Reportagem

​Governo vai apoiar respostas “inovadoras” no envelhecimento

21 dez, 2022 - 23:20 • Ângela Roque

Ana Mendes Godinho confirma à Renascença que em janeiro a Segurança Social vai começar a comparticipar instituições que já marcam a diferença no apoio aos mais velhos, mas que até agora não têm tido apoio estatal. É o caso da associação ‘Mais Proximidade’, que acompanha 120 utentes que vivem sozinhos na baixa de Lisboa e na Mouraria, e que esta quarta-feira levou a ministra numa “visita de Natal” a duas das idosas que acompanha.

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A Segurança Social vai avançar em janeiro com novos apoios a instituições que tenham respostas “inovadoras” para o envelhecimento. Em declarações à Renascença, a ministra Ana Mendes Godinho explicou que para além da ajuda que será dada através do PRR – para pequenas obras e apoio domiciliário aos idosos -, vai alargar-se o financiamento a projetos que já existem, e são fundamentais, mas que até agora não têm sido apoiados.

“A Segurança Social passará a comparticipar respostas inovadoras não típicas, ou seja, que não passem por lares ou apoios domiciliários típicos, permitindo que sejam as próprias instituições a customizarem os serviços que prestam, e que não têm de estar num catálogo pré-definido pela Segurança Social”, indicou.

O apoio ficará disponível no início de 2023. “Confesso que esperava que já tivesse sido este mês, mas tem sido muito intensa a necessidade de resposta, nomeadamente no âmbito dos vários concursos abertos no PRR", referiu a ministra, que espera que abra em janeiro. "Haverá o PRR, para pequenas obras e apoio domiciliário, e também este, para respostas inovadoras para envelhecimento”.

Ana Mendes Godinho falava à margem da visita que hoje efetuou a duas idosas na baixa de Lisboa e na Mouraria, ambas utentes da associação ‘Mais Proximidade’, que será uma das candidatas ao novo apoio. Rita Roquette, da associação, disse à Renascença que o financiamento do Estado é fundamental para manter o acompanhamento que fazem e, quem sabe, vir a alargá-lo a mais utentes.

“Isto para nós, de facto, é uma boa notícia. Todos sabemos que o terceiro setor vive de doações e subsídios, e aproximam-se tempos que não são fáceis. Temos notado um decréscimo ao nível de doações. Ao nível do Estado, temos apoio da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, é o único apoio público que recebemos, por isso, este programa que vai abrir em janeiro vai-nos permitir ter outra sustentabilidade, que nos possa vir a fazer sonhar e, quem sabe, um dia fazer crescer a organização e ter mais pessoas a beneficiar do nosso acompanhamento de proximidade”, afirmou.

Atualmente a associação ‘Mais Proximidade’ acompanha 120 idosos da Baixa de Lisboa e Mouraria. A média de idades é de 85 anos e são na maioria mulheres (80%). Em 2022 a associação fez mais de duas mil visitas ao domicílio e 600 acompanhamentos a consultas e exames médicos, o que significou “um grande aumento, de 30 por cento”.

“Sentimos que esta necessidade de apoio a nível da saúde e bem-estar é cada vez mais premente. As pessoas que acompanhamos são as mesmas que eram há 10 anos, mas devido à sua idade as patologias são cada vez mais evidentes”, sublinhou Rita Roquette, explicando que fazem “desde a marcação da consulta, à sua preparação e acompanhamos as pessoas ao médico, porque muitas ou não iam por falta de mobilidade, ou quando iam sozinhas, não era eficaz, porque não se lembravam bem”.

Foi por isso que em 2019 criaram o projeto ‘Regresso a Casa’, com financiamento da Fundação Gulbenkian, para dar resposta à necessidade crescente de apoiar a população idosa que fica ainda mais sozinha e frágil em situação de doença.

O projeto foi desenvolvido em colaboração com o Centro Hospitalar de Lisboa Central e com os Serviços Sociais, que encaminham “pessoas idosas em situação de solidão e isolamento, e que muitas vezes estão a ocupar uma cama no hospital por não terem quem os acompanhe na alta”.

Na associação trabalham nove profissionais das áreas de gerontologia, serviço social, psicologia e comunicação, e 50 voluntários, que “asseguram visitas domiciliárias, contactos telefónicos de acompanhamento, outros vão passear com as pessoas, o que é importante para não perderem a mobilidade nem o contacto com o exterior, e vão com eles às consultas e exames médicos”.

Esta quarta-feira duas idosas utentes da associação receberam a visita da ministra: Amélia Pinheirinho, que vive na baixa, e Nadine Pinto, residente na Mouraria.

“A minha alma agora está muito doente”

Amélia Pinheirinho tem 98 anos, “quase 99”, e uma energia contagiante. Já esperava a visita da ministra, a “doutora” como prefere chamar-lhe. “Só Ana, nem pensar!”, porque “ministra, um dia deixa de ser, doutora não”, explicou.

Amélia, que gosta de pintar, e na sua longa vida trabalhou em publicidade, não escondeu que nesta quarta-feira está triste. "A minha alma agora está muito doente", afirmou. O marido, António Pinheirinho, foi internado na véspera, em São José, e no Natal provavelmente não o vai ter em casa. A confiança permitiu-lhe um desabafo a quem faz parte do governo: “ele está lá nas urgências do hospital de São José, não há meio de ter lugar. Já viu a que ponto chegou isto tudo? Não há camas, não há nada. Está à espera de uma vaga”.

Amélia falou da importância de ter apoio domiciliário e de ser também acompanhada pela associação ‘Mais Proximidade’. “A Maria João Xavier (psicóloga) vem sempre ter comigo para conversar”. Contou que ontem pediu-lhe que comprasse uma flor para a ministra. “Gosto tanto de orquídeas. Já viu que linda? E tão alta, cresceu tanto!”. Ana Mendes Godinho garantiu que a vai p|or no seu gabinete.

“A Dona Amélia é uma lição de vida. Mostra-nos a importância de nunca baixar os braços. É uma mulher rija, um exemplo de uma mulher extraordinária, independente”, afirmou.

No final da conversa longa e sem pressas, a ministra comprometeu-se a voltar em 2023, e a manter o contacto. “Telefone-me Dona Amélia. Ou quando eu lhe ligar tem de me atender, combinado?”.

“Tem de me ir ver ao hospital!”

A segunda visita fica a 10 minutos de distância a pé, atravessando a baixa até à vizinha Mouraria, onde Nadine Pinto, de 75 anos, vive num quinto andar sem elevador. Recebeu a ministra sorridente. “Já o ano passado esteve cá”, contou.

Ana Mendes Godinho quis inteirar-se dos apoios que esta utente recebe, e confirmou junto dos serviços que vai mesmo ter direito ao apoio extra de 240 euros, que será pago ainda esta semana. “A senhora é o meu barómetro dos apoios, para eu perceber se as medidas estão a chegar às pessoas, se resulta ou não resulta”.

Com problemas de saúde, e pouca mobilidade, a ajuda da associação ‘Mais Proximidade’ tem sido fundamental para Nadine, que está à espera de ser operada, mas para isso tem de emagrecer, e está a esforçar-se para conseguir. “É tudo magro agora, até o queijinho é magro!”, referiu, com bom humor. Este ano, mesmo sozinha, vai comer borrego no Natal. “Não é costume, mas estava-me a apetecer".

A visita não terminou sem a partilha da receita, e uma troca de presentes: Nadine ofereceu uma planta de Natal, e recebeu um bolo-rei e a promessa de uma nova visita de Ana Mendes Godinho. “No próximo ano liga-me e diz ‘está na hora de vir cá’, está bem?”, disse-lhe antes de sair, ouvindo na resposta “mas, também tem de me ir ver ao hospital”. “E vou!”.

“Isto é que foi uma visita, e a energia que nos dá!”, sublinhou no final a ministra, que agradeceu o convite da associação. À Renascença, Ana Mendes Godinho disse que esta “é uma forma de perceber a importância destas respostas no combate ao isolamento".

"Sabemos a evolução demográfica e temos de encontrar novas formas de responder às necessidades, e estes projetos conseguem assegurar o acompanhamento diário das pessoas. Levam-nas ao médico, a fazer exames, a fazer compras, garantem que se mantêm ligadas com o mundo exterior. A nossa aposta deve ser cada vez mais neste tipo de parcerias”, sublinhou.

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