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Reportagem

Famílias numerosas. “Despesa mensal de alimentação é muito superior a um salário mínimo nacional”

14 jan, 2022 - 08:00 • Liliana Carona

Esta família de Seia, composta pelos pais e seis filhos, diz que os debates dos candidatos às legislativas não têm trazido à discussão a problemática do inverno demográfico e da falta de apoios à natalidade.

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Duarte, de oito anos, apresentar a família, “Sara, Lucas, eu sou o Duarte, Cíntia, Valentina e Vitória”.

“Ginger, Ginger”, grita Vitória, de dois anos, a mais nova dos seis filhos do casal Ricardo e Fátima Mota Veiga, enquanto afaga no colo a cadela que foi presente de Natal.

Seis filhos obrigam a uma gestão detalhada. “Já pagamos à volta de 200€ por mês de eletricidade e a nível de alimentação é sempre acima de um salário mínimo... e só os bens essenciais, nada extravagante”, reflete Ricardo.

Fátima assegura que dois litros de leite dão no máximo para um dia, sublinhando que fazem compras no Intermarché, onde têm o cartão das famílias numerosas e o cartão bebé, “o que permite que a cada dia 25 de cada mês tenham o total de 30% de desconto. Nessa data vamos sempre às compras, sempre à procura das promoções, de fraldas, dos detergentes”, enumera esta mãe que é gestora numa empresa e também colabora na do marido.

Sempre atentos às promoções e às promessas feitas à porta das eleições legislativas. Mas para Ricardo Mota Veiga, de 44 anos, que acompanha os debates. “são promessas. Não estou à espera delas, porque não têm sido cumpridas”, desabafa.

Lembra a luta da Associação das Famílias Numerosas para um maior apoio no IMI, no imposto sobre os veículos (pois têm de ter um monovolume), na conta da eletricidade. São despesas diferentes das outras casas, visto serem precisos mais quartos, vários miúdos a estudar e mais banhos.

Aos 16 anos, Lucas Veiga, a frequentar o 10.º ano, confessa que já vai deitando o olho aos debates juntamente com a irmã Sara, de 18 anos. “ Acho que é importante perceber alguma coisa de política na minha idade...pois daqui a algum tempo já vou votar”, conclui.

“Perguntam-nos sempre se recebemos muito de IRS, mas enganam-se, e até houve alguns anos em que tivemos de pagar. Quanto à eletricidade pagamos o IVA a 13% aos primeiros 150KWA, mas nem dá para usufruir do desconto, porque é só para quem tem potência contratada de 6.9KWA e uma família numerosa não consegue ter essa potência com todas as máquinas de lavar e secar”, denuncia Fátima, de 35 anos.

O pai Ricardo apela à criação de “uma medida séria em que as pessoas possam ser levadas a ter mais filhos, porque mesmo aqui - com as vantagens de viver no interior - o salário mínimo, não é comportável para ter mais que dois filhos, não se consegue”.

Para o casal, junto há 10 anos, a luta é diária, mas a decisão consciente de ter filhos foi sempre um desejo de ambos.

“Todos os meses temos de fazer essa gestão, mas que nos dá orgulho e gosto. Quando estamos num restaurante ficam a olhar para a mesa cheia. «Mas são primos? São todos filhos?», questionam. Gostamos imenso quando nos felicitam”, assume Ricardo, que tinha dois filhos, quando conheceu Fátima.

Onde comem dois, comem três?

"Isso já não é bem assim e muito menos com seis filhos”, assume Ricardo, recordando que dantes as crianças até podiam ir com as calças rotas para a escola e hoje a sociedade faz outras exigências.

Uma luta feita de mão com dada com Fátima para quem os discursos políticos não são dirigidos às famílias numerosas. “Não nos arrependemos da nossa decisão, mas não temos ajudas. Ser família numerosa é só um título e não ganhamos nada com isso. Na água, através do município e como família numerosa, temos 10% de desconto; a redução do IMI em 70€; recebemos da Junta de Freguesia no primeiro filho 250€ e nos seguintes 300€; e temos as vacinas comparticipadas. Contudo, não temos direito a abono, porque o meu marido tem uma empresa em nome individual e tudo o que fatura é lucro dele e é assim que a Segurança Social vê a nossa situação”, lamenta.

Aproveita para deixar outra reivindicação na área da educação. “Temos muito material escolar, muita despesa, mas nem tudo entra no IRS. ATL, centros de explicações, centro de estudos, nada disso entra no IRS, nada é dedutível. Somos muito discriminados. As famílias numerosas são menos de 5% em Portugal”, alerta.

O casal assume que suscita curiosidade. “Mas tiveste quantos partos? Foi tudo normal, tu dormes? Conseguem ter tempo só para vocês?” conta Fátima, admitindo estar sempre a falar dos filhos quando têm uma saída a dois.

Fátima e Ricardo concordam: “Até podiam vir mais filhos, mas sem condições e sem benefícios, não. É uma vantagem viver no interior, temos os pais perto, o centro escolar perto, mas os apoios noutros países, como a Suíça ou o Luxemburgo são outros. Acreditamos que há mais casais a querer ter mais filhos, mas não têm essa possibilidade”, asseguram, enquanto colocam estrategicamente os seis filhos no sofá para a fotografia.

“Temos de nos juntar mais, senão alguém fica de fora da foto.”

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