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Parlamento Europeu

Extrema-direita cresceu em quase todas as eleições europeias

04 jun, 2024 - 07:30 • João Pedro Quesado

Nas primeiras eleições, o crescimento foi tímido. Contudo, desde o novo milénio que a extrema-direita já duplicou por duas vezes a representação no Parlamento Europeu. Entre mudanças na UE e crises que ameaçaram derrubá-la, o limite para estas forças políticas ainda não foi encontrado, e agora podem mesmo passar a marcar a agenda.

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Entre as nove eleições realizadas para o Parlamento Europeu (PE), o número de eurodeputados de extrema-direita só não aumentou em 1999. Já na última sessão antes das eleições de 2024, a extrema-direita ocupava 19% dos lugares em Estrasburgo e Bruxelas.

Uma análise aos resultados por país das eleições para o Parlamento Europeu mostra que 1999 é a exceção à regra, e sublinha que o crescimento deste setor no Parlamento é uma constante desde 1979 - mesmo que os eurodeputados não pertençam a nenhum grupo político, por opção ou por não conseguirem formar um.

Seguindo a classificação da base de dados "PopuList", compilada por cientistas políticos e que classifica partidos de 31 países europeus como populistas, extrema-esquerda, extrema-direita e eurocéticos, o Parlamento Europeu conta atualmente com 134 eurodeputados de extrema-direita.

As contas da Renascença usam como base a distribuição dos eurodeputados após cada eleição, à exceção do atual hemiciclo, para o qual são usados os números da última sessão. Desta forma, evitam-se as mudanças a meio de cada mandato – como os ajustes após o Brexit e a reunificação da Alemanha, ou a entrada de Portugal e Espanha em 1986 num Parlamento já eleito em 1984.

1999, a única pausa no crescimento

Desde a primeira vez que o Parlamento Europeu foi diretamente eleito pelos europeus que há extrema-direita no hemiciclo. Em 1979, dois partidos desse setor, o Movimento Social Italiano e o Partido do Progresso (Dinamarca), conseguem eleger deputados. Na Itália, o partido neofascista obteve 1,9 milhões de votos.

Em 1984, a extrema-direita ganhou espaço na Europa através do Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen que, com 11% dos votos na França, elege 10 eurodeputados, num ano em que o partido começa a ganhar destaque mediático.

Com o pai de Marine Le Pen a manter os eurodeputados em 1989, a extrema-direita cresce na Alemanha Ocidental, pela mão do partido Os Republicanos, que ganhou adesão com o aumento das perspetivas de reunificação da Alemanha – apesar do partido defender o regresso às fronteiras alemãs de 1937 (que incluem Kaliningrado e a zona oeste da Polónia).

Entre 1989 e 1994, o continente europeu passou por algumas das maiores mudanças da História moderna: o regime comunista da União Soviética caiu, as duas Alemanhas reunificaram-se e novos países foram criados com a divisão da Checoslováquia e dissolução da Jugoslávia. A reunificação da Alemanha, em particular, foi a primeira expansão territorial da ainda Comunidade Económica Europeia (CEE) desde 1986, quando Portugal e Espanha aderiram.

Apesar disso, o panorama do Parlamento Europeu muda pouco na eleição de 1994 - Os Republicanos da Alemanha não elegem, mas o Movimento Social Italiano, que se transformou no Aliança Social, passa de quatro para 11 eurodeputados, contribuindo para um pequeno aumento num ano em que o número total de partidos no PE desceu de 97 para 94.

A eleição de 1999 representou uma pausa no crescimento. Com a extrema-direita já cimentada na França, Bélgica e Itália (onde continuaram a surgir novos partidos, como o Lega Nord e o Movimento Social Chama Tricolor), o UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) elege eurodeputados pela primeira vez. Mas, num Parlamento que continuou a crescer em tamanho, tanto o total de eurodeputados de extrema-direita como a percentagem de lugares que estes ocupam desceu.

Novo milénio, novo ímpeto

A Áustria foi o primeiro país, que se declarava neutro durante a Guerra Fria, a levar políticos de extrema-direita para o palco principal das instituições europeias, logo em 1999. Mas, em 2004, a Polónia foi o primeiro dos países que esteve do outro lado da Cortina de Ferro a eleger eurodeputados desta cor política, através do Lei e Justiça (que governou o país entre 2015 e 2023) e do Liga das Famílias Polacas.

Nesse ano, o número de eurodeputados da extrema-direita mais do que duplicou (passou de 21 para 48), graças também ao reforço das delegações da França e do Reino Unido.

A eleição aconteceu cerca de um mês e meio depois do alargamento a Leste, que fez a União Europeia crescer de 15 para 25 Estados-membros. Os resultados mostraram um aumento do voto não só em partidos de extrema-direita, como eurocéticos em geral.

A tendência reforçou-se na eleição de 2009, que aconteceu no contexto da crise financeira internacional iniciada em 2007, já com impactos na economia europeia, mas ainda antes da crise das dívidas públicas da zona Euro. O Partido Popular Europeu, os Socialistas e Democratas e os liberais foram os maiores derrotados, perdendo quase 80 assentos no Parlamento Europeu.

Ao mesmo tempo, a extrema-direita reforçou-se em Itália, alastrou aos Países Baixos, e elegeu em praticamente toda a Europa de Leste, incluindo nos recém-chegados Roménia e Bulgária.

O reforço foi ímpeto para a criação de uma nova família política que dura até hoje, a dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), mas a maioria dos eurodeputados optaram por não se juntar a nenhum grupo ou por estar no novo Europa da Liberdade e da Democracia (herdeiro do anterior Independência/Democracia).

Mais crise, menos europeísmo

Em 2014, a crise na União Europeia – com as economias do sul a sofrer mais e a receberem programas de assistência financeira que implicavam fortes medidas de austeridade – marcou o tom das eleições. Apenas em quatro dos 27 países europeus é que a maioria da população apoiava a UE.

Foi nesse ambiente que a extrema-direita saltou de 62 para 122 eurodeputados, passando a ocupar 16,2% dos lugares do Parlamento Europeu. O crescimento é, em parte, ajudado pela mudança de classificação do Fidesz de Viktor Órban - que, a partir de 2010, passa a ser considerado pelos académicos responsáveis pelo “PopuList” como um partido de extrema-direita, apesar de se manter no PPE (até 2021, quando saiu pelo seu próprio pé antes de ser expulso).

Outro grande fator foi a revitalização da Frente Nacional na França. Liderado por Marine Le Pen desde 2011, o partido procurou apresentar-se como mais moderado do que antes, e acabou por vencer as eleições europeias na França, com 24,8% dos votos.

Por outro lado, o reaparecimento deste setor político na Alemanha (pela mão da então recente AfD) e o reforço no Reino Unido (com o UKIP a preparar-se para lutar pelo Brexit) também foram combustível para esta multiplicação de força.

Em 2019, numa eleição marcada pela saída pendente do Reino Unido e pelos protestos pelo clima que se espalharam por toda a Europa, Liberais e Verdes cresceram. Mas a extrema-direita também, continuando a engordar as fileiras – que agora, no fim do mandato do Parlamento eleito em 2019, contam com 134 eurodeputados.

A liderança eleitoral da direita radical em França, que continuou, alastrou-se à Itália, onde o Lega Nord aproveitou a posição como partido de governo (em coligação com o Movimento 5 Estrelas) para vencer as eleições com uma vantagem acima dos três milhões de votos. E foram eleitos partidos de extrema-direita em mais países: Espanha, Suécia, Finlândia, Estónia, Chéquia e Eslováquia, por exemplo.

No cenário atual, 19% dos 705 eurodeputados representam a extrema-direita. Depois de 9 de junho, o equilíbrio pode mudar de novo: várias projeções estimam um crescimento em cerca de 50 eurodeputados.

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