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Banco Alimentar. Estar aqui e ajudar enche-nos o coração, dizem voluntários

28 nov, 2022 - 07:27 • Ana Carrilho

Mais de 40 mil voluntários participaram este fim de semana na campanha de recolha de alimentos. Para muitos foi uma estreia e querem repetir a experiência. Vontade e disponibilidade é o que não falta a todas estas pessoas que estiveram nos super e hipermercados, transportaram os bens para os armazéns, pesaram, fizeram a divisão e arrumaram. Sozinhos ou em grupo participaram na campanha sob o lema “Juntos vamos alimentar a Esperança”. A Renascença acompanhou os trabalhos em Alcântara.

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As carrinhas, carregadas de enormes caixas de plástico verde, com centenas de quilos de alimentos não param de chegar à sede do Banco Alimentar, em Alcântara (Lisboa). A maior parte é de instituições, associações, empresas. Depois de estacionadas, assiste-se a uma espécie de dança de empilhadores que levam as caixas, com a identificação da proveniência, até à porta do armazém. Passam depois para a primeira balança e seguem para junto da passadeira, onde trabalham dezenas de pessoas em simultâneo, sob a orientação de diversos chefes de mesa.

É aí que é feita a separação: massas e massinhas, arroz, leite, azeite, bolachas, leguminosas em lata, esparguete, atum, salsichas entre outras categorias. Nalguns casos, são acondicionados em caixas de cartão e fechadas.

Devidamente acondicionadas, seguem para uma segunda pesagem, agora, por categoria. Foi assim que a Renascença soube que às 5 da tarde de domingo, o Banco Alimentar de Lisboa já tinha recebido 68 toneladas de leite e 67 de arroz, os dois produtos (sempre) mais pesados nas contas totais. A última viagem faz-se até ao armazém, onde os alimentos ficam devidamente acondicionados até seguirem para as instituições que, posteriormente, os fazem chegar a mais de 400 mil pessoas carenciadas.

Todo este trabalho se faz ao som de música (Xutos e Pontapés é uma das bandas mais passada), de empilhadores que circulam e de condutores que gritam constantemente “cuidado com os pés” ou buzinas. E claro, com algazarra constante, muito especialmente na zona central da sala, onde está a instalada a passadeira.

No sábado à tarde, altura em que o Presidente da República fez a habitual visita às instalações, havia mais gente, filas de voluntários à espera de iniciar o seu turno. Ainda assim, tudo correu sobre rodas.

Uma festa de Natal diferente

Num cantinho bem mais sossegado, a Renascença encontrou alguns voluntários num trabalho especial: a recuperação dos sacos de papel para novas recolhas. Retirados do cesto onde são depositados depois de despejados, são recolhidos, alisados e com um toque final de uma régua, ficam como novos.

Foi a tarefa que coube a João e aos colegas, trabalhadores de uma empresa de peças de automóveis. Quase todos (cerca de trinta) aceitaram o desafio da administração de fazer voluntariado durante o dia no Banco Alimentar, antes de seguir para o jantar de Natal da empresa, em Bucelas. Para João foi uma estreia e confessa que se sente “de coração cheio por estar a ajudar pessoas que precisam”.

Muito poucos metros à frente, está Andreia, de 21 anos. Também é uma estreante e encarrega-se de acondicionar as centenas de frascos de leguminosas cozidas numa grande caixa de arame. Veio por sua própria iniciativa porque considera que se torna cada vez mais importante ajudar os mais necessitados. Tem a certeza de que “se alguma vez precisarmos, receberemos de volta”.

Mais à frente, João (14 anos) e Joana (20 anos) arrumam os pacotes de massinhas para sopa em caixas de cartão. “Se é preciso e se temos disponibilidade, fazer voluntariado é sempre um tempo bem empregue. Aqui no Banco Alimentar ou noutros sítios”, refere Joana, que não é a primeira vez que participa em campanhas.

A riqueza está muito mal distribuída

Finalmente, chegámos a um ponto mais sossegado. Nalgumas caixas mais pequenas pode ver-se fruta, iogurtes, chocolates, leite do dia, ovos e até sandes ou uma pizza pronta a cozinhar. Tudo alimentos que têm de ser consumidos de imediato ou nos próximos dias. São os chamados perecíveis, que aparecem em muito pouca quantidade; ainda assim, a necessitar de atenção especial.

Se muitas famílias já têm dificuldade em se alimentar, pior será arranjar comida para os seus animais domésticos. Por isso, também há uma caixa destinada à comida para cães e gatos. É aqui que conhecemos Carla.

“O Banco Alimentar é uma bênção, é a possibilidade de alimentar tanta gente que não tem o suficiente para poder pôr comida na mesa ou para se alimentar mínima e decentemente”. Aos 65 anos, é reformada e diz “ter tempo e disponibilidade para ajudar o próximo”. Mas Carla não deixa de apontar o dedo a “gente que tem tanto dinheiro, que podia ajudar quem precisa e não o faz. A riqueza está muito mal distribuída”, desabafa. “Se a riqueza fosse distribuída de forma mais justa existiriam menos pobres e menos fome. O Banco Alimentar teria menos importância, o ideal é que não precisasse de existir”.

Ao pé desta voluntária está José do Carmo. Tem 82 anos e voltou ao Banco Alimentar depois de um intervalo de oito anos. Não esconde a alegria: “Tanta gente nova, é maravilhoso. Tanta alegria, ainda nos dá mais vontade de estar aqui”.

José elogia a organização, que ajuda muito a que todos trabalhem sem confusão. À sua bancada chegam alguns produtos cujas embalagens precisam de um remendo: um pacote de arroz, de massa ou de farinha que se abre, tudo produtos secos. O curativo é feito com fita cola, deixando o pacote em condições de seguir o seu caminho. Se estiver rebentado, então tem de ser rejeitado. Mas isso acontece raramente.

Brincadeira ensina os mais pequenos a ser solidários

José do Carmo estava maravilhado com a presença de tanta juventude. Muitos escuteiros dos agrupamentos da Grande Lisboa, cadetes da Academia Militar, do Exército e da Marinha, grupos de alunos ou de amigos, de instituições e associações. E não viu os mais pequenos!

Esses estavam noutro armazém – por sinal, aquele a que o tornado de 8 de novembro roubou o telhado, que os militares do Regimento de Engenharia nº1 reconstruíram em quatro dias.

Cerca de 300 crianças, dos seis aos nove anos, participaram na Campanha Júnior. Tal como os mais crescidos, também tinham de separar os alimentos por categorias e acondicioná-los. Tudo isto feito no meio de jogos, brincadeiras, música e até trabalhos numa mini-horta.

A pequena Laura foi com a avó e dedicou-se à rega. Muito tímida, admitiu não saber ainda muito bem para que era aquilo tudo. O que não acontece com Simão, Francisco e Lucas que, em disputa pelo microfone da Renascença declararam estar ali “para ajudar a distribuir comida para muitas pessoas não passarem fome”. Foram os pais que tiveram a ideia, os levaram e já se dizem prontos para repetir.

Maria é mãe do Jorge, aluno do Colégio Valsassina e a participação em ações de voluntariado não é inédita. “Achamos a ideia muito boa, é uma forma de aprenderem que há gente que tem dificuldades que eles, felizmente, não passam. É bom ajudarem e saberem ajudar os outros. No meio de tanta brincadeira, aprendem a ser solidários”.

Animação não faltou e muito especialmente, ao fim da tarde de sábado, com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, que iniciou a visita, precisamente pelo armazém onde estavam os mais pequenos. No meio das habituais e incontáveis selfies, o Presidente ficou a saber o que já tinham feito e o estavam a aprender com a experiência. Não saiu sem passar pela horta e fazer uma plantação de cebolas.

Participar para retribuir a ajuda

Sofia Gonçalves é cuidadora do apartamento para a autonomia da Casa de Acolhimento Maria Droste, uma instituição beneficiária do Banco Alimentar. Mas hoje, como voluntária, Sofia vestiu a pele de motorista e ao longo dia, com quatro utentes da instituição, fez a recolha de bens em três supermercados de Lisboa. “É muito importante estarmos a participar: recebemos ajuda e agora também estamos a ajudar. É muito importante para elas conhecerem o outro lado”.

Opinião partilhada por Carol (nome fictício) que revelou estar ali “com muito gosto porque muita da ajuda que recebemos nas nossas casas vem daqui”. Depois de uma visita guiada às instalações, voltaram ao transporte para nova ronda de recolha nos supermercados.

Atarefado, mas ainda assim, com um minuto para a Renascença, andava Miguel. “Faço o que é preciso, hoje estou a fazer o transporte da balança (das caixas com alimentos categoria) para o armazém.

Revela que é a primeira vez que participa numa campanha, mas já conhece o banco Alimentar desde maio de 2020, “em serviço comunitário, para pagar uma dívida à sociedade”. Vinha duas vezes por semana, mas terminada a obrigação, Miguel continuou como voluntário duas vezes por semana, “conforme as necessidades”. Não esconde a satisfação e a surpresa com a quantidade de voluntários que por ali passaram nestes dois dias. “É completamente diferente do dia-a-dia, é fantástico”.

São dias muito diferentes em que o trabalho deverá prolongar-se pela madrugada. Há hipermercados a fechar à meia-noite, para conseguir pesar tudo o que chega, não vamos sair daqui antes das 3 da manhã”, dizia Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar, à Renascença.

É emocionante, há mais gente a contribuir

Às 7 da tarde do segundo dia da campanha, os 21 bancos alimentares do país tinham recolhido 1.511 toneladas de alimentos. Ou seja, um valor já próximo das 1.600 toneladas angariadas há um ano.

“É fantástico, uma coisa muito emocionante, ver que apesar dos tempos de crise, há uma solidariedade reforçada. Sentimos que os portugueses conhecem situações próximas de carência e não quiseram deixar de contribuir. Antes da campanha tive receio que houvesse sacos menos cheios e menos sacos. Mas o que vemos é que talvez haja sacos um bocadinho menos cheios, mas há muitos mais sacos, houve mais pessoas a contribuir”, admite Isabel Jonet.

A presidente do Banco Alimentar refere que é uma quantidade enorme e produtos, que (nos) vai permitir aguentar até maio (altura da próxima campanha), fazendo uma gestão por tipologia de produtos e necessidades das instituições.

No Natal há sempre ais um miminho

Leite, arroz, massas, azeite, óleo, atum, salsichas, cereais; na prática, alimentos não perecíveis. É o que o Banco Alimentar pede e é o que os portugueses mais doam. Mas na campanha de novembro, já perto do Natal, vão aparecendo outros produtos: bacalhau, chouriços, chocolates (“muitos pais natal de chocolate), leite condensado, fruta em lata, doces.

“Sente-se que as pessoas que estão a dar querem que as pessoas que recebem tenham na mesa aquilo que elas vão ter ou gostariam de ter. É uma campanha de partilha e aquilo que pedimos às pessoas é que partilhem aquilo que vão comer nas suas casas. Dão o que Banco Alimentar pede, mas muitas pessoas dão também um miminho que gostavam que os seus filhos também tivessem”, diz Isabel Jonet.

Campanha on-line e Ajuda-vale representam quase 15% do total

“A campanha-saco ainda é a mais importante porque as pessoas gostam de entregar um bem físico ao voluntário e em troca, receber um obrigado e um sorriso”, diz a presidente do Banco Alimentar.

No entanto, as campanhas on-line e com vales estão a ganhar cada vez mais peso, “já representam 15% da campanha-saco e têm vindo a crescer bem, especialmente no on-line”.

Isabel Jonet revela que a maioria destes contribuintes são portugueses a viver em Portugal, mas também há muitos que estão fora (emigrantes) e querem ajudar aqueles que passam por maiores necessidades no seu país.

Por outro lado, estas modalidades têm interesse para a organização já que permite gerir melhor as necessidades, os prazos de validade e o espaço nos armazéns. “Por exemplo, recebemos muito leite e para nós é muito conveniente, daqui a dois meses, poder comprar o leite que nos foi doado através dos vales ou pela campanha on-line. E assim também não ocupa tanto espaço nos armazéns”.

Aliás, até ao fim da próxima semana, esta duas modalidades continuam disponíveis. É possível adquirir vales nas caixas do supermercado ou fazer o donativo em https://www.alimentestaideia.pt.

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  • fernando
    29 nov, 2022 almada 05:39
    moro em almada estou incapacidado 918=405=032

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