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Este foi o junho mais mortal dos últimos 42 anos

14 jul, 2022 - 06:35 • Inês Rocha

É possível que este seja o número mais alto de mortes em Portugal em junho desde sempre. E julho está a seguir a mesma tendência. O que explica estas mortes em excesso?

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Pelo menos desde 1980 que não morriam tantos portugueses num mês de junho. Só em junho de 2022, registaram-se 10.215 mortes em Portugal - uma subida de 26% face à média de mortes diárias entre 2009 e 2019, o intervalo de referência pré-Covid. É a primeira vez que o mês de junho regista mais de nove mil mortes.

É até possível que este seja o número mais alto de mortes em Portugal em junho desde sempre. "Uma vez que a tendência de aumento de mortalidade devido ao envelhecimento da população é de subida, se não se verificou de 1980 a 2021 nenhum mês de junho com mais de nove mil óbitos, à partida será o ano que apresenta o mês de junho com mais óbitos", revela Carlos Antunes, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O mesmo já tinha acontecido no mês de maio, e poderá voltar a acontecer no mês de julho, se a tendência das duas primeiras semanas continuar. "Estamos a caminho, em termos médios acumulados, das 10 mil mortes", revela Carlos Antunes. Neste caso, já não será inédito. Em 2020, foram registadas 10.425 mortes em julho.

"A média de julho entre 2000-2019 é de 8.154 mortes. O valor acumulado de óbitos até ao dia 12 já está ao nível do mês de junho", diz o matemático.

"Se continuarmos com dias com excesso de mortalidade como estamos a verificar agora, e se a onda de calor tiver impacto, porque temos uma onda mais prolongada no tempo e com intensidade mais elevada, atingiremos também as 10 mil mortes", revela. Nesse caso, "será o nono mês consecutivo com mais dez mil óbitos por mês".

Terceiro dia com mais mortes este ano foi em junho

O dia 14 de junho foi o terceiro dia com mais mortes este ano - um lugar habitualmente ocupado pelos meses do inverno. Só nesse dia, morreram 414 pessoas em Portugal. Entre 2009 e 2021, foram registadas em média 262 mortes nesse dia.

O que explica este excesso de mortes neste mês? A Covid-19 representa só parte do problema.

Em junho, houve um total de 977 mortes por Covid-19, o que representa apenas 10% do total de mortes no mês. Se olharmos para o excesso de mortes registado em junho, face à média histórica, a Covid representa menos de metade das mortes (43%). O que explica as restantes 1.302 mortes a mais?

A Direção Geral da Saúde não consegue ainda detalhar as causas de morte de forma concreta. Numa resposta enviada à Renascença, a entidade diz que "a codificação (dos óbitos de 2021 e de 2022) ainda se encontra a decorrer e necessita de ser validada com o INE".

A DGS lembra que "a codificação das causas básicas de morte é um processo realizado de forma retrospetiva, obedecendo às recomendações da Organização Mundial de Saúde".

Não tendo dados concretos que mostrem quais as causas de morte mais frequentes, a DGS diz que nos Relatórios de Monitorização da Situação Epidemiológica da COVID-19 de 25 de maio, 1 de junho e 8 de junho, foram identificados "períodos de excesso de mortalidade por todas as causas,

associados ao aumento da mortalidade específica por COVID-19".

A DGS aponta ainda o calor como um dos fatores que pode ter levado a este aumento. "A temperatura média do ar semanal tem estado acima do normal para esta época do ano, o que poderá igualmente estar a condicionar o período de excesso de mortalidade observado em Portugal".

Calor pode explicar parte das mortes em excesso

Paulo Santos, médico e investigador do CINTESIS - Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde concorda que o aumento da temperatura poderá explicar parte do excesso de mortes registado em junho, já que "este pico de mortalidade corresponde sobretudo a mortalidade não prematura, acima dos 70 anos".

"Acaba por corresponder um bocadinho àquelas mortes expectáveis, mas muito concentradas provavelmente por causa do pico de calor", diz à Renascença.

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) classificou o mês de junho de 2022 como "quente e seco". Dados do IPMA mostram que na véspera do pico de mortes registado a 14 de junho, Portugal Continental atingiu os 34ºC de temperatura máxima. Ainda assim, não foi o dia mais quente do mês. No dia 25 de junho, Santarém atingiu os 39.4°C.

Em todo mês de junho, a temperatura média foi de 20.40 °C, +0.98 °C superior ao valor normal no período 1971-2000. Valores de temperatura média superiores aos agora registados ocorreram em 25% dos anos desde 1931.

Esta poderá ser uma explicação, mas o professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) lembra que nunca vamos ter uma contabilidade direta que indique quantas pessoas morreram por causa do calor. "As pessoas não morrem por causa do calor, morrem de doença cardiovascular, de cancro, de doença respiratória, de doença infetocontagiosa. Estas serão as causas de morte durante este verão, como são normalmente durante o ano inteiro ".

O calor extremo, continua o investigador, é um fator de risco que pode fazer com que as doenças se manifestem de forma mais grave. "Quanto mais dias se prolongar", mais significativo será o impacto - como poderá acontecer na vaga de calor desta semana.


Problema climático "não se resolve no Conselho de Ministros". Mas pode ser mitigado (e não é)

Paulo Santos lembra que as alterações climáticas são "uma emergência mundial" e que o problema "não se resolve no Conselho de Ministros". Ainda assim, há formas de mitigar o problema junto da população.

"Nós temos um Ministério da Saúde que se preocupa muito - e bem - com o tratamento das doenças e o apoio aos doentes. E tem alguma incapacidade, aliás, muita capacidade de antecipar estes problemas e de alguma forma pensar em saúde".

O médico, que é também presidente do Colégio de Especialidade de Medicina Geral e Familiar lembra que as doenças associadas ao calor se combatem com "educação e literacia" da população. "Se nós conseguirmos que os nossos velhinhos bebam mais dois ou três copos de água por dia, nós vamos poupar realmente muitas complicações".


"Adiar em saúde chama-se sofrimento, chama se doença, chama-se morte. É este o prejuízo que nós temos", afirma o professor.


Mortes causadas indiretamente pela Covid? "Vamos andar a pagar os juros do que não fizemos durante estes dois anos"

O professor da FMUP considera que "a Covid não justifica as mortes todas diretamente, enquanto causa de morte, mas há uma desestruturação muito grande em termos sociais e dos serviços de saúde", que poderá também ajudar ao aumento no número de mortes.

"Já tivemos outros picos de calor, tínhamos tido 2013, em 2014 e no o ano dos incêndios de 2017 também", lembra o médico, que considera que este ano há um fator a pesar nos números: tudo o que a pandemia veio parar.

"Ficou tudo em suspenso. Ficou tudo muito adiado e o problema é que o adiar em saúde chama-se sofrimento, chama se doença, chama-se morte. É este o prejuízo que nós temos", afirma o professor.

Paulo Santos considera que há responsabilidade política. Se nos meses iniciais o desconhecimento levou todo o mundo a fechar tudo, num ato de auto-defesa, "logo a seguir percebemos o que é que estava em causa e como é que podíamos atuar". "Podíamos ter feito de forma diferente. Sobretudo mantendo as instituições a funcionar e isso não foi feito. Na saúde isso notou-se muito e vimos um atraso muito significativo no apoio aos serviços de saúde e aos cuidados de saúde normais", lembra.

"Vamos andar a pagar os juros do que não fizemos durante estes dois anos", considera o professor. "Há aqui uma responsabilidade técnica, mas há sobretudo uma responsabilidade política de não se ter gerido a crise da melhor forma", defende.

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  • Francisco
    11 ago, 2022 Olhão 21:20
    Este aumento de mortes não cinge apenas ao nosso país. Estará na altura de sermos corajosos e realmente abrir os olhos para aquilo que tem sido dado às pessoas desde o ano passado como solução para o "regresso ao normal".
  • Americo
    15 jul, 2022 Leiria 10:36
    Bom dia. A " pancada ideológica " que gere o SNS, está a dar os seus "frutos" ?

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