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​Entrevista a Miguel Miranda

IPMA avisou, “mas estava tudo tão seco que para o fogo é palha”

16 set, 2022 - 08:00 • Celso Paiva Sol

Presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera reconhece que 2022 está a ser um ano complicado e avisa que, sem água e sem um controlo efetivo das emissões de CO2, a tendência será de agravamento.

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O presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) garante que todas as entidades envolvidas na prevenção e combate aos incêndios foram avisadas com bastante antecedência das ondas de calor de julho e agosto.

Em entrevista à Renascença, Miguel Miranda diz que o problema não foi a falta de preparação, mas antes a conjugação da seca extrema com um calor inédito em todo o país.

Por isso, considera que não podem ser atribuídas responsabilidades ao sistema de combate, porque o problema está nos efeitos do clima num território desorganizado.

Reconhece que este foi um ano complicado - o pior depois de 2017 - e avisa que, sem água e sem um controlo efetivo das emissões de CO2, a tendência será de agravamento.

Tecnicamente, como é que caracteriza meteorologicamente o ano de 2022?

Eu diria que, após 2017, foi o ano mais difícil. Saímos de 2021 com uma boa parte do país em seca, e entramos em 2022 com pouquíssima precipitação. E tudo se encaminhava para uma situação semelhante à de 2005, um ano que também foi muito seco e que teve muitos incêndios já depois do verão.

O que é que marca 2022? A falta de água. Nós não temos água no solo, as plantas, e toda a agricultura e silvicultura estão em stress hídrico em praticamente todo o território. Nas barragens, para fins de produção de energia ou para fins de abastecimento público, íamos chegando a níveis mínimos.

Portanto, se me pergunta se foi um ano em que tivemos mais tensão sobre o que poderia acontecer no dia seguinte, sim, 2022 foi dos piores anos.

Ano após ano vai-se notando um agravamento. Pode falar-se num padrão de evolução?

Esse padrão já está definido há bastante tempo. A taxa de agravamento desse padrão é que nos está a surpreender a todos.

Os grandes incêndios de 2017 foram há cinco anos, e nessa altura, face à incompreensão manifestada por toda a Europa, foi tudo atribuído no essencial à desorganização da floresta portuguesa.

Em 2022 tivemos incêndios que se estenderam de Lisboa à Roménia, e toda a bacia do Mediterrâneo está numa situação similar. Mesmo nos países que têm uma agricultura muito desenvolvida, porque têm condições geológicas e climáticas diferentes das nossas, mesmo esses países começaram a ter incêndios de grandes dimensões.

Em Espanha houve um incêndio considerado inextinguível, tiveram que deixá-lo arder até ao fim, porque a temperatura era demasiadamente elevada.

Quando isto acontece, quer dizer qualquer coisa, tem que nos dizer qualquer coisa, e independentemente das faltas, das falhas, dos erros, mesmo de planeamento, independentemente da história, nós estamos num padrão de aquecimento e de perda de água em toda bacia do Mediterrâneo.

E este padrão vai-se agravar. Nós vamo-nos adaptando, mas, eu lamento dizê-lo, essa adaptação será sempre mais lenta que a progressão dos efeitos. Andaremos sempre a correr atrás do prejuízo. Atenção que isto veio para ficar, e já agora, 2022 ainda não acabou.

"Não sei se a maioria das pessoas percebeu [a dimensão da seca], porque continuaram a abrir e a fechar a torneira com a mesma desfaçatez"

E isto são as alterações climáticas?!

Sim, se bem que eu prefiro chamar-lhe mudança climática, que é a tradução portuguesa do “climate change”. Vamos passar de um clima para o outro. Mas, atenção, nós vamos passar de um clima para o outro se conseguirmos controlar as emissões de CO2, porque se não as conseguirmos controlar – que é o que está a acontecer agora – nós vamos passando sucessivamente de um clima para o outro, para outro, para o outro, para o outro.

Portanto, pararmos esta mudança num sítio qualquer exige estacionar pelo menos as emissões de CO2. Há muita declaração de intenção, muitos desejos, mas o teste do algodão não engana, os equipamentos não mentem, a concentração de CO2 na atmosfera continua a subir.

E uma das consequências é a seca, o que para Portugal é um dos maiores problemas.

Sem dúvida. Um dos fatores que está por trás dos incêndios, é a seca, e esse é um problema estrutural porque tem a ver com a forma como funciona a atmosfera. E portanto, a seca acaba por ser um risco coletivo estrutural maior do que os incêndios florestais. Nos incêndios podemos muscular o combate ou desenvolver ações de reorganização do território, e isso está nas nossas mãos, mas no caso da seca, francamente, não está nas nossas mãos.

E como é que está a nossa seca?

Esta semana (depressão Danielle) trouxe precipitação na ordem dos 20 a 30 milímetros na totalidade do território, o que é fantástico.

Nós precisamos desesperadamente desta água. Chegámos muito perto do fim da capacidade de armazenamento. Passamos por uma situação extrema. Não sei se as pessoas compreenderam o enorme esforço que foi feito pelos gestores da água, pelas autarquias, por todas as entidades que gerem o abastecimento de água, tanto para as pessoas como para a agricultura. O esforço foi titânico. Não sei se a maioria das pessoas percebeu isto, porque continuaram a abrir e a fechar a torneira com a mesma desfaçatez.

Para quem, como eu, está sempre a ver os números, ver que se continua a regar relva durante o dia em cidades, para efeitos apenas de vaidade e de exibição, é realmente um bocadinho avassalador.

Falemos da avaliação de risco, enquanto ajuda ao combate. Que informações é que o IPMA fornece ao sistema?

O IPMA é apenas o polo nacional de uma rede mundial que segue o planeta em todas as suas áreas. E trabalhamos de uma forma completamente transparente, e, nos anos mais recentes, também de uma forma completamente aberta. O que nós sabemos, transmitimos. Toda a informação que damos aos decisores políticos, também damos aos cidadãos. Isso é palavra de honra.

Fornecemos previsões: de precipitação, de temperatura, de humidade - em todos os parâmetros. E devo dizer que nos últimos dois anos, a capacidade que todos os atores têm para usar informação técnica complexa, tem aumentado de forma fantástica.

Em 2017, por exemplo, os atores estavam essencialmente preocupados em saber se ia chover amanhã ou depois, e agora temos essas organizações capazes de gerir coisas como o perfil vertical do vento, a altura da camada limite, índices de instabilidade, toda a parafernália que a ciência e a investigação têm criado nos últimos anos, é hoje em dia usada por esses atores.

Mas este ano ficou a sensação de que o sistema de combate foi surpreendido pelos acontecimentos – nomeadamente pelas ondas de calor de junho e agosto. Apesar de tudo, ainda faltou essa ajuda.

A sobreposição de uma seca prolongada com ondas de calor não é vulgar e, portanto, é mais uma prova que a natureza nos surpreende sempre.

Mas ondas de calor foram previstas com muita antecedência, e muito bem. Foi outra coisa que este ano foi diferente para melhor, face ao passado. Todos os sistemas foram seguidos com muita antecedência por todos os atores, foi comunicada que a probabilidade estava a aumentar.

Nós temos que interiorizar que existem condições reais para que muitas ignições se possam transformar em grandes incêndios. Chegamos a um ponto em que a cobertura vegetal estava tão seca, que eu duvido que houvesse uma grande diferença se a plantação era de eucalipto, de pinheiros ou do que quer que seja, porque estava tudo tão seco que para o fogo é palha.

As ondas de calor foram muito bem previstas, mas desde quando é que as pessoas se lembram de terem 47 graus no Pinhão? Ou de temperaturas acima dos 40 graus em todo o território do continente? Não há memória disso, porque isso nunca aconteceu.

Ainda assim, insisto. Aquilo que aconteceu este ano fez realmente lembrar 2017. Não se pode dizer que correu tudo bem.

O problema é que toda a nossa área rural e silvícola tem um nível de organização que é o mais difícil possível para os meios atuarem.

Quem dirige a operação de um grande incêndio tem que decidir onde é que põe os meios, se vai salvar as pessoas, salvar as casas, atacar o fogo. Essa decisão é uma decisão que pode ser mais ou menos inteligente, mas eu nunca serei daqueles treinadores de bancada depois do jogo. Porque a natureza não é um laboratório

Podemos olhar para as coisas boas, dizer que o número de vítimas foi reduzido, o número de habitações foi pequeno, mas quando temos uma situação como esta não há dispositivo de nenhum tamanho, nem estratégias que sejam imbatíveis.

A utilização do conhecimento no ataque ao fogo tem margem para progredir, e irá progredir seguramente, e iremos ter cada vez menos fogos, mas é preciso mudar a organização do território.

E com este contexto climático, tão imprevisível, não está na altura de mudar os planos de combate? Não seria melhor termos um plano operacional para as alterações climáticas, e não apenas para cheias ou incêndios?

Mas nós não podemos pedir aos senhores que gerem o trânsito, que resolvam os problemas da mobilidade. Da mesma forma como não podemos pedir aos bombeiros e aos técnicos da Proteção Civil que resolvam o problema da ocupação do território.

Há problemas nacionais que têm que ser analisados de uma forma desapaixonada, porque a paixão nem sempre é um bom condimento para as decisões. E um deles tem a ver com a forma como utilizamos este território a que chamamos Portugal. Temos uma enorme tendência de dizermos que o problema é dos outros, e o outro grande defeito é que tudo se resolve se à nossa corporação forem dados mais meios.

E eu acho que 2017 tem mesmo que ser pensado, e fora das culpas. Aliás, deixa-me profundamente indignado andarmos a ver se a culpa é do autarca ou do comandante de bombeiros.

Mas não me respondeu. Do ponto de vista da resposta às emergências, não é preciso um plano adaptado à realidade?

Claro que se pode sempre fazer melhor. Se me pergunta se o problema está no combate, não, o problema não está ali. Os homens da Proteção Civil, quaisquer que eles sejam, apenas fazem uma coisa, que é ganhar tempo. Tentam dar-nos tempo. O que é que nós temos feito a esse tempo? Muito pouco.

Eles só nos estão a dizer: “têm mais um ano, mais dois anos, mais três”, e nós vamos tentar minimizar as perdas. Vamos tentar ser mais eficientes, ter mais conhecimento na ação.

Mas isso é apenas tempo. Não estão a fazer nada estrutural. Mesmo a limpeza dos terrenos, é apenas ganhar tempo. Dois anos depois o mato já cresceu todo outra vez.

Este ganhar de tempo é muito curto, e se a mudança acelerar da forma como parece que vai acelerar, o tempo cada vez será mais curto. E a pergunta é: O que é que estamos a fazer com este tempo? Estamos mesmo a ser atuantes?

Todos temos de ser mais eficientes. Todos. Desde as empresas de silvicultura até aos cidadãos, as autarquias, o Estado e o setor privado, todos são soldados nesta luta.

Os verdadeiros atores têm que se chegar à frente, têm de saber o que é que vai ser de cada uma das regiões dentro de 20 anos, 30 anos, ou 40 anos.

De quem é que está a falar? Quem são esses atores?

Todos. E essa é a dificuldade do problema. São todos.

Falo da super-divisão da propriedade, do direito sucessório, o emparcelamento ou não emparcelamento, a fraca quantidade de território que nós temos nas mãos de parques nacionais – que devia ser muito mais, o problema dos direitos de construção.

Nós tivemos décadas, para não dizer séculos de falta de organização. Não vamos seguramente passar da falta de organização para a super-organização, mas podemos melhorar. Para isso precisamos de um caminho, para sabermos para onde vamos.

Temos que dar uma volta grande a isto tudo, no sentido de sermos mais resilientes. Umas coisas serão por ordenamento, outras por proibição, e outras por comportamento, mas o essencial do problema estará sempre lá: Eu lamento dizê-lo, mas o essencial é que o clima está a mudar, e nós não conseguimos mudar tão depressa como o clima.

Que previsões tem para os próximos tempos? Até ao final do ano, por exemplo.

Existe um sistema integrado de todos os países, que gere um previsor único para todos, e ele diz-nos que, para nós, a situação não é ainda de equilíbrio até março de 2023.

Diz-nos que vamos ter precipitação abaixo do normal e temperatura um bocadinho acima do normal. Não diz que vai ser catastrófico, atenção, são coisas diferentes. Basta um acontecimento como o ciclone “Danielle” para repor a normalidade no mês de setembro. Isto foi um achado, foi sorte, a vida tem sorte e azar, e isto foi sorte. Mas nós temos que repor um ano e meio de seca nalgumas zonas do território. Como é que a vamos repor? Iremos alguma vez repô-la?

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