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Reportagem

Investimentos em Sines agravam falta de habitação

24 nov, 2023 - 09:00 • João Cunha

A já existente especulação imobiliária torna quase impossivel alugar ou comprar uma casa na região de Sines. A chegada de cerca de 15 mil funcionários de empresas ligadas ao Data Center e ao projeto de hidrogénio verde vai agravar este quadro. Estará Sines preparada para o que aí vem?

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Numa das mesas de uma pequena esplanada de uma petisqueira no centro histórico de Sines, Catarina Carvalho abana energicamente a caneta com que tenta escrever a ementa do dia, num cartaz que vai colocar á entrada.

Desde o verão que esta licenciada em música ali trabalha, acompanhando de perto a expectativa da população em torno dos projetos de investimento que estão a nascer em Sines e que vão trazer milhares de novos residentes para a região. Mas Catarina questiona-se.

"Para o negócio não será mau, mas será que para a população é bom?".

A questão é pertinente, não estivesse Sines a viver um problema comum a praticamente todo o Alentejo Litoral. Sines já é uma das cidades mais caras no que á habitação diz respeito.

"Para alugar casa temos de pagar 800 euros e isso é uma discrepância, porque nestes pequenos negócios recebemos um ordenado mínimo e nunca iremos conseguir alugar uma casa nesse valor, nem sequer comprar", indica Catarina, que revela que a casa mais barata á venda neste momento "é um T1 e são 90 mil euros. É um bocado..."

Um bocado cara, rematou, sublinhando que já hoje, pelo menos parte da responsabilidade pelo custo excessivo da habitação é de quem vem de fora. De muitos estrangeiros que escolhem a região para investir no turismo rural ou numa casa no campo ou na praia para passar a reforma.

E é para estes e os que vierem que o comércio será direcionado.

" São pessoas com mais posses, que vêm de fora, estrangeiras, e o que acontece é que têm mais posses para comprar casas. E o comércio é mais feito para eles e não para nós".

Ainda assim, espera que os investimentos em curso em Sines possam trazer novas oportunidades aos mais jovens.

"Ter mais hipóteses para nós, os mais jovens. Portugal é como é... Eu sou daqui, tive de sair para estudar, voltei. A minha área é música clássica, o que em Portugal não tem muita saída. Por isso, sim, é esperar para ver o que dá para nós".

O ruído do rodado de dois carrinhos de bebé a circular na calçada interrompe por momentos a conversa.

Diana Almeida segue com uma amiga, também ela mãe recente, a caminho do Miradouro com vista para a baia de Sines. Já num acesso pedonal ao lado do Castelo, junto à estátua de Vasco da Gama, filho da terra, também destaca a importância admite que o importante é que os novos projetos criem postos de trabalho. Ainda que saiba que muito provavelmente serão os que virão de fora que vão ocupar a maioria desses postos de trabalho, como por exemplo no Data Center ainda em construção - que apesar das recentes polémicas, espera que não seja travado.

"A expectativa é que eu acho que isto vai continuar a andar. Vai haver trabalho, sim. Mas muito dele para pessoas de fora. Ainda para mais porque haverá poucos com formação para trabalhar num Data Center. Há-de requerer muita gente com ensino superior e formação específica. E serão muitos os que virão para cá".

Lucia Moniz, amiga de Diana, também empurra um carrinho de bebé. Também ela espera que passe a existir mais emprego. Mas a sua principal preocupação é a já real falta de habitação.

"As casas estão a um preço exagerado e as que há são para os trabalhadores que vêm para estes negócios que eles andam a fazer. Nós queremos alugar uma casa não conseguimos. Eu falo por mim: com a idade que tenho quero comprar uma casa e não consigo".

Já conseguiram, há uns anos, quando casaram, comprar uma casa em Sines. Quando era possivel comprar habitação. Elsa e Pedro Carabineiro acabam de tomar o pequeno almoço num café da zona histórica da cidade, antes de começar mais um dia de trabalho e depois de elogiarem o tabuleiro repleto de fatias de uma torta de aspeto maravilhoso que uma funcionária acabou de colocar na montra, para gáudio de muitos.

Quando ouviu o anúncio do investimento nos recentes projetos a desenvolver em Sines pensou imediatamente no desenvolvimento da região e na criação de emprego.

"O sentimento na altura foi que trouxessem mais postos de trabalho para Sines, mais gente, mais investimento e mais desenvolvimento".

Mas agora, "com esta polémica toda, talvez agora esses projetos fiquem um bocado parados. Esperemos que não".

Pedro, marido de Elsa, também espera que os projetos em curso na região se mantenham. E assim sendo, deixa um desejo.

"Que haja oferta habitacional. Há escassa oferta, as pessoas já se deslocalizam para outros locais. Em Sines, faz falta habitação. Se vamos trazer para cá muita gente, tem de haver oferta. Se vêm para cá mais 15 mil pessoas, que é a população atual de Sines, nós temos de fazer alguma coisa em relação a isso".

É fundamental que assim seja, diz Antonio Braz, vereador da Camara de Sines, sem pelouro atribuído.

"A cidade de Sines não está claramente preparada para receber de forma permanente mais 40 ou 50 por cento da população que tem hoje, e tem de se criar essas condições a vários níveis. Esse é um dos problemas que compete muito ao poder local".

Falta planeamento

"Tudo o que vier é um acréscimo e seria bom para o comércio", admite Alexandre Matos, presidente da delegação de Sines e Santiago do Cacém da Associação de Comerciantes do Distrito de Setubal. Porque são investimentos que trazem "mais gente e supostamente mais consumidores. O Data Center, segundo se ouviu falar, irá trazer quadros qualificados. Pessoas com mais poder de compra. O que seria bom para a região".

Quanto ao "boom" de projetos em curso e na calha, vão impactar a região alentejana em termos económicos e sociais, mas também aumentar as necessidades de habitação no concelho.

Por isso, Alexandre Matos considera que "devia ter havido um planeamento mais atempado na questão da habitação". E dá um exemplo: há uns anos, "quando se começou o Complexo de Sines, começou-se por fazer os novos bairros - como Vila Nova de Santo André - onde se construiram bairros pré-fabricados para alojar osfuturo trabalhadores do complexo de Sines. Neste caso, acho que isso não foi previsto".

O municipio aprovou há dois anos uma Estratégia Local de Habitação, que visa sobretudo solucionar problemas de agregados familiares em situação habitacional indigna. Mas há vários projetos urbanísticos em carteira, para habitação, turismo, construção nova e reabilitação. Só que ainda não saíram do papel.

Novo rumo

Sines viveu nos últimos 50 anos o ciclo dos combustíveis fósseis. Um ciclo poluente, que acabou, sublinha o vereador António Braz, eleito pelo Movimento Maisines. A agenda da transição energética trouxe novos investimentos, ambientalmente mais sustentáves, bem vistos pela população e pelos agentes políticos. "Eu entendo que este é o futuro de Sines para os próximos 50 anos. Tivemos meio século do ciclo dos combustiveis e iriamos - e vamos - entrar numa nova fase. Nem se coloca a questão de projectos como o Data Center e o hidrogénio não virem para Sines", assegura o autarca, que justifica.

"Estes investimentos virão para Sines, tenho a certeza que virão, dada a sua importância, magnitude e o ponto de maturação que já estão. Nem queremos pensar que possa ser de outra forma. Isto é a continuidade do que existiu, agora melhor porque diversificado e menos poluente".

Projetos que podem contudo sofrer algum adiamento, devido ás recentes polémicas "que irão criar um "delay" em relação ao que estava previsto".

Para António Braz, "o primeiro semestre de 2024 vai ser muito inferior ao que se previa. Vai haver aqui algum adiamento, alguma retração até de alguns investidores. Já se começou a perceber que haverá auditorias, revisão de projetos, penso que haverá maior atenção à questão ambiental". Por isso, considera que haverá alguma paralisação, até do ponto de vista dos licenciamentos, no sentido de rever de novo para ver se está tudo bem".

Nestes e em outros projetos que estão na calha: uma empresa chinesa reservou 90 hectares de terrenos em Sines para a instalação de uma fábrica de baterias de lítio, o projecto do aço verde, o crescimento do Porto de Sines, o investimento da Repsol na expansão da atividade, tal como a GALP, no hidrogéneo.

Em Julho deste ano, o então Ministro das Infraestruturas, João Galamba, garantia que a revisão do quadro legislativo para os portos previa disposições sobre habitação, através de parcerias com entidades como a Câmara Municipal de Sines, para promover a fixação de trabalhadores. A revisão ainda estará a ser preparada.

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  • Pedro Carabineiro
    24 nov, 2023 Sines 22:08
    😂 perguntem ao repórter João Cunha se também não ficou impressionado pelas fatias de torta naquela pastelaria! O próprio assumiu que estavam maravilhosas! Não é só dizer "para gáudio de muitos". Foi para ele também! 😂 Um abraço e obrigado pela pequena reportagem, foi um prazer colaborar 😁. E João, vai aparecendo na Pastelaria Vela D'Ouro 😂

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