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Afinal, o PAN tem 1.500 filiados. E Nélson Silva está a “ponderar” avançar

23 fev, 2022 - 21:28 • Fábio Monteiro

Após dias de muito ruído, trocas de acusações e até ameaças de processos no Tribunal Constitucional, o número chegou: o PAN tem 1.500 filiados com as quotas em dia. Manifesto que pede eleições tem 170 assinaturas das 300 necessárias. Em declarações à Renascença, Nélson Silva, ex-deputado do PAN, admite estar a ponderar avançar com uma candidatura à liderança do partido.

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O Partido Pessoas, Animais e Natureza (PAN) tem cerca de 1.500 filiados com as quotas em dia. Este número, avançado à Renascença pela direção do partido, surge após dias de muito ruído, trocas de acusações e até ameaças de processos no Tribunal Constitucional.

A demora na divulgação deveu-se à necessidade de “uma análise, de forma a dar um número das pessoas que efetivamente têm condições, enquanto filiados de estar num congresso”, diz Marta Correia, membro da Comissão Política Permanente do PAN. Na realidade, o partido tem 2.500 militantes, mas dois quintos não têm as quotas pagas.

O universo de filiados era exigido pelos subscritores do manifesto “Por um congresso aberto a todas e todos!”, divulgado na semana passada, que defende a necessidade de realizar um congresso eletivo no partido num prazo máximo de cinco meses. Porquê?

Os estatutos do PAN determinam ser necessário que pelo menos 20% dos militantes subscrevam para que haja um congresso eletivo.

Até esta quarta-feira ao final do dia, os impulsionadores do manifesto não sabiam o número de subscritores que tinham de alcançar para conseguir, efetivamente, levar a sua vontade avante. De momento, apurou a Renascença, foram recolhidas perto de 170 assinaturas. Ou seja, o manifesto não atingiu ainda a fasquia necessária.

A 8 de Fevereiro, em entrevista à “SIC”, Inês Sousa Real garantiu que o partido ia realizar um congresso nos próximos meses, mas defendeu que caberá às bases decidir se será para eleger uma nova liderança ou apenas estatutário. A decisão, adiantou, seria tomada após uma auscultação das concelhias – que está a acontecer desde a semana passada.

Na terça-feira, a porta-voz do PAN afirmou que a oposição interna “é uma minoria ruidosa”. Por isso mesmo, Nélson Silva, ex-deputado do PAN e um dos subscritores do manifesto, não deposita muita fé no périplo. “Ao nível estatutário, nada do que está a acontecer na auscultação é vinculativo. Não há atas, votações. E isso demonstra qual vai ser a conclusão final: que é apenas uma minoria que quer o congresso”, diz.

Meses de turbulência

Foi por muito pouco que o PAN não acabou extinto nas legislativas de 30 de janeiro; Inês Sousa Real foi eleita deputada já à vigésima hora, ficou com um grupo parlamentar unipessoal, enquanto em 2019 o partido conseguira cinco representantes.

“Quem disser que não temeu [que o partido não elegesse nenhum deputado], qualquer filiado que não assuma isso, não está a ser honesto. Podia ter acontecido. Ainda bem que não aconteceu, é muito importante. Mas qualquer partido está sujeito, a vontade popular é soberana”, diz Soraya Ossman, deputada municipal pelo PAN em Loures, em declarações à Renascença.

Sem surpresas, as últimas semanas dentro do partido têm sido turbulentas: primeiro, André Silva, antigo líder do partido, defendeu que Inês Sousa Real deveria demitir-se; depois, houve dez demissões na Comissão Política Nacional.

Mesmo Marta Correia, membro da Comissão Política Permanente do PAN, defende que é necessária uma introspeção interna e junto dos filiados do partido. Mas pede uma reflexão “maior” que os “sete meses” da direção Inês Sousa Real. Como exemplo, dá dois comentários que emergiram da auscultação a decorrer: o PAN não ter apresentado um candidato presidencial, “uma decisão tomada ainda pela direção do André Silva”; e a confusão junto do eleitorado que “não percebeu a questão de nós não sermos nem de esquerda nem de direita”.

Fontes ouvidas pela Renascença garantem que a contestação interna à liderança de Inês Sousa Real não começou a 30 de janeiro. Os problemas datam, pelo menos, desde as autárquicas.

“Não nos podemos esquecer que os resultados das autárquicas não foram fantásticos. Aliás, houve uma estagnação. E, em alguns casos, como aconteceu em Lisboa, até perdemos deputados”, recorda Soraya Ossman.

Em setembro do ano passado, foi dada uma “oportunidade” à líder. A falta de “rumo”, porém, “tomou proporções maiores nas legislativas”. De acordo com a deputada municipal de Loures, houve uma “falta capacidade de comunicação da estratégia do PAN”: “as pessoas não conseguem entender onde é que o partido se posiciona, quais são as suas ideias e que visão tem para o país”.

“Todas estas questões devem ser levantadas em congresso, onde podem ser esgrimidos argumentos, não numa auscultação a conta gotas”, entende.

Nélson Silva não se inclui no grupo de pessoas que vê os resultados das autárquicas como “maus”. Mas, defende que, a partir daí, a comunicação interna e externa do partido falhou. E dá um exemplo prático: “Nós, na anterior direção, sempre tivemos cuidado de fazer outdoors com mensagens, não com caras. Desta vez, fizemos o contrário. E associamos muito a cara da porta-voz ao partido.”

Somado a isto, em novembro, Inês Sousa Real foi alvo de uma “clara campanha de difamação”, após ter sido revelado que a deputada e líder partidária era sócia de uma empresa que faz o cultivo de frutos vermelhos em estufas. Resultado: “O partido acabou por afundar com o peso dessa polémica.”

Rainha deposta, rei posto?

Neste momento, já há nomes que circulam dentro do PAN como potenciais sucessores de Inês Sousa Real. O antigo líder André Silva sinalizou estar disponível para um regresso, mas não para voltar a assumir o leme.

À Renascença, Nélson Silva admite estar a ponderar avançar com uma candidatura. “Posso dizer que tenho sido muito desafiado para fazer isso. E é algo que neste momento estou a ponderar seriamente”, diz. O ex-deputado, em todo o caso, lança também o nome de Pedro Neves, representante do PAN nos Açores desde outubro de 2020, uma “pessoa que representaria uma versão unificadora do partido”.

Com demora em divulgar o número de filiados, Soraya Ossman afirma que a direção do partido não ajudou a própria causa: um congresso seria uma oportunidade para o PAN clarificar a sua agenda e não adiar um problema.

“Nós acreditamos em estabilidade, não acreditamos é em passividade e continuar a seguir um caminho que não vai ter frutos. Que não vai chegar àquilo que o partido quer e que o país necessita”, diz.

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