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Mais gordos e ensonados, mais dependentes de álcool e de medicamentos. Retrato de Portugal pós-pandemia

27 mai, 2022 - 00:01 • Rosário Silva , José Carlos Silva

A Fundação Francisco Manuel dos Santos analisou os impactos sociais, económicos e políticos da crise pandémica e apresenta esta sexta-feira o estudo “Um novo normal? Impactos e lições de dois anos de pandemia em Portugal”. Estudo conclui que os jovens e as mulheres foram os mais afetados pela pandemia.

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Foto: EPA
Foto: EPA

As mulheres, os jovens e os mais pobres foram os grupos mais afetados pela pandemia, nos planos do bem-estar, da saúde mental e da coesão social, num Portugal que mostrou ser particularmente vulnerável aos efeitos de uma crise pandémica, social e economicamente.

Estas são conclusões do estudo “Um novo normal? Impactos e lições de dois anos de pandemia em Portugal”, promovido Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) e coordenado pelos investigadores Nuno Monteiro e Carlos Jalali. O trabalho analisa, em diferentes dimensões, os impactos que a pandemia gerou na vida dos portugueses.

Se, enquanto doença, a Covid provocou níveis de mortalidade que, em alguns países e num tão curto espaço de tempo, são apenas superados pelos causados pela gripe espanhola, também teve efeitos, por exemplo, na nossa sociedade, na economia e mesmo na democracia, tendo mudado a forma como vivemos, nos relacionamos, trabalhamos ou estudamos.

Dois anos de pandemia, com impactos agora traduzidos neste estudo “inovador no contexto nacional” da FFMS, onde se estudam os efeitos sociais, económicos e políticos da pandemia e cujas conclusões são apresentadas no encontro de dois dias (27 e 28 de maio), “Outra Vez Nunca Mais”, em Lisboa, onde dezenas de especialistas vão debater as respostas e linhas de ação para prevenir e mitigar os impactos de futuras pandemias, em Portugal.

Entre outras fontes, o trabalho dos investigadores baseou-se num inquérito de opinião aplicado à população portuguesa, efetuado em duas vagas. Na primeira, o trabalho de campo realizou-se entre 16 de março e 20 de maio de 2021, num total de 3.463 entrevistas (inquéritos online e entrevistas telefónicas).

Na segunda vaga, também o ano passado, mas entre 6 de setembro de 2021 e 25 de outubro, foi feita uma reinquirição de cerca de 50% da amostra da primeira vaga, num total de 1.640 novas entrevistas.

A Renascença leu o documento e resume o essencial das conclusões a que se chegou nas diferentes áreas.

Crise e recuperação: dois anos de pandemia na economia portuguesa

Em termos económicos, o estudo confirmou o momento difícil para a economia portuguesa, também ela vulnerável aos efeitos imediatos de uma crise pandémica, tendo reforçado a urgência de duas questões concretas: a redução do seu nível de endividamento e a aceleração do crescimento.

“A confirmar-se uma tendência para a recomposição da atividade económica, a pandemia pode também vir a reforçar o difícil ‘trade-off’ entre a necessidade de aumentar a produtividade da economia portuguesa e de reduzir situações de exclusão social”, lê-se no texto final.

A verdade é que a pandemia agravou as desigualdades já existentes, com efeito regressivo e penalizando, principalmente, os trabalhadores com salários mais baixos e as classes de menor rendimento.

“Aumentou o prémio de empregabilidade para os mais qualificados e simultaneamente penalizou os mais jovens e os mais velhos, sobretudo aqueles com menor escolaridade e com vínculos de emprego mais instáveis”, é referido.

Nesta área, a crise pandémica promoveu o teletrabalho e aumentou as assimetrias entre sectores a este respeito, tendo aumentado a procura por emprego qualificado, assim como o peso do emprego público.

“A pandemia originou ainda alguns dos mecanismos de aumento da inflação que foram reforçados pela eclosão da guerra na Ucrânia”, acrescenta o estudo, sublinhando que a “natureza exógena da crise e a resposta política das instituições públicas, nacionais e europeias”, permitiram o regresso à normalidade, sobretudo depois da disseminação das vacinas.

A Covid-19 e a sociedade portuguesa

Numa reflexão sobre a sociedade, confirma-se que os grupos mais prejudicados pela pandemia já eram considerados dos mais vulneráveis da sociedade, nomeadamente as mulheres, indivíduos de estratos socioeconómicos mais desfavorecidos e jovens.

“Em Portugal, a pandemia teve impactos negativos na coesão social, no bem-estar e na saúde mental da população, aumentando desequilíbrios e desigualdades pré-existentes”, é afirmado.

No que toca ao impacto das medidas restritivas sociais na saúde e no bem-estar dos portugueses, destaca-se o aumento de peso, em 31% dos inquiridos; a redução das horas de sono ,30%; o aumento do consumo de psicofármacos, 9,4%; bem como do consumo de tabaco e álcool, 8,1%.

“Estes impactos negativos afetaram sobretudo os mais jovens, com idades inferiores a 30 anos, e foram mais evidentes entre as mulheres, exceto no que se refere ao consumo de tabaco e álcool”, ressalva o texto.

Os confinamentos acabaram por ter consequências ao nível, por exemplo, da ansiedade, mas com níveis diferentes em função do escalão etário, do género e da classe social.

“Quanto maior é a idade dos indivíduos, menor é o nível de ansiedade reportado, sendo que as mulheres declaram níveis de ansiedade superiores aos dos homens”, foi a conclusão.

Dizer também que desde o início da pandemia até outubro 2021, 45% dos inquiridos nunca estiveram em regime de teletrabalho, 17% estiveram sempre em teletrabalho e cerca de 38% alternaram entre o trabalho presencial e o trabalho remoto.

“68% dos indivíduos que dizem pertencer à “classe baixa” e 48% dos indivíduos que dizem pertencer à “classe média-baixa” trabalharam presencialmente entre 2020 e 2021. Os indivíduos de “classe média-alta” trabalharam integralmente à distância (36%) ou em modo misto (46%)”, pormenoriza o documento.

Quanto ao estudo em casa, “três em cada 10 portugueses reportaram ter sentido necessidade de equipamento eletrónico adequado para os filhos estudarem em casa”.

Pandemia uma doença que se globaliza

Neste campo, para a maioria dos portugueses, na resposta à crise pandémica, não existiu uma “liderança clara”, quer por parte de estados, quer de organizações internacionais.

Ainda assim, e olhando para a segunda vaga do inquérito, 57% dos cidadãos consideraram que a pandemia teve um impacto positivo ou muito positivo na imagem externa de Portugal.

“Esta perceção melhorou bastante, de 23% para 50%, entre a primeira vaga e a segunda”, revela o estudo que dá ainda conta que “79% dos portugueses avaliavam positivamente a decisão de centralizar a compra de vacinas na União Europeia”.

Também na segunda vaga do inquérito, “40% dos cidadãos e dos políticos inquiridos consideravam que o Estado português está nada ou pouco preparado para enfrentar crises complexas como uma pandemia desta dimensão”, enquanto que “21% acreditavam que o Estado está preparado para tal”.

Ainda nesta área, “76% dos cidadãos consideravam que as Forças Armadas portuguesas tiveram uma atuação muito positiva durante a pandemia”, de resto, consideradas “o sector do Estado” com maior crédito junto da população.

Democracia. Impacto da Covid-19 no sistema político português

Em Portugal, revela o documento, o apoio dos cidadãos à democracia “não aparenta ter sido abalado pelo surgimento da pandemia”, embora “a satisfação com o funcionamento da mesma tenha decrescido de forma muito considerável”.

Dos inquiridos, mais de metade dos inquiridos, “56%, considerou que o Estado deve dar prioridade à saúde pública em detrimento da atividade económica/emprego, 17%, durante a segunda vaga do inquérito”.

Nesta área em concreto, a percentagem dos que apoiam um governo de especialistas aumentou, após a emergência da pandemia, em cerca de dez pontos percentuais, situando-se em 69%, em 2021”.

A pandemia reforçou as críticas dos partidos políticos à União Europeia, mas apenas “naqueles que já assumiam uma posição eurocética”, mas, por outro lado, o nível de confiança dos portugueses nas instituições europeias aumentou durante a pandemia: “cerca de 80% confiam no Parlamento Europeu e na Comissão Europeia”.

Quanto aos apoiantes de partidos, quer de direita, quer de esquerda, distinguem-se quanto à avaliação da gestão da crise por parte do governo, bem como no que toca à aceitação de limitações das liberdades. “Os cidadãos que se posicionam à esquerda tendem a considerar as restrições às liberdades públicas mais justificadas do que os eleitores de direita”, foi concluído.

"Nem todos estavam no mesmo barco"

Em declarações à Renascença, Carlos Jalali, coordenador do estudo da FFMS sublinha que a pandemia colocou em evidência várias desigualdades. "Foi uma tempestade em que nem todos estavam no mesmo barco", diz.

Olhando para o efeito particular sobre os jovens, este investigador refere que "esta pandemia não foi para jovens. A nível económico e a nível psicossocial os jovens foram particularmente atingidos e as mulheres também".

Em causa está a precariedade dos vínculos laborais num grupo etário que registou elevados níveis de depressão e de ansiedade.

Mais de dois anos após o início da pandemia, Carlos Jalali reconhece que o estudo que vai ser apresentado esta sexta-feira não se resume a fazer um diagnóstico do problema, mas a apresentar soluções para o futuro.

"Compete a todos nós pensarmos o que queremos que seja este novo normal pós pandemia. Um primeiro desafio económico é assegurar que a tendência para a digitalização que este estudo identifica seja mantida - pelos efeitos positivos na produtividade - sem pôr em causa a coesão social. Uma segunda nota é desenvolver as competências políticas dos grupos socio económicos mais desfavorecidos", remata.

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