alerta sobre os oceanos. Ora, nós somos o único povo católico que vive no meio do oceano. Se não falamos disso agora, ou somos cegos ou moramos noutro lado.

Não fica frustrado por ver tantas conferências internacionais sobre estes assuntos e poucos avanços?

Sim, de certo modo. É a primeira vez que venho. Fui convidado para participar, mas já disse a algumas das ONGs [organizações não-governamentais] que também vieram das Fiji que, depois de regressarmos, temos de nos juntar, refletir e partilhar os nossos pontos de vista, para ver como podemos trabalhar juntos, à nossa maneira e organizar uma Conferência com convidados, cientistas, políticos e chefes de Estado que venham ver como é.

Acha que há pouco realismo nestas cimeiras internacionais?

Os pobres nunca participam. As pessoas realmente afetadas pelas alterações climáticas, pela subida do nível do nível mar, pelas indústrias de extração não estão aqui.

Estas conferências são só para quem pode pagar a inscrição e a viagem, para os cientistas e especialistas que não estão afetados pelas alterações climáticas.

O verdadeiro povo, cujo grito o mundo precisa de ouvir, não está aqui. Por isso, a única maneira de sensibilizar os responsáveis é levá-los lá, é organizar uma conferência e convidar pessoas para nos ouvirem e verem a realidade com os seus próprios olhos.

Acha que o Papa é ouvido pelos políticos sobre estas questões?

Nestas conferências há pouco espaço para a linguagem de Deus e para falar de espiritualidade. Está tudo dominado pela linguagem científica, académica e política.

Ou seja, fala-se na necessidade de tratar dos oceanos e do ambiente, mas não se fala do Criador que criou os oceanos, nem qual é o plano de Deus para os oceanos. Ninguém fala disso.

Por exemplo, se eu quiser consertar um carro, devo perceber quem criou o carro, consultar o fabricante, ver como é desenhado e, só depois, posso reparar o carro. Ora, se queres reparar o mundo e não fazes referência a Deus que o criou, quando os seres humanos pensam que sozinhos podem reparar o mundo, algo está errado.

Qual é a solução?

Na raiz do problema está o que o Papa Francisco chama de questões antropocêntricas e o predomínio do paradigma tecno-económico, sempre que os seres humanos se colocam a si mesmos no centro e, às vezes, até se consideram deuses, pondo Deus de lado. Este é o ponto fraco destas conferência.

"A crise ecológica é o reflexo de uma crise interior, tem a ver com a espiritualidade"

Então, está desapontado com estes trabalhos?

Sim. Porque é preciso haver mudança. É certo que podemos mudar o modo de pensar mas, para isso, é preciso mudar o coração. E para mudar uma pessoa, é preciso mudar por dentro. É isso que o Papa explica. A crise ecológica é o reflexo de uma crise interior, tem a ver com a espiritualidade. É uma questão de conversão e de linguagem.

Que tipo de linguagem?

É preciso trazer a estas discussões internacionais uma linguagem espiritual. É que os cientistas têm muito conhecimento e sabem explicar muita coisa, mas não têm capacidade para mudar as pessoas.

Precisamos de uma linguagem que fale ao coração, não só a espiritual cristã mas também a simbólica dos rituais indígenas e da sua própria espiritualidade.

Como é a Igreja nas ilhas Fiji?

É uma Igreja pequena, mas melhor que a da Europa, melhor que a americana e melhor que a da Austrália. Porque imensa gente vai à igreja, as pessoas cantam na igreja e muita gente participa na vida das comunidades e em encontros de grupo. Por isso, posso dizer convictamente que a fé nestas pequenas ilhas está viva e recomenda-se.

Como olha para a vida da Igreja aqui?

Fui à missa aqui em Lisboa e ninguém cantou. É triste, mesmo muito triste. Quando se canta, louva-se e adora-se a Deus. Aqui só vi pessoas caladas, sem alegria…

São muitos séculos de secularização e desgaste, nesta velha Europa. Que conselho dá à nossa Igreja tão cansada?

É preciso regressar aos fundamentos da Igreja e à grande missão que lhe foi confiada: “Ide e fazei novos discípulos”. Só que, em vez desta enorme missão, muitos optaram por uma grande omissão e não fizeram discípulos.

E o que diria aos que consideram que a Igreja é moralista e não é atrativa?

Tudo passa pelo modo como se apresenta a Igreja, como o padre faz a homilia, que não deve ser muito longa e deve estar relacionada com os problemas das pessoas. É importante dar boas informações e cantar, sempre.

Para viver o domingo, há que preparar os cânticos, tornar a missa atrativa para que as pessoas desejem regressar na semana seguinte. A Igreja deve ser hospitaleira e fazer com que as pessoas se conheçam entre si e se sintam bem.

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