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Debates parlamentares. Está António Costa a vestir a pele de “animal feroz”?

25 nov, 2022 - 09:00 • João Carlos Malta

A entrada de Miranda Sarmento como líder parlamentar do PSD, e o aumento de polémicas em torno do Governo, coincidem com um tom mais crispado do primeiro-ministro nos debates na Assembleia da República. Dois especialistas em comunicação política ajudam a descodificar o que poderá estar por trás da mudança de atitude do homem que lidera a maioria absoluta.

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“O lindíssimo livro”, as “pérolas do livrinho”, e “a interessantíssima leitura do seu livro”. Desde que Miranda Sarmento assumiu a liderança bancada do PSD, que o livro sobre as reformas fiscais que escreveu se tornou um dos temas centrais no debate com António Costa. E estes episódios marcam também o adensar do tom de maior “guerrilha” com a oposição do Primeiro-ministro, sobretudo com os partidos à direita no Parlamento.

Já mais recentemente numa troca acesa de argumentos com a Iniciativa Liberal, aquando da queda do Governo da conservadora Liz Truss, e perante o desconforto verbal expressado pelo líder parlamentar dos liberais, Rodrigo Saraiva, e pelo líder João Cotrim Figueiredo, Costa ripostou: “Mas também querem competir com o Chega em vozearia? Têm de crescer muito! Oh meninos… oh pá…“.

Esta sexta-feira, está marcado um novo embate entre António Costa e a oposição no debate da votação final do Orçamento do Estado para 2023.

O consultor de comunicação João Villalobos pensa “que o tom do primeiro-ministro reflete uma atitude que decorre de uma mudança associada à maioria absoluta”.

“Há notoriamente, uma atitude efetivamente mais agressiva e sarcástica e que penso de facto, não é propriamente muito dignificante do ponto de vista institucional”, considera o especialista que esteve com Assunção Cristas, quando a ex-líder do CDS foi vereadora na Câmara de Lisboa.

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"Há notoriamente, uma atitude efetivamente mais agressiva e sarcástica e quenão é propriamente muito dignificante do ponto de vista institucional", João Villalobos, especialista em comunicação política.

Já Luís Bernardo, responsável pela comunicação do ex-Primeiro-ministro José Sócrates, defende que “ao longo dos anos, em diversas ocasiões houve momentos de maior tensão, em que o humor era, muitas vezes, utilizado”.

“Agora, depois, depende da sensibilidade de quem está do outro lado, se interpreta isso como pura ironia, que é normal no confronto e debate político, ou se considera que, apesar de tudo, o Primeiro-ministro poderia ter uma postura que não banalizasse o discurso político”, analisa.

Bernardo considera que o que tem acontecido “faz parte do natural jogo parlamentar”.

“Já assisti, em muitas ocasiões, a insultos bastante piores de parte a parte, de quem estava no governo em relação à oposição, e de quem estava da oposição em relação ao governo e entre as oposições. Isso nunca prestigia a Assembleia e as pessoas estão um bocado cansadas desse tipo de despiques que existem e, no final, vale o que vale”, assinala Luís Bernardo, que já foi também responsável pela comunicação do Benfica.

A subida do tom mais agressivo por António Costa foi assinalada pela deputada do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua que apelidou de "animal feroz" o registo do Governo - uma alusão a José Sócrates - quando "falou de uma taxa sobre lucros extraordinários".

Luís Bernardo defende que Mortágua não sabe do que fala “talvez porque na altura não era deputada”. “São estilos completamente diferentes”, defende.

Bernardo sublinha que José Sócrates era muito afirmativo naquilo que defendia e “usava uma veemência muito forte na troca de ideias”. E garante que, por norma, não usava muito o ataque direto ou minimizava o adversário.

Já António Costa, adverte Bernardo, “tem outro estilo”. “É mais bonacheirão, é um estilo completamente oposto”, argumenta.

Ainda assim, sublinha que “ele não visa insultar quem quer que seja”. Luís Bernardo considera que o que pode estar diferente são “as sensibilidades e até o debate político”. Isto porque lembra, o nível de deputados também era muito diferente.

“Se nós olharmos para quem aqui, na altura, discutia mesmo do lado da oposição. Era, por exemplo, Francisco Louçã e Paulo Portas. No PSD, em diferentes momentos quem esteva na bancada parlamentar eram figuras que talvez tivessem outro poder de encaixe, e até outra imagem pública que não permitiria esse tipo de gozo”, concretiza o consultor de comunicação.

Villalobos concorda com Bernardo, acrescentando que quando estava no gabinete do vereador João Gonçalves Pereira, do CDS, acompanhou muito o percurso de António Costa enquanto presidente da Câmara de Lisboa.

“Acho que a truculência de Sócrates era genuína no sentido de que aquilo era realmente o feitio dele. Acho que em Costa muito daquilo que transparece, não é efetivamente uma característica intrínseca, acho que faz parte de uma persona que agora decidiu adotar por razões que tenham sido eventualmente ponderadas”, afiança.

À direita, também a IL tem assinalado amiúde a transformação de António Costa no Parlamento.

Rui Rocha, que se candidata à liderança do partido, criticou o Primeiro-ministro na altura da apresentação do Orçamento do Estado.

“Tem tido atitudes muito inaceitáveis nos últimos tempos, está descontrolado, e alguém tem de lhe dizer. A IL está a apresentar propostas sérias e a seriedade das propostas merece a seriedade dos comportamentos”, dizendo que a atitude de Costa “tem contribuído para a degradação do debate democrático, tem sido das pessoas que mais tem contribuído para essa degradação, e é particularmente grave, porque o senhor é primeiro-ministro e com o seu comportamento contribui para a degradação das instituições.

Mas estará o comportamento de Costa a extravasar os limites de urbanidade? Luís Bernardo pensa que não. “Já assisti por diversas ocasiões em que havia membros da oposição que insultavam o Governo e vice-versa, chamando ladrão e usando outras expressões”, recorda.

“Este é o estilo do primeiro-ministro. Sabe-se que ele utiliza a ironia e eu acho que quem é adversário, em vez de sentir magoado ou sentir minimizado, acho que lhe tem de responder à letra”, defende.

Já João Villalobos discorda. Pensa que António Costa está a pisar a linha. “Eu acho que extravasa os limites da urbanidade, apesar de tudo, trata a esquerda de uma maneira diferente. Mas essas atitudes, quer com o PSD, quer com o Chega e a Iniciativa Liberal, é nitidamente de confronto”, assinala.

O fator maioria absoluta também pode não ser despiciendo para entender a mudança, segundo o mesmo especialista. “Acho que é uma atitude, digamos, transversal que passa por uma forma de lidar, estando em maioria absoluta, com os restantes partidos”.

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"Acho que se algum problema este governo tem, não está relacionado com a arrogância de uma maioria absoluta, é sim a ausência total de uma agenda política", Luís Bernardo, consultor de comunicação.

A maioria no Parlamento, na ótica deste consultor, é proporcional ao aumento da arrogância. “Eu penso que sim, penso que se viu isso com Sócrates. Acho que de certa maneira até se viu um pouco isso com Cavaco, nos últimos meses, e acho que se está a ver-se agora com António Costa. É uma posição em que não gostam muito de ser confrontados”, analisa.

Luís Bernardo diz que há sempre uma leitura política que sobrevaloriza a questão da maioria absoluta. Na opinião deste especialista não é isso que mais conta, e afirma ser defensor, que por princípio não se deve estar muito tempo no poder.

“É bom haver alternância política, porque a partir de uma determinada altura há claramente uma tendência para haver o abuso de poder a confundir-se a função com a pessoa”, explica.

Para Bernardo há um problema maior neste executivo de maioria do PS.

“Eu acho que se algum problema este Governo tem, não está relacionado com a arrogância de uma maioria absoluta, é sim a ausência total de uma agenda política que, por norma, as maiorias absolutas permitem e viabilizam”, rematou.

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  • Digo
    25 nov, 2022 Eu 09:54
    O Costa está de peito cheio por ter Maioria Absoluta, e sobretudo por não ver alternativa credível numa Oposição que se porta como franco-atiradora, mas que neste momento, se por qualquer motivo caísse o governo, o PSD, partido natural de alternância, mais não tinha como plano de governação, do que um regresso aos tempos da Troika, com cortes sobre cortes, congelamentos de carreiras, de salários e pensões - é de crer que tenham aprendido alguma coisa com o que lhes aconteceu desde que cortaram pensões e subsidios aos Pensionistas e não repitam a façanha dos cortes cegos, apenas se limitando a "congelamentos", pois de lá para cá, têm andado a apanhar bonés em termos de votação em Eleições. Convenhamos que é muito, muito pouco. Pode dizer-se que o PS pratica a mesma austeridade, disfarçada de "cativações" e um sem número de taxas e taxinhas, tudo disfarçado com torrentes de retórica sempre a recordar os tempos da Troika e a colar o PSD à austeridade esmagadora que aí houve. E no PSD teem-se deixado cair na armadilha em vez de responderem citando os governos Socialistas de Guterres e Sócrates, onde os erros de política económica nos atiraram para a bancarrota. Montenegro rompeu com a inércia estupidificante de Rui Rio, mas o PSD ainda está a anos-luz de ser verdadeira alternativa. Costa sabe-o e goza com a situação.

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