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Pedrógão cinco anos depois. Ana perdeu os pais no fogo e o cheiro a morte perseguiu-a durante meses

17 jun, 2022 - 16:55 • João Carlos Malta (texto e fotos)

Ainda hoje a mulher de 51 anos se debate com os “ses”. O que poderia ter feito e o que fez que levou ao desfecho fatídico. Teve de pedir baixa para conseguir lidar com as memórias, e demorou dois anos a conseguir fazer o luto.

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Aquele cheiro não desaparecia. Parecia estar em todo o lado. Às vezes, bastava um penso cirúrgico que abria no hospital e estava de imediato de novo em Sarzedas de São Pedro, em Castanheira de Pera. Foi naquela aldeia que os pais de Ana morreram a fugir de carro, mesmo junto ao cemitério da povoação.

Quando lá chegou depois da tragédia, houve um odor que se entranhou nela. A mulher de 51 anos descreve-o como “metálico”. “Não é um cheiro típico de uma queimada, tudo ardeu, os vidros arderam, os animais, as pessoas”.

Os pais Maria Odete Bernardes, de 71 anos, e Manuel Bernardes, 78 anos, saíram de casa com o ouro e outros pertences, mas não conseguiram escapar às chamas. Foram duas das 66 vítimas mortais do fogo de há cinco anos na região de Pedrógão Grande.

“Quando aqui cheguei, sentia-se um cheiro metálico, era um cheiro que se ia entranhado em tudo e que levou meses para sair nos espólios do meu pai”, recorda, lembrando-se de uma carteira que teve meses a arejar.

Qualquer cheiro mais intenso a transportava para a tragédia, tanto que teve de pedir uma baixa médica, durante quatro meses, para resolver o problema. “Deixei de usar perfume. Tudo o que tinha um cheiro mais forte puxava o cheiro metálico e a memória”, sublinha.

Teve de pedir ajuda psiquiátrica, e até a especialista se admirava com a ligação sinestésica que Ana fazia. “Não conseguia trabalhar. Ficava apática”, explica.

Os “ses”

Durante muito tempo teve ainda de se debater com os “ses”. No fim de semana da tragédia, os pais estiveram para ir a Almada para a festa do fim de ano letivo da neta. Mas na altura, Ana passava por um processo de divórcio e a mãe Maria Odete não queria cruzar-se com o agora ex-marido da filha.

Ana incentivou-os a ficar em Castanheira de Pera. Foi o último telefonema. A menina de 10 anos, na altura, ouviu a chamada e, várias vezes, dizia-lhe: “Se não tivesses dito aos avós para ficarem, nunca tinha acontecido”.

“Não é fácil, mas não me posso culpabilizar por isso”, acrescenta. A isto junta-se a ideia de que se os pais não tivessem saído de casa, se tivessem ficado no quartinho em que imaginou que se iam refugiar no rés-do-chão a moradia de dois andares em que viviam − e que ficou intacta − ainda estariam vivos.

Dois anos para começar o luto

São questões que tenta fechar, mas que volta e meia regressam do local das memórias em que tentou encerrá-las.

Na altura dos incêndios de Pedrógão, Ana Bernardes passava uma fase complicada da vida pessoal − um divórcio atribulado. Tudo junto, fez com que durante dois anos não fizesse o luto por tudo o que aconteceu.

“Eu não fiz luto coisa nenhuma. Separei-me e o meu foco, no imediato, foi a minha filha e, portanto, foi trabalhar em função de minimizar os danos nela, e minimizar o impacto nela, em todas as frentes”, recorda.

Só em 2019 é que Ana parou. “Tive necessidade de meter uma licença sem vencimento para sair do hospital e me focar também nela, mas para começar a resolver as minhas outras coisas. E aí sim, foi quando, mais tranquilamente, entrei no processo”, concretiza.

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"Há duas coisas que tenho alguma dificuldade em ultrapassar, e isso refletiu-se em termos profissionais. Quando aqui cheguei havia um odor forte, um cheiro metálico que se entranhava em tudo".

Só nessa altura começou a arrumar as peças que ficaram desorganizadas. “Foi depois de estar em casa, de parar, e decidir trazer as coisas todas para cá [mudou de Almada para Coimbra], decidir também o que fazer à minha casa, o que fazia à casa dos meus pais, foi nessa altura que eu acho que comecei a trabalhar o luto”, relembra.

Julgamento revolta

Apesar de a gestão de perder os pais numa situação tão trágica ser sempre difícil, Ana nunca sentiu revolta. Mas o julgamento que decorre para apurar responsabilidades sobre o que aconteceu há cinco anos, tanto na prevenção como no combate, está a fazer com que o sentimento venha à tona. “Isto não suaviza, a mim revolta-me. Acho que é injusto”.

Entre os 13 arguidos estão o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, responsável pelas operações de socorro, e dois funcionários da antiga EDP Distribuição (atual E-REDES), José Geria e Casimiro Pedro.

Há ainda três funcionários da Ascendi e os ex-presidentes das câmaras de Castanheira de Pera e Pedrógão Grande, Fernando Lopes e Valdemar Alves, respetivamente, o antigo vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande José Graça e a então responsável pelo Gabinete Florestal deste município, Margarida Gonçalves, estão igualmente entre os arguidos, assim como o presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, Jorge Abreu.

Ana sente que “há muitos bancos vazios”. “É incrível como é que se imputa a responsabilidade ao comandante Arnaut. Que eu saiba, ele não virou as costas. Que eu saiba ele não abandonou, ao contrário de outros ele tentou”, critica.

Lamenta o processo de desresponsabilização que muitos incorporaram, e como familiar de duas vítimas mortais do fogo clama: “Se pensam que suaviza as perdas, uma condenação, ou duas, ou três, ou as que forem, a mim não. Pelo contrário, deixa-me revoltada”, remata.

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