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Miguel Miranda, presidente do IPMA

“Temos que ter capacidade de atuar quando as pessoas mais precisam de nós”

19 jul, 2022 - 06:30 • Rosário Silva

A onda de calor, que se prolongou por mais de uma semana, terminou no fim-de-semana, segundo o presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. As temperaturas elevadas vão manter-se nos próximos dias, mas em valores de um verão considerado normal.

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O presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Miguel Miranda, diz, em entrevista à Renascença, que a onda de calor, “esse episódio, de quadro sinótico, terminou este fim-de-semana”.

Assim, nos próximos dias, as temperaturas não deverão chegar aos valores da semana passada, embora o tempo quente continue a fazer-se sentir em Portugal continental.

Miguel Miranda admite que o aumento previsto das temperaturas a partir de quarta-feira possa justificar o regresso ao estado de contingência.

“Pode justificar. É mais uma questão de gestão de meios. Repare: nós saímos de uma situação de contingência, mas continuamos em alerta”, aponta. "Têm de ser feitas as mesmas restrições à atividade nas zonas florestais”, completa.

Por outro lado, o presidente do IPMA considera que o país não pode estar sempre em alerta vermelho. É preciso “assinalar as épocas mais duras, mesmo quando às vezes as épocas menos duras são, igualmente, difíceis”.

Sobre o recuo do Governo no nível de resposta de contingência para situação de alerta, o presidente do IPMA diz que “é preciso sempre modelar o perigo dos acontecimentos naturais, de forma que se reforce a nossa posição, quando eles são ainda mais duros”.

Onda de calor “inferior” à de 2003

O mais recente boletim do IPMA consultado pela Renascença, revela que até agora, o dia mais quente do ano, foi o 13 de julho, com um valor médio da temperatura máxima do ar, a atingir os 40 graus, ficando também na história da meteorologia, como o 5º dia mais quente dos últimos 23 anos em Portugal continental.

Ainda não foi desta que a Amareleja, no concelho de Moura (Beja) perdeu o recorde dos 47,3 graus registados em agosto de 2003, um ano que, recorde-se, fez milhares de mortos por toda a Europa.

A 15 de julho, a vila de Pinhão, na região do Douro, andou muito perto da máxima atingida no Alentejo, com os termómetros a marcarem os 47 graus.

Esta onda de calor, “do ponto de vista da duração”, foi, no entanto,” inferior” à registada em 2003. O fenómeno até nem é tão inusitado, sendo que o supreendente, foi a sua durabilidade no tempo e o facto de ter atingido, de forma acentuada, também, o litoral.

“Este tipo de fenómenos não é invulgar, mas normalmente tem, ou moderação mais pequena, ou atinge sobretudo as zonas da Andaluzia e do Alentejo, e não se espalha, praticamente, até à costa ocidental e foi o que aconteceu desta vez. Nós tivemos situações de humidades inferiores a 20% e 15%, encostadas ao litoral”, conta, o geofísico.

A situação que se verificou na Península Ibérica foi de tal forma que, acrescenta, “durante mais de uma semana, tivemos massas de ar quentes e secas, provenientes do Norte de África que ‘invadiram’ a península, mas chegaram quase à nossa costa”.

O presidente do IPMA recusa fazer previsões a longo prazo, por isso não sabe o que se pode esperar até ao final do verão, num ano particularmente seco.

“Temos um grande nível de preocupação, não vou negar. Foi um dos anos hidrológicos mais secos da série e, portanto, quando começamos o verão já em défice hidrológico, em quase todo o continente, é óbvio que estamos com grande preocupação sobre o estado em que vamos chegar aos meses de setembro, outubro”, alerta.

Uma preocupação baseada na experiência de “anos anteriores muitos secos”, em que “houve grandes incêndios florestais no fim do verão”.

“Ano anormalmente quente”

Conhecedor de fenómenos extremos, o geofísico confessa à Renascença que não se lembra de ter assistido a semelhante cenário, nos últimos anos, até porque “todas as situações são diferentes. Da sua longa atividade nesta área, Miguel Miranda recorda, como mais marcantes, os acontecimentos de 2017.

“Foi das situações mais complicadas que analisamos, pois foi de uma enorme intensidade, embora bastante mais curta no tempo”, recorda, indicando que “a meteorologia previu bem, mas veio a mostrar-se bem mais violenta que a previsão, devido aos tais fenómenos de dinâmica extremos que se verificaram”.

“Depois, em outubro de 2017”, prossegue, “tivemos o furacão que entrou pelo país adentro, numa situação para a qual também não tínhamos experiência, nem as pessoas atingidas, nem nós, profissionais da área”.

O presidente do IPMA refere que a situação atual “é diferente das duas anteriores”, conjugando “um ano muito seco e um período de temperaturas em níveis máximos”.

“Acho que todos os que saímos à rua, já percebemos que estamos num ano anormalmente quente”, observa.

O também fundador do IPMA reconhece que, apesar da longa experiência, ainda se surpreende com os fenómenos da natureza, pois traduzem-se em “novos quadros”, aos quais “não estamos habituados”, procurando, “todos nós, os atores”, em conjunto, “encontrar o caminho que dê menos prejuízo ao país e às pessoas, o que é muito difícil”.

“A ideia que possamos ter da existência de menos recursos para atalhar situações extremas, é irrealista. Independentemente das causas, temos que ter capacidade de atuar quando as pessoas mais precisam de nós”, remata, Miguel Miranda.

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